A Vida dos Outros (Uma História de Liberdade e de Compaixão)

Sempre gostei de cinema.

Melhor ainda: durante um bom período da minha vida sempre gostei muito de estar dentro de uma sala de cinema, de preferência sozinho em 95% das vezes, ainda que o recinto estivesse superlotado. Era eu de mãos dadas comigo mesmo, e nada mais. Tudo o que importava eram as imagens e os sons. Para mim, assistir a um filme é (ou era) pura imersão. Havia algo de mágico que não consigo exprimir sucintamente. Do primeiro filme – talvez de guerra — que assisti sozinho quando adolescente, até o último, uma comédia da moda, já quarentão, em uma sala quase deserta em um shopping center. Aliás, todos os cinemas da minha cidade estão localizados em shoppings centers. Os cinemas de rua estão tão extintos quanto os dinossauros.

Desisti de curtir cinema? Sim e não.

Com o passar dos anos e o avanço da tecnologia, essa forma de diversão foi transformada em algo um tanto caro. Mas não é só isso que conta. Os hábitos também mudaram – para pior, destaque-se – O silêncio que sempre foi exigido do cine-espectadores agora pode terminar em confusão; enormes sacos de pipoca são manipulados por casais de namorados, que trocam beijos ruidosos, pouco se importando com o público ao redor; somam-se a isso as dezenas de telas azuladas de celulares, que tocam a qualquer momento. Resumindo: uma sala de cinema é, nos tempos que correm, uma praça pública fechada com poltronas e ar-condicionado a temperatura glacial. Desisti de ir ao cinema, não do cinema. Que isso fique bem claro. Agora assisto a filmes por streaming no meu computador ou no meu DVD player. Ok. A tela é pequena, mas o prazer é igual como naqueles cinetempos, e sem os cinechatonildos (ou cinemalas) para desviar a atenção. Além do mais, é mais barato. E isso é o maior barato.

Desabafo feito, valho-me das minhas cinememórias. Lembranças boas, ruins — e, claro — as poucas porém excelentes. Assisti a filmes realmente fabulosos, que me causaram toda sorte de emoções e lições. Muito da análise que tenho do mundo nasceu nas salas de cinema. Ficando no campo das excelentes lembranças, pinço aqui uma: um filme alemão aclamado por uma parte da crítica especializada, mas, ao que parece, sem grande alcance público em terras brasileiras. Em outras palavras, um filme para poucos, por tratar-se de um drama político fora dos padrões habituais.

O filme chama-se A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006). Eis duas sinopses interessantes:

“Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, sendo por muitos considerado o modelo perfeito de cidadão para o país, já que não contesta o governo nem seu regime político. Apesar disto o ministro Bruno Hempf (Thomas Thieme) acha por bem acompanhar seus passos, para descobrir se Dreyman tem algo a esconder. Ele passa esta tarefa para Anton Grubitz (Ulrich Tukur), que a princípio não vê nada de errado com Dreyman mas é alertado por Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), seu subordinado, de que ele deveria ser vigiado. Grubitz passa a tarefa a Wiesler, que monta uma estrutura em que Dreyman e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), são vigiados 24 horas. Simultaneamente o ministro Hempf se interessa por Christa-Maria, passando a chantageá-la em troca de favores sexuais.” (*)

“Em 1984, quando o muro de Berlim ainda estava intacto e a Alemanha era dividida em duas, o autor teatral Georg Dreyman acredita fielmente no socialismo da República Democrática Alemã (RDA), se mantendo como um dos poucos intelectuais insuspeitos. Sedento pelo poder, o Ministro da Cultura Bruno Hempf decide investigar o autor, que, se tiver algum podre escondido, pode lhe render maiores cargos, além de mais liberdade em na relação com sua amante, a atriz fetiche e namorada de Dreyman, Christa-Maria Sieland.

O oficial designado para a missão é Gerd Wiesler, o melhor interrogador da Stasi, a polícia política do regime. Vigiando momentos íntimos da vida de Dreyman, o agente passa a entender como os intelectuais enxergam a RDA, e passa ele mesmo a questionar os métodos usados, de invadir A Vida dos Outros. Quando um grande amigo de Georg se mata e ele descobre que o regime esconde os registros de suicídio, o escritor decide publicar secretamente um artigo sobre isto no Ocidente. Wiesler, então, terá que escolher de que lado irá ficar.” (**)

O filme foi lançado no Brasil em 2007, ano em que ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro. O prêmio foi mais que merecido. Independentemente desse detalhe, assisti ao A Vida dos Outros, dias, talvez semanas, após a publicação de uma resenha na revista Veja. Eu sabia bem do que se tratava, e sabia de antemão que seria um filme como poucos e para poucos, visto que o alvo da trama, não obstante seus personagens marcantes, se tratava de um odioso regime comunista muito badalado, não apenas no Brasil, mas na América Latina, não obstante a queda do infame Muro, que separou por quase trinta anos não apenas um país, mas um povo, ideias e ideais.

