A Poesia Ainda Vale a Pena?

Escrevo e publico poesia há mais de cinquenta anos. Carrego nos dedos e na memória o cheiro do álcool azul da Geração Mimeógrafo — aquele tempo em que os poetas imprimiam suas próprias palavras em folhas mal alinhadas, rodando manivelas em máquinas escolares, distribuindo versos de mão em mão como quem entrega munição secreta. A poesia ainda tinha suor, urgência, corpo. Nada era digital, nada era automático, nada era “conteúdo”. Era resistência e era risco. Era presença.

Talvez por isso eu insista: poesia não pertence à internet. A internet engole tudo e devolve tudo com o mesmo gosto de nada. Tornou a poesia insípida, lisa, instantânea — como se pudesse caber num filtro, num trending, num coraçãozinho que some em três segundos.

Eu costumo dizer — e escrevo isso desde que me dei conta da paisagem:

“Hoje há no mundo um poeta em cada portão,
Mas apenas um leitor por quarteirão.”

Nunca foi tão fácil escrever versos. Nunca foi tão difícil encontrá-los. E talvez aí esteja o paradoxo que me inquieta: quando qualquer coisa passou a ser encarada como poesia — desabafo, neuroses, frustrações jogadas sem forma, sem ritmo, sem intenção — escrever poesia deixou de ser arte e virou terapia pública. Uma catarse exibicionista que não exige mais o rigor da palavra nem a responsabilidade de dizer algo que permaneça.

Sei que muitos vão se ofender. Mas afirmo porque vivi tempo suficiente para ver o movimento inverso: quando poesia era um ofício. Quando métrica e rima não eram vícios antiquados, mas escolhas estéticas, arquiteturas de sentido. Grande parte da minha obra nasce dessa disciplina: versos contados, sons costurados, estrofes que respiram como quem constrói uma casa para morar dentro da língua.

Hoje, porém, escreve-se muito e lê-se quase nada. Publica-se tudo e pensa-se pouco.

Então eu me pergunto — e devolvo ao leitor, esse ser raro: A poesia ainda vale a pena?

Talvez sim.
Talvez não.
Talvez só valha para quem ainda sabe que poesia não é reflexo: é construção.
E que, mesmo perdida na vastidão digital, ela continua sendo o último lugar onde o mundo não mente.

29/11/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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