Zé Gatão: A Força do Traço e da Tragédia

Entre a fúria felina e a crítica social, Zé Gatão nasce nos traços de Eduardo Schloesser como um reflexo brutal e poético da violência, dos abusos e dos regimes despóticos que atravessam a História.

1991 os tempos eram outros. O então neófito e sonhador Eduardo Schloesser com seus pincéis, canetas, tinta e muita imaginação estava em uma cidade hostil, grande demais, cinzenta demais; e, fria (nos dois sentidos do termo) demais para os recém chegados. São Paulo não se adapta a ninguém. É o contrário. É assim ou nada feito. São Paulo dá medo. E dá esperança, também.

E é nessa esperança, em meio mãos ruídos da grande metrópole que o artista resolve arriscar, dar um passo além naquilo que já sabia fazer, só que agora de forma, digamos, mais adulta, vislumbrando algo no futuro para a sua arte. Ok, toda caminhada começa no primeiro passo. Após riscos, rabiscos, traços indefinidos, folhas de papel descartados, e muitos retrabalhos, um personagem ganha forma: um ser antropomorfo, na forma de um lince mestiço, valente e musculoso nível hard: Zé Gatão, seu personagem número 1 deste então.

Nesse primeiro livro, Zé Gatão já tem impressa a sua marca: uma figura que não se enquadra nos padrões convencionais da vida, reagindo a todo e qualquer desafio com a força bruta de seus punhos – seus rivais pulhas não fazem por menos. Dono de níveis máximos de testosterona, o felino não dispensa aventuras, tampouco fêmeas. Mesmo sendo um brutamontes, o lince-gato é dono de uma certa humanidade que o destoa do universo violento em que vive, tornando-o, evidentemente, alvo fácil de figuras desprezíveis, em todos os sentidos.

Nisso, Eduardo apresenta o seu/nosso herói em uma aventura completa, iniciada em A Cidade do Medo; seguida por Drama, Theatro da Dor e encerrando em Veneno Crepuscular. As quatro partes são interligadas, de maneira que bravo felino resume a sua história de vida, iniciada por uma infância deveras infeliz, em razão dos abusos cometidos por um padrasto de conduta abominável, apesar do amor de sua mãe, porém submissa. Como forma de compensar o período de abusos de toda ordem, o menino Zé Gatão decide, em primeiro lugar, ganhar forças, literalmente, a fim de compensar (ou vingar-se) da sua situação de penúria. O resto eu não conto.

O que se nota, durante e após a leitura do livro de estreia do Zé Gatão é que, o traço de Schloesser dá às quatro histórias uma sinceridade (não sei se é bem esse termo) à proposta dessa HQ: dar fidedignidade às tramas, comparando-as a eventos reais da História, e um certo encaminhamento que não deixam o leitor indiferente às performances dos personagens secundários e terciários, uma vez que o grande vilão Equus Giordano é um déspota que lembra, em muito, figuras históricas, como Hitler, Mussolini, Stalin, Papa Doc, Mao, Franco, Ceausescu, Pol Pot, Putin, Maduro e, quem sabe, guardadas as devidas proporções, até mesmo um certo ministro brasileiro, que assumiu, sem que ninguém pedisse, o cargo de defensor do Estado Democrático de Direito, cujas decisões nada tem de democráticas. Em outros termos, Equus Giordano surgiu como libertador de uma sociedade dominada por malfeitores para, em seguida, assumir o papel de “protetor” dessa mesma sociedade, lembrando as milícias cariocas, que a ele vive em estado de submissão completa. Nesse contexto, a violência é método. Não é demais pensar que vemos ao menos um pouquinho de George Orwell aqui, não é?

Como bem mostra a História, nenhum déspota dorme tranquilamente, visto que, independentemente do poder que possua, o risco de ele vir a ser apeado do poder é constante. No livro, o autor dá a Zé Gatão meios de derrubar o regime autoritário do equino antropomorfo, porém, com um desfecho aterrador. Bem… Schloesser não precisava ter pesado a mão, pois, a solução termonuclear não poderia ser aplicada, pois puniu os bons e os maus. O desfecho poderia ser outro, mas não apocalíptico. E isso não é uma crítica; é apenas uma observação.

Concluindo: o livro de estreia do Zé Gatão merece todos os considerandos e senões, porém, sem a intenção depreciativa, tampouco indulgente. Aliás, se levarmos as condições em que foi pensado, desenvolvido e produzido, a obra é digna de aplauso.

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

Zé Gatão
Autor: Eduardo Schloesser
Gênero: História Em Quadrinhos, Alternativo
Publicado em: 1997
Editora: Prk Gráfica e Editora
Status: Edição Única
Número de Páginas: 78
Formato: 21 x 28 cm
Capa: Cartonada/Colorida
Impressão: Preto e Branco
Acabamento: Lombada Quadrada

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

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PUBLICAÇÕES DE EDUARDO SCHLOESSER À VENDA NO BARATAVERSO

Desenhando Palavras
Autor: Eduardo Schloesser
Gênero: Contos
Prefácio: Leandro Luigi Del Manto
Ano: 2025
Páginas: 300
Tamanho: 16 X 23 X 2 cm
Capa: Brochura
Papel: Pólen

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

Crazy Skretchbook de Eduardo Schloesser
Autor: Eduardo Schloesser
Gênero: Sketchs, Arte, Desenhos
Ano: 2025
Páginas: 248
Tamanho: 16 X 23 X 2 cm
Impressão: Papel Couchê Com Ilustrações em Azul, Vermelho e Preto
Capa: Dura

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

Do Livro:
ZéGatãoVerso – Contos de Luca Fiuza Ilustrados por Eduardo Schloesser

Texto: Luca Fiuza
Criação do Personagem e Ilustrações: Eduardo Schloesser
Apresentação e Edição: Barata Cichetto
Gênero: Contos/Quadrinhos
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 312
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,500

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BolachaSeca
07/10/2025 20:05

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