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A História e a Glória do Rock – Ascensão e Queda (Editorial de Gatos & Alfaces 3, 2014) Atualização 2025

“Let me tell you baby ’bout the death of rock” (Me deixa te contar baby, sobre a morte do rock)
(“Rock Is Dead” – The Doors – 1969)

A maior parte dos historiadores situa o nascimento do Rock no ano de 1954. As datas mais célebres se situam entre Abril e Julho desse ano. A primeira, 12 de Abril (data em que 60 anos depois escrevo esse texto), que marca a gravação de “Rock Around The Clock”, por Bill Halley And His Comets, lançado um mês depois. A segunda, 5 de Julho, com a gravação de “That’s All Night”, por Elvis Presley. Mas embora esse seja o ano considerado como oficial, o termo começou a ser usado ainda em 1951, pelo disc jockey americano Allan Freed, com referencia ao tipo de musica que ele tocava, uma espécie de Blues urbano, que misturava uma série de outros ritmos como Rockabilly, Western Swing, Bluegrass, Blues, Jazz, Boogie Woogie e Negro Spirituals. Freed, também conhecido como “Moondog”, trabalhava na estação de rádio WJW, em Cleveland, e foi quem organizou o primeiro grande concerto de Rock and Roll da história, o “Moondog Coronation Ball”, em 21 de Março de 1952.

Entretanto, a frase “rocking-and-rolling” (balançando e rolando, em português), uma gíria negra laica que remete a dançar ou fazer sexo, apareceu em pela primeira vez em 1922 na canção “My Man Rocks Me Com Um Steady Roll” de Trixie Smith. E mesmo antes, ainda em 1916, o termo foi usado com conotação religiosa em “The Camp Meeting Jubilee”, gravado por um quarteto masculino desconhecido.

De fato, a palavra “Rock”, que no idioma inglês é uma metáfora para “shake up”, “to disturb or to incite” (sacudir, perturbar ou incitar) tem uma longa história anterior à década de 1950, quando se estabelece o inicio da história do gênero. Em 1937, Chick Webb e Ella Fitzgerald gravaram “Rock It for Me”, que continha o verso “So won’t you satisfy my soul with the rock and roll” (Então, você não vai satisfazer a minha alma com o rock and roll.) Já o termo “Rocking” era usado por cantores negros no sul dos Estados Unidos como uma definição para o êxtase espiritual. Na década de 1940, no entanto, o termo foi usado com duplo sentido, referindo-se a dançar e ao ato sexual, como em “Good Rocking Tonight”, de Roy Brown.

Já o verbo “roll” é uma metáfora muito antiga que significava ter relações sexuais. Expressões como “They had a roll in the hay” (Eles tinham um rolo no feno) ou “I rolled her in the clover” (Eu transei com ela no trevo) já constavam de textos de escritores americanos do século XIX. Já o uso dos dois termos em conjunto era utilizado para descrever o movimento de um navio no mar, como na canção “Rock and Roll”, das Boswell Sisters, em 1934, e em “Rockin ‘Rollin’ Mama”, de Buddy Jones em 1939. O cantor country Tommy Scott se referia ao movimento de um trem na ferrovia em “Rockin e Rollin”, de 1951. Durante a guerra do Vietnã, o termo “Rock and Roll” se referia ao disparo com um fuzil, onde o soldado empunhava a arma no quadril como uma guitarra.

Mas, embora todas essas referencias anteriores a 1954 sejam válidas pelo ponto de vista de análise do termo e de análise histórica, há que se ponderar sempre, para a compreensão de qualquer movimento cultural, o contexto histórico. E só a partir daí podemos efetivamente marcar o “nascimento” de qualquer movimento. Em 1954, uma doutrina racista americana conhecida como “separate but equal” foi derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Mas isso em teoria, pois na pratica o país vivia numa era em que as tensões raciais estavam a um passo de explodir de forma mais violenta. Os negros norte-americanos protestavam contra a segregação de escolas e instalações públicas e a derrubada da doutrina racista para efeitos legais era uma tarefa difícil de concretizar na prática.

