Entre o rastro de tinta e a chama da imaginação, este prefácio apresenta um universo em que a criação não se limita ao papel: ela se estende em carne, garra e silêncio.
Falar de Zé Gatão é falar de uma vida inteira dedicada ao risco, ao traço e à palavra. Poucos artistas no Brasil conseguiram, com tanta consistência, erguer uma obra que transborda honestidade, vigor e coragem como Eduardo Schloesser. Sua criação é visceral, crua, sempre carregada de humanidade — ainda que encarnada na pele de uma fera. Talvez seja essa a maior ironia e também a maior genialidade de Zé Gatão: um animal que expõe, com mais clareza que muitos homens, a brutalidade, a dor e a beleza de existir.
Esses dois álbuns que agora temos a sorte de revisitar — Memento Mori e Daqui Para a Eternidade — são mais do que histórias em quadrinhos. São marcos de uma trajetória artística que não se dobrou a modismos, que nunca abriu mão da integridade estética e moral do autor. São livros que ferem e acariciam ao mesmo tempo. Que questionam, mas também confortam. Que nos lembram, a cada página, que viver é se confrontar com o abismo — e que a arte é a ponte que nos permite atravessá-lo.
Quando aceitei o desafio de publicar esses trabalhos pela BarataVerso, eu sabia que não estava apenas editando quadrinhos. Eu estava participando de algo maior: da preservação de uma voz única, que precisa ser lida, discutida e celebrada. Num país onde tanto se perde, onde a memória é sempre frágil, poder contribuir para que essas obras cheguem às mãos de novos leitores é, para mim, um privilégio e uma responsabilidade.
E aqui está a beleza dessa empreitada: não estou sozinho. Cada pessoa que apoia esta campanha torna-se também guardiã dessa obra, cúmplice de um gesto que vai muito além do mercado editorial. Estamos juntos erguendo um monumento de papel, tinta e alma, que resiste ao esquecimento e reafirma o poder transformador dos quadrinhos.
Por isso, convido você, leitor, a abrir estas páginas com o coração disposto. Zé Gatão não é entretenimento vazio, não é produto de consumo rápido. É arte que pulsa, que sangra, que morde e, de algum modo, cura. É Eduardo Schloesser em sua forma mais plena, mais entregue, mais imortal.
Eu, como editor da Menor Editora do Mundo, sinto que cumpro aqui uma das maiores missões da minha vida: dar palco e permanência a uma obra que nunca poderá ser esquecida.
Que você, leitor, encontre nessas páginas a mesma fúria e a mesma ternura que me conquistaram desde o primeiro contato. E que, juntos, possamos manter viva a chama de um artista que ousou ser verdadeiro quando tantos preferiram o caminho fácil.
— Barata Cichetto, Editor, BarataVerso Editora
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Suas palavras me emocionam, amigo, MUITO OBRIGADO!
Eduardo. Sua obra, além de visceral possui camadas que demandam muita atenção e sensibilidade por parte de quem lê, para perceber a real dimensão e a mensagem contida na luta de Zé Gatão pela sobrevivência, em seu universo hostil e distópico, nos dois referidos álbuns! Não basta uma única leitura para se notar claramente as nuances que se escondem em cada cena e em cada diálogo! É preciso ir a fundo, levantando cada camada, uma a uma! Apenas assim é possível alcançar o coração das duas obras, as quais na verdade são uma só!