Cinema é, entre outras coisas, um sentido de percepção, uma interpretação pessoal daquilo que se viu e ouviu. Os críticos e especialistas do gênero possuem uma forma própria de análise, muitas vezes atreladas a seus conceitos e preconceitos políticos, ideológicos, sociológicos, e por aí vai. Já o cine-espectador comum possui uma forma muito particular de análise, nem sempre em paz com um mínimo de coerência. O cinéfilo amador usa e abusa da liberdade para interpretar aquilo que vê e ouve a seu modo, com a vantagem de corrigir o rumo quando ganha mais maturidade. Sou esse cara. Entretanto, com A Vida dos Outros, nunca senti a menor necessidade de corrigir seja lá o que fosse. Muito pelo contrário. Sempre descubro algo novo quando revejo essa obra-prima da Sétima Arte. Nunca me canso. Obviamente, sempre acho que um filme poderia ser melhor, que o diretor poderia extrair mais do elenco, que o roteiro poderia ser mais profundo. Mas, nos contentemos com o que está à mão – ou à vista.

Segundo minha cinevisão, A Vida dos Outros trata, sobretudo, de um inusitado sentimento de compaixão, despertado no coração duro de um homem encarregado de extrair confissões, intimidar subversivos reais ou imaginários, bem como vigiar intelectuais malvistos pelo regime comunista da então República Democrática Alemã – Alemanha Oriental – no ano de 1984, cuja associação com o romance de George Orwell é inevitável. O diretor Florian Henckel von Donnersmarck soube amarrar muito bem uma trama que poderia ter redundado em um maniqueísmo convencional, que roubaria um valioso espaço reservado à reflexão.

Outro grande acerto do diretor foi a escolha do elenco, a começar por Ulrich Mühe, que interpreta o papel de Gerd Wiesler, agente da Stasi (Ministerium für Staatssicherheit, “Ministério para a Segurança do Estado”), a temida e odiada organização de defesa do regime, encarregada de vigiar bem de perto a rotina do dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch), então tido como um entusiasta do Partido Comunista, cujas obras idolatram o regime pró-soviético. Apesar das reiteradas demonstrações de alinhamento ideológico com a ditadura comunista, isso não parece ser o bastante para Wiesler, que acredita que Dreyman possui ligações com a Alemanha Ocidental e, ato contínuo, adepto dos valores capitalistas. Em se tratando de regime comunista, o Poder jamais confia inteiramente em seus intelectuais; sempre há uma ponta de desconfiança, e qualquer vacilo deles tem consequências graves, basta ver o que acontece na China, por exemplo. A Stasi era uma entidade onipresente na vida dos alemães orientais, graças a sua imensa legião de informantes, dedos-duros e agentes infiltrados na sociedade, todos eles ávidos para receber do Estado compensações por seus serviços “patrióticos”.

A minha cinevisão não tira os olhos do espião Gerd Wiesler, sempre atentos aos movimentos do dramaturgo. Não há como ser diferente. A excelente atuação de Ulrich Mühe desperta no espectador um sentimento de ódio e desprezo simultâneos. Mühe convence mesmo quando não diz nada, escondido no sótão do prédio onde está localizado o apartamento de Georg Dreyman, usando fones de ouvido, por meio de microfones espalhados em pontos específicos do imóvel, captando vozes, diálogos, comentários, piadas internas, e até ruídos íntimos com a esposa Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck, também em uma excelente atuação). Obviamente, tudo era gravado por Wiesler. Não por acaso, Christa é objeto do interesse sexual de Anton Grubitz (Ulrich Tukur), superior hierárquico de Wiesler, que coordena a arapongagem do oficial da Stasi. Cabe acrescentar que Ulrich Tukur completa o trio de excelentes atores que tornaram A Vida dos Outros uma obra-prima.

A aventura do espião Wiesler ocorre cinco anos antes da queda do horrendo Muro. Esse período de cinco anos resume muito bem a história da divisão da Alemanha em duas nações antagônicas, criadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, tornando-se, a partir daí, um dos principais símbolos da Guerra Fria. O diretor Florian Donnersmarck simplificou a narrativa histórica e a adaptou ao microcosmo do casal Georg-Christa, também sem poupar a vida vazia e cinzenta de Gerd Wiesler, o qual, em determinado momento, se serve dos serviços de uma prostituta, possivelmente para compensar a inveja que sente do amor que mantém o casal unido, apesar de tudo. Também, é válido pressupor que o algoz tenha esquecido do significado da palavra sexo. Wiesler é digno de pena, contudo, sem absolvê-lo de sua asquerosa tarefa.

