Arte: Vinícius Pereira

A Barata

Em 2008, no dia em que completa cinquenta anos, Baratex acorda transformado numa enorme barata — uma materialização física do cinismo e da autodepreciação que carregou por toda a vida. José Cat, seu amigo felino fisiculturista e cristão, reconhece na metamorfose um “Cansaço do Verso Protetor”, um bloqueio criativo extremo que virou armadura literal. A cura, diz ele, está no “Poema da Rendição” — um verso honesto, sem cinismo.

Eles viajam disfarçados até o Chile, ao retiro da enigmática Mercedes Vivar, a “Bibliotecária de Almas”, antiga amante de José Cat, que confirma o diagnóstico e os leva à “Câmara da Desmaterialização do Verso”. Lá, Baratex grava seu Poema da Rendição, admitindo fragilidade e desistindo da armadura cínica. Ao finalizar, a carapaça se rompe e a forma humana retorna.

Baratex renasce — não como inseto morto, como em Kafka, mas como um homem que abandona o cinismo para viver a segunda metade da vida com vulnerabilidade.

Araraquara, ano de 2008. O apartamento de Baratex não ficava em um covil. Era em um bloco colossal de concreto, vidro e linhas geométricas, alto e imponente, que tentava impor ordem à paisagem. Uma estrutura em azul ciano e moderna, com janelas repetitivas e varandas idênticas, desenhada para ignorar a imperfeição. Aquele condomínio, clean e asséptico, era o recanto de um poeta que havia visto inúmeras situações inusitadas em meio século de vida. Sim. Naquele dia, o velho caubói filosófico completava cinquenta anos de idade.

Ele acordou com uma dormência que não era de ressaca. Era um peso, uma carcaça que não pertencia a ele, mas que era assustadoramente familiar. Ao tentar coçar as costas, ele sentiu algo duro, polido, de um marrom-avermelhado escuro, como verniz velho. Seus dedos haviam se fundido em duas garras quitinosas, pontudas.

Aos gritos, Baratex se levantou da cama. O espelho do armário quebrou a delicadeza de qualquer metáfora.

O espanto foi imediato ao olhar o seu reflexo. Do pescoço para baixo, ele era uma grande barata. Literalmente. Não uma fantasia, mas a própria entomologia. Um corpo segmentado, um exoesqueleto resistente e, pior de tudo, seis patas finas e rápidas que se atrapalhavam no tapete mofado do seu apartamento alugado.
“MAS QUE PORRA É ESSA?” Ele gritou para o quarto vazio.

A sorte, ou a ironia do destino, era que aquele era o seu aniversário, e José Cat, o felino antropomórfico, fisiculturista e cristão convicto, era o único que se importava o suficiente para visitá-lo. Às dez da manhã, o interfone havia tocado, com a portaria lhe avisando da chegada de seu velho amigo.
“Puta merda… E agora?” Baratex estava extremamente nervoso com sua atual condição.

Ele se aproximou da porta, e a deixou destrancada. Não tardou para José Cat batê-la.
“Entra, Zé! Tá aberta!” O caubói filosófico bradou.

José Cat, o felino de pelos cinzas e músculos de gladiador, abriu a porta. O seu choque foi instantâneo como um relâmpago voraz. José então fechou a porta com um silêncio pesado que desmentia o caos que acabara de presenciar. Seus olhos âmbar, que já viram máfias, plantas mutantes, ciborgues e até manipuladores do tempo, agora fixavam-se na figura do amigo transformado.
“O sangue de Jesus tem poder!” José Cat exclamou, em total perplexidade.
“Eu sei, Zé! Nem precisa falar… Sou eu mesmo. Eu também gostaria de entender o que aconteceu comigo”, disse Baratex, usando uma das garras para coçar um dos novos segmentos quitinosos. O som era seco, um roçar quase alienígena.

José Cat pousou a garrafa de vinho que havia trazido de presente ao amigo na mesa da sala de estar. Ele não estava chocado; estava em análise.
“Você se tornou a sua metáfora”, José Cat circulou em volta do amigo, com seus olhos fixos na armadura marrom-avermelhada. “Ao completar cinquenta anos de idade, o universo decidiu dar um basta no seu cinismo.”
“Essa é sua maneira de me desejar os parabéns pela data?”
“A barata é a criatura mais resistente do planeta. Sobrevive à fome, ao desespero, até à radiação. Você passou meio século dizendo que era um verme, um lixo, que só servia para aguentar a porrada do destino.