Nesse momento, entretanto, um novo gênero musical que unia elementos das músicas negras e brancas, provocou inevitáveis e fortes reações, de ambos os lados. E quando Allan Freed começou a tocar musica para uma audiência multirracial, e um ano depois criou um festival, as gravadoras compreenderam que havia um mercado formado pelo público branco para a música negra que ia além das fronteiras estilísticas do Rhythm and Blues. O preconceito aberto e as barreiras raciais não podiam barrar as forças do mercado e assim o Rock and Roll tornou-se um sucesso de um dia para outro nos Estados Unidos, provocando ondas que, primeiro atravessaram o Atlântico em direção às ilhas britânicas, e posteriormente o mundo inteiro.

Os efeitos sociais do Rock and Roll influenciaram estilos de vida, moda, atitudes e linguagem e decerto tiveram fator preponderante na mudança de mentalidade com relação aos direitos civis por todo o planeta, pois tanto brancos quanto negros gostavam do gênero, diminuindo assim resistência das mentes mais conservadoras e criando uma mentalidade de respeito às diferenças.

O Rock, e posteriormente os gêneros que dele derivaram, até certo momento, se pautou pelo respeito às diferenças humanas. E se não criou uma nova sociedade humana, ao menos transformou a existente. Estilos musicais como Soul Music, Funk, Progressivo, Punk, são apenas alguns dos filhotes que surgiram na esteira do Rock and Roll, e que, obviamente com exceções, sempre foi usado como trilha sonora de mudanças sociais.

Um dos maiores símbolos efetivos do Rock, foi justamente o que o transformou em fenômeno: o filme “Blackboard Jungle” (Sementes da Violência no Brasil) conta a história de um professor, Richard Dadier interpretado por Glenn Ford, recém-empregado em uma escola de um bairro pobre, que enfrenta a hostilidade de seus alunos, dominados por delinquentes liderados pelo estudante Gregory Miller (Sidney Poitier). O filme, dirigido por Richard Brooks, foi lançado em 1955 e despertou atos de violência nos cinemas onde foi exibido. Tudo isso embalado nos “rocks” de Bill Haley and the Comets. A curiosidade é que anos depois, em 1967, Poitier, o tal líder rebelde protagonizava um dos maiores sucessos do cinema interpretando justamente um professor às voltas com o mesmo problema, mas desta feita do outro lado, como um professor, no xaroposo “Ao Mestre Com Carinho” O rebelde agora trocava de lugar, era o mestre… A indústria do cinema percebia o poder transformador do Rock and Roll. E a enorme mina de dinheiro que ele representava, é claro.

Mas e agora, o que podemos depreender sobre o Rock após mais de sessenta anos? Realmente temos a sociedade que se começou a moldar e realizar? De fato não temos, pois apenas o Rock, como qualquer outro movimento social baseado em arte, não pode efetivamente transformar uma sociedade, infelizmente.

A arte, de muito tempo para cá, é um produto, extremamente sensível a interesses financeiros, como a própria história do Rock nos mostra desde o início. É preciso muito mais que isso. E se hoje vivemos os estertores do Rock, talvez o que estejamos ver morrer não seja apenas a morte de um gênero musical, de um movimento social, mas o nascimento de outro, muito mais forte e baseado nos mesmos interesses. Os conflitos humanos são perenes e os interesses financeiros cada dia mais fortes e poderosos. E se o Rock, um gênero de musica multirracial, um movimento social e multi-artístico não foi capaz de mudar, o que poderá?

12/4/2014

“Nenhum de nós no Rock é motivado apenas pelo nobre desejo de compartilhar nossa sabedoria com a humanidade. Acho que faríamos outra coisa, se fosse essa a motivação básica”. — Roger Waters, Pink Floyd

Texto Publicado na 3ª edição da Revista “Gatos & Alfaces“, Maio, 2014

Atualização 2025

Araraquara Rock - Foto Prefeitura de Araraquara

Em 2025, o Rock demonstra vitalidade e capacidade de adaptação, evidenciada por eventos, lançamentos e turnês significativas.

