Hélio do Soveral passou quase duas décadas em diálogo com um morto. E não com qualquer morto — mas com aquele que fez da escuridão um espelho da alma: Edgar Allan Poe. O encontro, se é que podemos chamar assim, resultou neste livro que é mais do que uma tradução — é uma confissão literária. Soveral, mestre da pulp fiction brasileira, parecia encontrar em Poe não apenas um autor a traduzir, mas um irmão de penumbra, alguém que também farejava o mistério nas frestas da linguagem e nas rachaduras do coração humano.
O livro Edgar Allan Poe, por Hélio do Soveral é, portanto, uma conversa entre dois fantasmas. De um lado, o americano que inventou o terror psicológico, o detetive moderno e a musicalidade sombria dos versos; de outro, o português-brasileiro que escreveu mais de mil roteiros de rádio e centenas de romances policiais, e que via na tradução um ato de criação — não de servidão.
Entre as páginas, há vozes de outros cúmplices: Rubens Luchetti, Dagomir Marquezi, a professora Renata Philippov, e o pesquisador Leonardo Nahoum — cada um acendendo uma lanterna diferente sobre o mesmo abismo. A edição bilíngue é um presente raro: permite ao leitor entrar e sair do inglês e do português como quem cruza um corredor de espelhos.
Ler este livro é acompanhar dois homens — um do século XIX, outro do XX — tentando dizer o indizível: que a poesia e o medo falam a mesma língua. Soveral não traduziu apenas os versos de Poe; traduziu sua alma. E, ao fazê-lo, deixou a dele impressa em cada linha, como quem escreve para continuar existindo entre os vivos — e os mortos.
11/10/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