Seu corpo, em um ato de profunda lealdade à sua filosofia autodestrutiva, decidiu te dar a forma que você sempre disse merecer. É a materialização da sua essência.”

Baratex tentou acender um cigarro com uma de suas mãos de pinça, falhando e deixando a brasa cair no tapete mofado. José Cat, com a precisão de um cirurgião, pegou o cigarro com suas garras e o entregou ao amigo.

“Aos cinquenta, a maioria tem medo da morte, Barata. Você tem medo de viver sem o seu cinismo. E o corpo te deu uma armadura para nunca mais esquecer disso.”

Baratex soltou a fumaça, que subiu pela sua cabeça humana, contrastando com o corpo de inseto.
“Então qual é o diagnóstico?”
“Você está sofrendo de Cansaço do Verso Protetor. Você usou o verso como um escudo contra o mundo por tanto tempo, que ele virou essa carcaça. Isso não é uma doença biológica, é um bloqueio criativo extremo.”
“E o que o meu amigo soldado de fé sugere? Uma reza ou um exorcismo com água benta?” Baratex zombou, movendo suas seis patas inquietamente.
“Sugiro a única coisa que realmente pode te salvar. O que forjou seu corpo, deve curá-lo: a escrita. Mas não o cinismo de sempre.”

José Cat sentou-se na beirada da cama, sua postura calma contrastando com a agitação de Baratex.
“A sua poesia sempre foi sobre a falha do mundo. Você precisa de um verso sobre a possibilidade. A cura é o Poema da Rendição. Você tem que escrever um poema que não zombe da alegria, que não use a melancolia como muleta. Você tem que aceitar a beleza e a fragilidade sem a proteção do escudo.”

Baratex riu, um som seco, metálico.
“Vem cá, como um gato musculoso e leitor da Bíblia sabe dessa balela de ‘Cansaço do Verso Protetor’?”

José Cat sorriu de lado, um movimento quase imperceptível em sua face felina.
“Eu te disse que sou cristão convicto, Barata. Mas conviver com você me ensinou que o caos também tem sua ordem, e que nem todo conhecimento vem do altar. A sua poesia ruim, por mais que eu zombe, alargou meus horizontes.”
“Não me venha com essa, Zé. Me diga a verdade.”
“Você se lembra de Mercedes Vivar?” José Cat cruzou os braços.
“Aquela chilena louca que você namorou uma vez? Aquela que se dizia ‘Bibliotecária de Almas’?” Baratex riu.
“A mesma. Em meu breve convívio com ela, certa vez falando sobre você, ela me viu preocupado com a sua saúde mental e me deu um livro, intitulado ‘Melancolia nos Poetas Caóticos'”, contou José Cat.

Baratex tentou processar a informação com sua nova cabeça de inseto. A ironia era cruel.
“O que dizia esse livro ridículo?”
“Mais respeito, tolo. Segundo ela, na marca dos cinquenta anos, poetas que usam o cinismo como escudo enfrentam a metamorfose da alma. Alguns poetas, aqueles que vivem o verso com a intensidade caótica, viram aquilo que representam. Sendo assim, o corpo materializa essa forma para se proteger da fragilidade do cinquentenário.”
“Ah, não fode, Zé! Então, se um poeta tiver um apelido de ‘Jarro’, por exemplo, ele literalmente irá virar um jarro aos cinquenta anos de idade?” Baratex resmungou.
“Exato, cabeça dura. Porém, como eu disse, apenas os poetas que vivem o verso com a intensidade caótica”, explicou José Cat.

Baratex soltou um gemido frustrado, que soou como o ranger de engrenagens. Ele olhou para o apartamento mofado de Araraquara, depois para seu corpo de inseto.
“Você tem o diagnóstico, Zé. Agora, dê-me o tratamento”, Baratex sibilou, a voz humana lutando contra a carcaça de inseto. “O que eu faço com essa joça de ‘Cansaço do Verso Protetor’? Onde está a sua cura milagrosa, gato crente?”

