“Estou desenganado”, assim declarou o amigo poeta, nobre vate, cuja beleza da poesia e a nobreza da alma irradia. “O problema é no coração”, disse o homem, que tem na emoção da poesia sua mais vívida e intensa expressão.
“Poetas não deviam morrer”. Li isso há algum tempo em algum lugar, que não lembro onde nem quem disse. À mente me vêm os versos de “A Esperança”, de Augusto dos Anjos: “A Esperança não murcha, ela não cansa…” E seu final, que demonstra que, sim, ela só termina no último suspiro.
Ainda me diz o Poeta, que é daqueles que merecem uma inicial maiúscula — e que ele poderia usar como prenome, pronome, substantivo, sobrenome, adjetivo —, que não torce para morrer, mas também não sente medo. Essa afirmação me enche de coragem, e deixo então de pensar em bobagem, e naquilo que possa comigo acontecer — e que fatalmente irá, pela minha existência, meus vícios e desamores —. Será que também eu não sentirei medo? Este é o meu grande e insepulto segredo.
Tento lhe dizer algo, mas nesses momentos, este poeta tagarela se mantém mudo, sem saber o que falar e nem o que pensar. Nunca soube enfrentar essas situações. Nunca sei se conforto, elevo as esperanças ou me atiro no fatalismo. Penso também que se me calar, posso ser entendido como insensível, falso poeta e invisível ser humano.
Digo a ele, sempre com receio de que qualquer coisa que eu disser possa piorar as coisas, que na minha poesia, desde minha adolescência, sempre falei sobre morte, sempre a louvei, desejei. Mas, claro que reconheço que são apenas palavras de um poeta sempre pessimista quanto a si, e otimista para com os demais. E caio na armadilha do falso altruísta, que olha para seus dentes e esquece o dentista.
De fato, cheguei muitas vezes tão perto dela, que pude escutar o pulsar do seu coração, acrescento, sentindo um tom de despedida, e tentando ser otimista, na obviedade dessas situações, ao mesmo tempo em que pessimista com todo o resto. De qualquer forma, digo-lhe, torço para que tua estadia aqui neste planetinha fracassado seja ainda muito longa, e que você ainda nos mantenha vivos com teus versos e brilho. — De fato me sinto um tolo, um idiota, por dizer isso a uma pessoa que breve estará longe de um mundo que talvez ame, e eu que em princípio ficarei, estar amaldiçoando o planeta.
Falamos um pouco sobre a maestria de Augusto, sobre ser o maior, que nunca pertenceu a nenhuma escola literária. — Ah, só nós, mesmo, velhos poetas velhos, para falar de poesia e de poeta, no meio de uma conversa tão funesta. E ainda me sentindo um verme às próprias carnes roer cito o “A Psicologia de Um Vencido”, feito um poeta hediondo, mexendo numa caixa de marimbondo.
Por fim, ainda comenta o nobre e resignado Vate, repetindo que não teme a morte, mas não quer morrer com falta de ar. Sobre isso lhe devolvo que também não temo a morte, mas sim as dores que eu possa sentir antes de ela chegar. Sempre fui muito sensível à dor, um covarde absoluto para ser mais claro, quando se trata de dores e amores. E acrescento que, como não tenho nenhuma crença, vejo a Morte apenas como a Eternidade do Nada.
Ao escrever isso, temo novamente ter sido um cretino sem alma, porque é bem possível que o Nobre Vate tenha suas crenças sólidas e irrefutáveis, e que então esteja a elas se apegando para se manter em sanidade e não se desesperar antes de ir. Que direito tenho eu de arrotar meu ateísmo diante dele? Reconheço meu direito de expressão, mas preciso pensar que o respeito tem que estar na direção.
Entretanto, preciso dizer em minha própria defesa, que há muitos e muitos anos, por várias situações desenvolvi um temor, quase um horror total, à morte alheia, incluindo lugares, palavras, odores, sons… Tudo! De hospitais a ambientes clínicos, de nomes de doenças fatais a cemitérios e tudo mais. Desenvolvi nojo pelo cheiro de flores — quaisquer umas —. Simplesmente não consigo me deparar com nada disso. Ah, sim, e por “coincidência”, simplesmente perdi a capacidade de chorar.
Meu amigo, o Nobre e Velho Vate, encerrou a conversa sem se despedir, apenas prometendo um novo poema. E fico aqui pensando que assim é melhor. Porque seria essa despedida, que poderia ser apenas de uma conversa, marcada como a derradeira, na eternidade do meu nada.
Antes de fechar, penso nas minhas rimas, nas estimas, e nos meus estratagemas. Penso em meus problemas e nas barracas da estrada que vendem ovos de duas gemas, mas me quedo silencioso e triste, sentindo saudades de quem ainda não se foi, e assim o sinto mais perto, como se num deserto, eu vislumbrasse uma miragem, que teria a minha própria imagem, feição e imperfeição. E nas brumas, a figura de um Poeta que partiu, talvez não para a Eternidade do Nada que eu acredito, mas para a saudade, num poema ainda não escrito.
Encerramos assim a conversa, cada um imerso em seus próprios pensamentos, esperando que nossos caminhos se cruzem novamente em algum verso ou em alguma rima, mantendo viva a chama da poesia que nos une, mesmo diante das incertezas da vida e da inevitabilidade da morte.
10/06/2024
Psicologia de Um Vencido
Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Profundo e pesado… O registro do momento ! Me identifico de diversas maneiras embora eu não seja um poeta.