O “FireAid Benefit Concert”, realizado em 30 de janeiro em Los Angeles, destacou-se ao reunir lendas como Joni Mitchell, Stevie Wonder e Rod Stewart, além de artistas contemporâneos como Billie Eilish e Olivia Rodrigo. Este evento relembrou a tradição de concertos beneficentes, similar ao icônico Live Aid de 1985, promovendo a união de diferentes gerações em prol de causas humanitárias.

O Grammy de 2025 celebrou o Rock clássico, com The Beatles vencendo na categoria de Melhor Performance de Rock pela faixa “Now And Then”, e The Rolling Stones levando o prêmio de Melhor Álbum de Rock por “Hackney Diamonds”. Além disso, artistas emergentes e estabelecidos lançaram trabalhos notáveis, como “Bring Back The Light” da banda espanhola The Feedbacks e “Critical Thinking” dos britânicos Manic Street Preachers, demonstrando a contínua evolução e relevância do gênero.

Oasis anunciou sua reunião após 15 anos, com uma turnê mundial que inclui 41 shows, começando em 4 de julho no País de Gales. Bandas icônicas como Iron Maiden e Sepultura também estão em turnê, celebrando marcos importantes de suas carreiras. No Brasil, eventos como o Monsters of Rock 2025 contarão com headliners como Scorpions e Judas Priest, reafirmando a paixão do público pelo gênero.

Festivais tradicionais, como o Glastonbury, têm adaptado suas programações para incluir uma variedade maior de gêneros musicais, refletindo mudanças nas preferências do público. Entretanto, o Rock continua presente, mostrando sua capacidade de se reinventar e coexistir com novas tendências musicais.

Em suma, 2025 destaca-se como um ano de celebração e renovação para o Rock, com eventos e lançamentos que honram seu legado e apontam para um futuro promissor.

Já no Brasil… Em 2025, o cenário do rock no Brasil está vibrante, com uma agenda repleta de shows e festivais que celebram tanto artistas consagrados quanto novas promessas do gênero.

Monsters of Rock 2025: Comemorando 30 anos, o festival retorna ao Brasil em abril, trazendo bandas renomadas como Scorpions e Judas Priest. O evento acontecerá no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 19 de abril.

Porão do Rock 2025: Após um hiato, o tradicional festival de Brasília celebra sua 26ª edição, prometendo uma programação diversificada que abrange desde bandas locais até nomes internacionais do rock.

Oasis: Após anunciar sua reunião, a banda britânica inclui o Brasil em sua turnê mundial, com shows programados em São Paulo e Rio de Janeiro.

Linkin Park: Com a nova vocalista Emily Armstrong, a banda retorna ao país, trazendo um repertório que mescla clássicos e novas composições.

Twenty One Pilots: O duo americano se apresentou no Brasil em janeiro, misturando Rock com elementos de pop e hip hop, cativando o público brasileiro.

Simply Red, Simple Minds e The Pretenders: As três bandas, que marcaram presença no Hollywood Rock de 1988, retornam ao Brasil em 2025 para shows comemorativos de suas trajetórias.

Rock in Rio: Em 2024, o festival celebrou seu 40º aniversário, destacando sua evolução desde 1985 até se tornar um dos maiores eventos musicais do mundo. A edição comemorativa contou com uma programação diversificada, reforçando a importância do rock na cultura brasileira.

Esses eventos refletem a contínua relevância e paixão pelo rock no Brasil, mostrando que o gênero permanece forte e adaptável às novas gerações.

Detalhe regional: depois de vários anos acontecendo sempre na semana do Dia do Rock, o festival Araraquara Rock, tornando-se parte do minguado calendário cultural da cidade, e depois de uma edição desastrosa ocorrido em função da interferência da política petista, com a obrigação de incluir na programação metade das bandas só com mulheres, em 2024, mesmo de anunciado e confirmadas as datas, o festival simplesmente desapareceu de todas as midias, e até do site da prefeitura da cidade. Certamente a motivação foi política, embora não haja qualquer informação sobre o fato real.

03/03/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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