José Cat não hesitou. Seu olhar âmbar se fixou no amigo transformado com a seriedade de um general planejando uma invasão.
“A cura, Barata, está na própria Mercedes Vivar,” José Cat declarou, cruzando seus braços musculosos. “Ela não só diagnosticou o seu mal em seu livro que você taxa como ridículo, como também previu a solução, que é o Poema da Rendição. Mas ele não pode ser escrito neste cubículo mofado daqui de sua cidade. A Mercedes, a famigerada Bibliotecária de Almas, mantém um retiro no Chile. Mais precisamente, no topo de uma montanha perto do Deserto do Atacama, onde ela tem o que chama de Câmara Mística da Desmaterialização do Verso.”

Baratex girou sobre seis patas, demonstrando seu nervosismo.
“O Chile? Atacama? Você percebe o absurdo da situação, Zé? Eu sou uma barata de mais de um metro e meio, com a cabeça de um poeta decadente de cinquenta anos! Como diabos você sugere que façamos uma viagem de Araraquara ao Chile, sem causar um pânico global ou sermos capturados por algum laboratório?”

José Cat sorriu de lado, um sorriso felino de quem já pensara em todas as variáveis, incluindo a mais cartunesca possível.
“É aí que entra o meu lado ‘soldado de fé’, Barata. A gente se desloca disfarçado. Você precisa de um figurino que esconda a sua armadura quitinosa e justifique a sua silhueta bizarra.”

José Cat andou rapidamente até um armário antigo e revirou seu conteúdo. Depois de vasculhar roupas velhas, lençóis e até uma fantasia de carnaval de anos anteriores, voltou com dois itens triunfalmente. O primeiro era um sobretudo bege, longo e espesso, que Baratex usava em viagens internacionais frias. O segundo, um chapéu fedora de abas largas, amassado e escuro.
“Esse sobretudo é bem maior do que os que você costuma usar. Vai resolver a questão da exposição do corpo”, explicou José Cat, enquanto tentava vestir a peça no amigo. O processo foi desajeitado, com as garras de Baratex se enroscando no forro. O sobretudo ficou apertado, mas escondia o exoesqueleto. A única parte humana visível era o pescoço e a cabeça.
“Eu pareço um detetive de filme noir que sofreu um acidente de trem com uma tartaruga,” Baratex reclamou, a fumaça de seu cigarro subindo pela gola do casaco.
“Não,” José Cat rebateu, ajeitando o fedora na cabeça de Baratex. “Você parece um homem com problemas de postura severos usando um casaco muito justo, o que é muito comum em pessoas de sua idade.”
“Vá à merda!” O caubói esbravejou.
“Olha a língua. Estou tentando te ajudar”, rebateu José Cat, pegando uma mochila grande e reforçada em seguida.
“Ou você pode entrar na mochila nos momentos cruciais. Eu posso ser uma espécie de caixeiro-viajante felino com bagagem excessiva, e você ser apenas o meu ‘volume valioso’.”
“Você é louco, Zé!”
“Sou um cristão fisiculturista que convive com um poeta-barata. Loucura é meu meio de transporte. Agora, vamos”, José Cat ordenou.

A primeira etapa, do apartamento até o Aeroporto de Viracopos, em Campinas, foi uma comédia de erros. Baratex, disfarçado sob o sobretudo e o chapéu, andava com uma estranha marcha lateral, tentando coordenar suas seis patas sob o tecido.

No elevador do condomínio, uma vizinha o observou de cima a baixo.
“Bom dia, Sr. Luiz. Parece que pegou um resfriado,” ela comentou, olhando o casaco grosso no calor daquele dia em Araraquara.
“Não, Cleide. Apenas… tensão muscular severa,” Baratex respondeu, sua voz abafada.

José Cat interveio com um sorriso exagerado. “Meu amigo está voltando de uma grave crise de coluna, senhora. Precisa usar um colete de sustentação pesado. E eu sou o terapeuta dele. Estamos buscando um tratamento alternativo.”

Cleide aceitou a explicação sem pestanejar.

