Para quem já foi casado quatro vezes, parece fácil falar desse assunto. Afinal, experiência eu deveria ter — e, portanto, autoridade também. Mas não é assim que a banda toca.
O modo como se encara alguém que se casou mais de uma vez mudou muito ao longo dos anos. O que antes era visto como sinal de fracasso, falta de caráter de um ou dos dois cônjuges, ausência de empatia mútua e outros “defeitos” passou a ser, aos poucos, compreendido de outra forma. Antigamente, uma pessoa descasada, desquitada ou divorciada era considerada quase anormal. E, se fosse mulher… pior ainda. Mesmo quando eram elas as traídas, exploradas ou violentadas, eram rotuladas como… bem, como putas. Presas fáceis.
Felizmente, isso mudou. Hoje, na maioria das vezes, não funciona assim. A sociedade atual não vê como algo negativo sair de um casamento — e, dependendo do ambiente, isso é até incentivado. Mas, particularmente, não vejo o divórcio nem como motivo de crítica nem de elogio.
Muitas pessoas, antigamente, mantinham casamentos apenas por pressão social ou familiar — e eram infelizes por isso. Por outro lado, a facilidade com que hoje se rompe um casamento torna frágil essa instituição, como se relações profundas, que envolvem filhos e responsabilidades, pudessem começar sem um mínimo de maturidade e confiança de que o outro é, no mínimo, compatível.
No meu caso, o primeiro casamento foi um desastre anunciado. Do alto dos meus 24 anos, movido talvez por uma necessidade de me libertar das garras da família, acreditei que todas as incompatibilidades com minha “pretendente” seriam ajustadas. Pura ilusão. Nada tínhamos em comum. Mesmo assim, segui em frente. E caminhei rumo ao desastre.
Fui traído de todas as formas, mas insisti. Tivemos filhos — com a ingenuidade típica dos tolos — acreditando que isso fortaleceria a relação. Insisti, insisti e insisti, e quando percebi, haviam se passado 22 longos anos. Só então entendi que estava diante do que hoje se chama de “Alienação Parental”. Resultado: os filhos, por quem eu dizia lutar, não querem saber da minha existência. E ainda sofreram a alienação ideológica das faculdades de humanas. Essa foi, sem dúvida, a pior parte.
O segundo casamento… só não foi pior porque nada poderia superar o anterior. Serviu, ao menos, para eu compreender o desastre do passado. A parceira em questão tinha a sexualidade como arma, não como prazer. Cometeu atrocidades e me humilhou de todas as formas. Tolerei — até porque eu gostava muito da arma dela. No fim, tornei-me um boneco nas mãos de quem se parecia com uma boneca. Essa fase, felizmente, durou só um ano e meio.
Depois disso, experimentei uma das sensações mais deliciosas que um ser humano pode ter: liberdade. Fiquei quase dois anos vivendo por mim e para mim. Tive, no meio tempo, uma breve recaída ao cair na lábia da primeira mulher e tentar um retorno. Acordei rápido. E, para meu espanto — ou nem tanto —, fui colocado literalmente no meio da rua, com o apoio entusiasmado dos filhos. Retornei à gloriosa solidão, embora em penúria de dar medo e dó.
A terceira tentativa… até hoje não entendo por que entrei nela. Eu estava tão bem! Tinha meu canto, dividindo o espaço apenas com um peixe betta; uma mulher diferente toda semana, de todas as idades. Meu amor-próprio estava recuperado, meus traumas dissipados. Escrevia, transava e trabalhava. Então, por que cargas d’água fui cair na lábia de uma maluca metida à mística, personificação da mentira e de tantas outras “virtudes”? Não sei. Talvez eu fosse masoquista. Felizmente, saí rápido: em pouco mais de um ano, estava livre outra vez.
E, como dizem, se não se aprende pelo amor, aprende-se pela dor. Foi um período difícil. Passei seis, sete meses dormindo no chão da sala dos meus pais, sem dinheiro e me sentindo um monte de merda. Para piorar, a tal mulher me vigiava pela internet, interpretando cada texto meu como indireta. Quando entrei com o pedido de divórcio, diante da advogada, ela encenou um circo mambembe, com escândalo e tudo, porque não queria abrir mão do meu sobrenome. Ficou com ele.
Superada essa fase de “luto”, me reencontrei. Estava mais bonito, mais sedutor, mais altivo. Apaixonei-me por mim — e foi o suficiente. Sentia-me inteiro, pleno. Naturalmente virei um Dom Juan. A fartura de mulheres crescia, e aos 51 anos, eu vivia em puro êxtase comigo mesmo. Até minha poesia floresceu: voltei a escrever coisas intensas, pesadas, deixando para trás as tentativas juvenis de fazer poesia de amor. (Bahhhhhhh!)
Durante um ano, mantive firme a decisão: nunca mais casar. Ou seja, nada de dividir cama, casa ou peidos com ninguém. Mas, como sempre há um “mas” na história, conheci minha atual esposa. O início foi tumultuado — ela era casada, e o escândalo familiar foi inevitável. Ainda assim, tínhamos uma ligação forte, principalmente nas noites quentes, em que meu vigor me surpreendia.
E o resultado está aí: há mais de quinze anos juntos. Não é o casamento perfeito (isso não existe), mas temos uma convivência madura e quase sempre pacífica. Até porque, há alguns anos, tomamos uma decisão sábia: cada um com seu quarto e sua cama. Fora a vasectomia que fiz aos trinta, foi a melhor escolha da minha vida.
E, afinal, o que é o casamento? Uns o veem como base da sociedade; outros, como instituição falida. Eu, por mim, acho que não é nem uma coisa nem outra. O casamento é uma necessidade — para muitos, pelo menos —, seja entre pessoas de sexos diferentes ou do mesmo. O ser humano é individualista por natureza (pelo amor, não confundam com egoísta), mas precisa compartilhar sua individualidade com outro ser. Quando se entende que um casamento é composto por dois indivíduos distintos, e não por um “nós” ilusório, o casamento pode, sim, ser uma coisa boa.
11/10/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Análise lúcida sobre essa coisa chamada casamento. Ao contrário de você, eu daria como encerrada e sepultada a, pelo menos, trezentos palmos essa coisa de dois corpos ocupando e compartilhando coisas, sentimentos e administrando conflitos. No entanto, no seu caso, já ressabiado pelas suas três uniões fracassadas, creio que você e a Sra. Giraçol encontraram a fórmula da convivência (quase)perfeita: cada um no seu quarto. Me atrevo a dizer que você vive, na verdade, uma concertação bem-sucedida.