O filme tem reviravoltas surpreendentes. À medida em que o algoz passa a torcer por suas presas, chegando ao ponto de, em seu esconderijo, começar a trabalhar em favor do casal. Esses gestos de Wiesler não passam despercebidos de seus chefes. Ele pagará um preço alto por sua atitude, ou, digamos, compaixão.

Não vou dar mais spoilers. Passo agora ao leitor desta matéria a tarefa de descobrir A Vida dos Outros por seus próprios meios. É claro que a interpretação do filme poderá ser outra, haja visto as qualidades da trama. Ao final de tudo – e já em uma Alemanha reunificada – É um anônimo Wiesler que “fecha” o filme com chave de outro. O ex-caçador é presenteado em livro por sua ex-caça: o seu inusitado sentimento de compaixão é compensado por uma inusitada demonstração de gratidão.

De certa maneira, A Vida dos Outros fala de cancelamentos. Nos dias que correm também fala-se muito sobre cancelamentos. A liberdade de expressão é hoje algo bastante relativo e, cada vez mais, está restrita a grupos, que se encarregam de vigiar outro grupo ou pessoas, cujas ideias são combatidas pelo simples fato de não coincidirem com as dos grupos mais organizados, mais barulhentos, e até mais influentes. Ao contrário da nefasta Stasi alemã-oriental, temos centenas, milhares de mini-Stasis a nos vigiar, perseguir, censurar e punir. E não é nada estranho quando esse patrulhamento redunda em violência física. Também, não é exagero considerar que novos Muros de Berlim estão sendo levantados, ainda que virtualmente. A intolerância ao que é considerado diferente tem o poder de intimidar e calar aqueles que preferem a comodidade do silêncio ao debate aberto de ideias e pontos de vista. Creio que Gerd Wiesler sentiria uma inveja tremenda dos praticantes do ódio do bem, esse fascismo travestido de boas intenções.

Poucos meses após sua curta temporada no cinema, por meio de um amigo – o Frank, já citado em outras matérias no Agulha — indiquei o filme para exibição em um cineclube, que funcionava em uma entidade ligada a Universidade do Amazonas. Tal era o meu interesse que cedi o meu DVD aos organizadores do evento. Nesse cineclube, como era de praxe, sempre a havia uma rodada de debate ao final de cada filme exibido. Com A Vida dos Outros não foi diferente. Até hoje desconfio que os organizadores não assistiram o filme. Ou então: assistiram e não gostaram, só exibindo-o porque já estava na programação. Iniciado o debate, os organizadores trouxeram à baila assuntos aleatórios, que nada tinham a ver com o filme. Lembro que um dos debatedores mencionou o “perigo da internet” para a liberdade, citando o ditador venezuelano Hugo Chávez, um crítico ferrenho da nova tecnologia. Tentei contra-argumentar que a internet deveria ser usada para vigiar o poder, não o contrário. Os outros debatedores fizeram cara de paisagem. Acabei concluindo que, naquele ambiente, eu era apenas uma voz pregando no deserto, pois, os tais organizadores do cineclube eram ligados à esquerda, de maneira que o foco do debate (a ingerência do Estado sobre a liberdade de expressão) era um tema incômodo demais para eles. Ato contínuo, o meu cineclubismo (que nasceu em 1988, quando conheci Frank)) morreu aí. O DVD está comigo até hoje.

Alguns anos após a tal sessão, comentei o fato com Frank (que não estava presente naquela noite). Ele se mostrou surpreso, concordando com a minha indignação. O meu então grande amigo era muito ligado a esse cineclube, cujo nome não me recordo. Frank sempre foi um sujeito de esquerda, o que nunca foi um problema, afinal, ele se apresentava como uma pessoa equilibrada, liberal e avesso a extremismos.

Em 2018, no calor da corrida eleitoral, e em meio à polarização política, Frank revelou-se uma pessoa igual aos organizadores da sessão naquele cineclube, que fizeram questão de ignorar A Vida dos Outros: ele me cancelou, encerrando uma longa amizade que começou – ora vejam! — em um cineclube.

A Vida dos Outros
(Das Leben der Anderen)
Alemanha, 2006, 137 min
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Produção: Quirin Berg, Max Wiedemann
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck
Elenco: Ulrich Mühe, Martina Gedeck, Sebastian Koch, Ulrich Tukur
Música: Gabriel Yared, Stephane Moucha
Europa Filmes (Brasil)
Idioma Original: Alemão

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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