No táxi para Campinas, o motorista não estranhou o gato fisiculturista, mas olhou de forma suspeita para o passageiro encurvado e silencioso no banco de trás.
“Seu amigo tá bem, moço? Parece meio… rígido,” perguntou o taxista.
“Ele é um poeta, meu amigo. A arte o deixou assim,” José Cat respondeu, com a máxima seriedade.

O taxista então deu de ombros. José Cat se virou para Baratex, que estava suando litros sob o casaco. Chegando no Aeroporto de Viracopos, para passar pelo check-in de segurança, Baratex teve que se enfiar na bendita mochila, uma experiência humilhante e apertada.
“A vida é uma mochila apertada, cheia de expectativas alheias,” murmurou Baratex de dentro do tecido.
“Calado e quieto, caubói. E não roa as minhas vitaminas,” retrucou José Cat, que carregava o peso extra com facilidade.

A viagem de São Paulo para Santiago foi um borrão de desconforto e olhares curiosos. Em Santiago, José Cat alugou um veículo 4×4 robusto e dirigiu direto para o norte, em direção ao Deserto do Atacama.

A paisagem mudou de verde para um mar infinito de areia e montanhas rochosas. O ar ficou seco, frio e o céu, incrivelmente limpo. Finalmente, chegaram à cordilheira, onde Mercedes Vivar, a “Bibliotecária de Almas”, mantinha seu retiro.

O local de Mercedes era uma construção de adobe rústica e pedra, aninhada em um pico isolado, parecendo um antigo monastério Inca. A entrada era guardada não por seguranças, mas por enormes totens de pedra cobertos de símbolos esotéricos e matemáticos.

Uma figura feminina, esguia e vestida com tecidos fluidos, esperava por eles na porta. Era Mercedes Vivar. Seus cabelos eram longos, escuros e seus olhos, de um azul profundo, pareciam enxergar através do tempo, capturando as almas e desvendando os segredos do universo. Ela era, de fato, a Bibliotecária de Almas, emanando uma aura mística e perigosa.

Seu olhar não estava focado no felino antropomórfico ou na barata humana. Estava fixo no passado de José Cat, com a melancolia de quem segura um pote de vidro cheio de memórias quebradas.
“José Cat. Você demorou. Sabia que ele viria, mas não sabia que a transformação seria tão… literal,” disse Mercedes, seu sotaque chileno suave e musical. “É preciso ter muita coragem, ou muita falta de juízo, para reaparecer na minha vida depois de ter me deixado para seguir ‘os caminhos da devoção’.”

José Cat, o gigante musculoso, surpreendentemente, se encolheu ligeiramente, uma reação rara. Ele moveu as garras em um cumprimento formal e contido.
“Paz e bem, Mercedes. A necessidade, como você sabe, é a grande costureira do destino. Estou aqui por causa do Baratex. A situação que você previu, aquela que consta no seu livro, finalmente se cumpriu. Ele se tornou o próprio cinismo.”

Mercedes riu, um som cristalino e gélido como o ar rarefeito do Atacama.
“O cinismo, José, é a única coisa que manteve seu amigo vivo por cinquenta anos. E é você, o ‘soldado de fé’ de Cristo, que está aqui, pedindo ajuda à ‘bibliotecária de almas’, a herege, para salvá-lo?” Ela deu um passo à frente, estreitando o olhar. “É muita ousadia para alguém que partiu meu coração dizendo que éramos ‘incompatíveis’ com os planos divinos.”

José Cat suspirou. Era visível que o passado ainda pesava.
“Eu vivi os melhores e mais caóticos momentos ao seu lado, Mercedes. Você alargou meus horizontes e me ensinou que o universo é mais amplo do que a minha fé rígida permitia. Mas, infelizmente, éramos incompatíveis com os caminhos de Deus. Eu não podia te levar comigo. Eu precisava de uma âncora, não de uma tempestade.”

Baratex, que estava desconfortável no frio, mas atento ao drama, não aguentou.
“Ah, mas que beleza, Zé! Então você teve um affair com a Madame Xanadu chilena, e eu, o poeta do caos e do excesso, nunca namorei sequer uma bibliotecária de almas,” Baratex sibilou, com a voz embargada pela carcaça. “É a ironia final, não é? O caubói de inúmeras mulheres termina só, enquanto o felino crente teve um romance místico-sensual. Puta merda, Zé. Você me deve anos de zombaria desperdiçada.”

Mercedes sorriu para Baratex, um brilho de afeição nos olhos azuis. “Você, Barata, pelo menos é honesto sobre sua miséria. José Cat é o mestre da negação.” Ela se voltou ao felino. “Eu só vou ajudar, José, pelo fato de você ter me ajudado muito no passado, quando eu mesma precisei me reencontrar. Mas saiba que eu não esqueci o quão rápido você correu de mim quando a intensidade do nosso amor ameaçou a sua quietude religiosa.”
“Entendo perfeitamente, e sou grato,” José Cat respondeu, quase sussurrando.

“Pois bem. A metamorfose do seu amigo não é uma maldição, mas uma manifestação. O corpo dele criou uma casca porque a alma não aguentava mais a fragilidade do meio século,” Mercedes explicou, voltando a si. “A cura, Barata, é a rendição. O fim do cinismo como escudo.”

Ela os conduziu para dentro do retiro. O interior era labiríntico e escuro, iluminado apenas por velas e fendas de luz que vinham das montanhas. O ar cheirava a incenso e salitre. Finalmente, chegaram a uma câmara circular, com paredes de obsidiana e um pequeno pedestal no centro. No pedestal, jazia apenas um gravador de voz.
“O gravador é a única coisa que não mente,” explicou Mercedes. “A câmara apenas amplifica a frequência da honestidade. O seu corpo materializou a armadura. A sua voz, nua e desprotegida, irá desmaterializá-la. Agora, Barata. Sente-se no chão. E comece o seu Poema da Rendição.”

Baratex olhou para o gravador, depois para José Cat e para a mística Mercedes Vivar. Suas seis patas escorregaram levemente no chão de obsidiana.
“Que a poesia seja a minha ruína, então,” ele suspirou, aceitando seu destino.

Baratex se arrastou até o centro da câmara de obsidiana. O frio da pedra subia pelas suas seis patas, um contraste brutal com o calor seco de Araraquara que ele agora sentia falta. Sentou-se, ou melhor, curvou seu corpo quitinoso em frente ao pequeno gravador de voz.

José Cat e Mercedes Vivar mantinham-se silenciosos na entrada da câmara, suas figuras emolduradas pelas velas bruxuleantes. A tensão era palpável, como um verso prestes a explodir.

Baratex ligou o gravador com a garra, o pequeno clique soando enorme no silêncio da montanha. Ele fechou os olhos humanos e respirou fundo, tentando afastar a armadura que vestia a sua alma.
“Eu sou Luiz Carlos Barata, o caubói filosófico, e este é… o Poema da Rendição,” sibilou, a voz rouca.

Ele não usou metáforas grandiosas nem versos polidos. Foi a honestidade bruta, a entrega que José Cat havia pedido.

O Poema da Rendição

“Eu me cansei.
Me cansei da casca dura, do verniz que protegia
o cinismo que era meu escudo contra a alegria.
Me cansei de ser a prova de que nada presta,
a criatura mais resistente da festa.

Eu sou fraco. Eu admito.
Sou feito de carne falha, de medo não dito,
de poemas que eu mesmo rejeitei no chão.
Eu não sou barata, sou uma imperfeição.

A fragilidade é o meu novo nome.
A tristeza não me dá mais fome,
e o sarcasmo já não me veste bem.
Que a dor me atinja, que o riso me vença,
Eu dispenso a armadura e pago a sentença.

Eu me rendo ao caos sem entender.
Eu aceito ter cinquenta anos e querer viver.
Eu devolvo o meu escudo.
Eu me dispo do meu verme interior, e digo:

Eu estou aqui. E eu sou patético. E está tudo bem.”

Quando Baratex disse a última linha, o som seco de sua voz no gravador foi engolido por um ruído alto e estalado. O chão de obsidiana tremeu.

A carcaça marrom-avermelhada que envolvia Baratex começou a rachar em múltiplos pontos, como cerâmica atingida por um martelo. Segmentos inteiros do exoesqueleto saltaram, voando pela câmara. As seis patas quitinosas se retraíram em uma explosão de fragmentos secos, e o que restou foi a pele pálida, mole e trêmula de um homem de cinquenta anos. Aos poucos, as duas garras quitinosas se desfizeram, revelando as mãos de volta. Baratex estava nu, suado e livre.

“Puta que pariu,” ele sussurrou, olhando para o seu corpo recuperado, agora sem o revestimento de barata.

José Cat soltou o ar que segurava, os olhos de um felino que acabara de presenciar um milagre que a Bíblia não havia registrado.

Mercedes Vivar, porém, parecia satisfeita, como uma mestra que conclui uma lição.
“Parabéns, Barata. Você finalmente passou pela metamorfose,” ela disse, com a voz carregada de sabedoria. “Não a de Kafka, onde o herói morre na casca. Mas a sua, onde você mata o cinismo e aceita a fragilidade da vida. Você agora pode viver a sua segunda vida, equivalente à segunda metade da sua jornada.”

José Cat caminhou até Mercedes, sua expressão de gratidão era profunda.
“Obrigado, Mercedes. Você salvou o meu amigo”, disse o felino.
“Eu jamais esqueceria você, José Cat”, Mercedes respondeu, dando um passo à frente.

E, sem aviso, a Bibliotecária de Almas beijou José Cat com uma paixão avassaladora, um beijo de reencontro que parecia queimar no ar gelado da câmara. O felino, pego de surpresa, demorou um instante para reagir, mas, em respeito ao beijo, respondeu à sua intensidade por um breve momento.

Quando se separaram, o ar entre eles estava carregado.
“Eu… Eu sou um servo do Senhor agora, Mercedes. Mas eu sempre serei um ombro amigo para você. Me procure sempre que precisar,” José Cat disse, a voz ligeiramente trêmula, olhando para o chão.

Baratex, já de pé e vestindo o sobretudo de volta, ironizou.
“Bom, Zé, já que o ‘soldado de fé’ não está disponível para você, Mercedes, eu estou aqui. Cinquentão, mas ainda na ativa. Posso não ter a postura ereta, nem os músculos de gladiador do felino, mas posso te cantar uns versos livres de cinismo agora. Quer ver?”

Mercedes sorriu, olhando para o poeta.
“Vou pensar no seu caso, Barata. Mas saiba que agora, sem o cinismo de escudo, você está perigosamente nu. Use essa nova fragilidade com sabedoria, ou eu te vejo de novo na sua metamorfose dos cem anos.”

Com um último olhar para José Cat, Mercedes acenou. “Vão em paz, meus caóticos.”

José Cat e Baratex deixaram o lar da bela mística, o 4×4 os esperando no deserto. O sol já estava se pondo sobre as montanhas rochosas. Baratex estava no banco do passageiro, finalmente livre de sua carcaça, embora ainda coçando o pescoço, por hábito.
“Sabe, Zé, é a primeira vez que eu realmente sinto que estou pronto para algo novo.”

José Cat sorriu, ligando o motor.
“Que bom, Barata. Sabe, com toda essa confusão, eu acabei esquecendo de uma coisa,” disse o felino, colocando o carro em marcha.

José Cat olhou para o amigo, com um brilho no olhar.
“O quê, Frajola?” O caubói arqueou uma de suas sobrancelhas.
“Feliz aniversário, meu velho!” José Cat disse, exalando felicidade.

Baratex riu.

Vinícius Pereira , Nova Iguaçú, RJ, já teve vários perfis em sites de fanfics. Após um longo hiato, por intermédio do destino (ou o que quer que prefira definir), ele retorna à escrita com a série de contos das aventuras do Baratex, figura que homenageia o grande Barata Cichetto.

Baratex – Lendas de Um Velho Caubói Filosófico (Temporada 1)
Autor: Vinícius Pereira
Editora: Selo Lâmina 44
Gênero: Contos
Ano: 2026
Páginas: 232
Tamanho: 15 X 21 X 1,25 cm.
Impressão: Papel Offset 90g
Impressão: PB
Capa Cartonada, Laminado Fosco
Arte de Capa: Eduardo Schloesser (Colorido por Louis Mello)
Posfácio: Adriana Avelino (Drigo)

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1 Comentário
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Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
29/11/2025 0:10

Excelente, pra variar. Não teve a ação costumeira, mas o restante estava todo lá: poesia, filosofia e a beleza da amizade.

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

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