Um Dia na Vida de Uma Pornocracia

Era um dia qualquer na vida daquela Pornocracia. Um dia de pornografia, como em outro qualquer. Se bem que não era tão qualquer aquele dia, já uma nova presidenta tomaria posse. E dia de posse de presidenta em Pornocracia não é todo dia: acontece apenas a cada dois dias, pois há em um a eleição, no outro a posse, e um golpe que derruba a eleita no dia anterior. E assim se sucede desde os anos em que a República Pornocrática da América foi fundada. Estatísticas dão conta de que quase cem por cento das cidadãs da República já foram presidentas, já que cabe apenas à mulheres do sexo feminino a prerrogativa. A questão do aparente pleonasmo, aliás, está explicitado na Constituição, que veda o acesso ao cargo a lésbicas, transgêneros e congêneres.

A última eleição, que aconteceu ontem, foi bastante tumultuada, já que apenas duas mulheres se candidataram, pois também não é permitido que qualquer uma volte a ser candidata tendo ocupado a chefia do Estado. Foram vinte e quatro horas de manifestações de correligionárias de ambas as partes, com acusações severas como estupro, hominicídio, parricídio e outros crimes, além de uma acusar a outra hora de lésbica, hora de transgênero. A eleição foi decidida por uma diferença de apenas um voto, o que, aliás, tem sido uma constante nas ultimas dez eleições, que ocorreram no ultimo mês. A candidata perdedora, ainda ontem, no final da contagem de votos, acusou de fraude, e já nas primeiras horas da manhã, assim que a nova presidenta terminou seu discurso de posse, abriu processo de impedimento, que deve ser votado nas próximas horas. Até o final do dia, caso os processos acumulados, referentes às ultimas eleições consigam ser julgados a tempo, o Tribunal Federal convocará novas eleições para amanhã.

No sistema eleitoral da Republica Pornocrática da América, não existe a figura de vice— presidente, desde o ultimo, que era casado com a presidente, assassinou— a para tomar seu lugar. O crime acabou gerando muito tumulto e violência pelo país inteiro, e o homem, acusado de feminicídio foi condenado à castração e posteriormente degolado.

Outro fato curioso com relação ao sistema eleitoral nesse país, é que as eleições não acontecem por indicação de nomes colocados em uma urna, ou algo parecido. No dia do sufrágio, as candidatas se postam diante do Palácio do Governo, completamente nuas e são penetradas sexualmente pelos eleitores homens. A candidata que conseguir o maior numero de orgasmos é considerada a vencedora. Todo o pleito é acompanhado de muito perto pelas juízas eleitorais, apenas mulheres, e neste caso aceitando— se a presença de lésbicas e transgêneros, que decidem se um orgasmo é válido ou não. Candidatas que forem flagradas fingindo orgasmo são impedidas de continuar na disputa, e processadas com base na Lei Eleitoral, por “Falta de Decoro Parlamentar” e “Falsidade Ideológica”. Outra das regras com relação ao processo eleitoral pune severamente o sexo anal com a candidata, e caso ela seja surpreendida oferecendo essa variante, é também impedida de continuar, já que a Justiça Eleitoral entende tal ato como tentativa de compra de votos e aliciamento eleitoral. Não há nenhuma menção na Lei sobre sexo oral, seja sob a forma de cunilíngua ou felação, portanto entende— se que estas formas são liberadas, embora não sejam usadas.

Como o tempo de preparação para as eleições é muito curto, não existem pré— candidatas e nem debates eleitorais, o que pressupõe que todas as eventuais candidatas devem exercitar seus dotes eleitorais durante todo o tempo, já que não é também permitido nenhum tipo de campanha política no dia da eleição e qualquer tentativa de induzir ao eleitor a escolher uma candidata é punido.

Hoje, durante o discurso de posse da presidenta eleita ontem, ela prometeu que tudo fará ao seu alcance para aprovar projetos de interesse da população, como o aborto e a posse de armas, e prometeu ainda, que caso complete uma semana à frente do poder, organizará uma orgia coletiva com todos os seus eleitores, onde todos finalmente poderão praticar sexo anal com ela. Diante dessa ultima promessa, a oposição se manifestou acusando a presidenta de abuso de poder e mais doze crimes, já protocolando o pedido de impeachment.

Já pela manhã, a presidenta sofreu sua primeira derrota no Congresso, que vetou todo o ministério indicado por ela, formado exclusivamente por transgêneros, transexuais, travestis, lésbicas e hermafroditas. Uma massa de eleitores se concentrou na frente do Palácio, com bandeiras, protestando pelo fato de não se sentirem representados. O Congresso Nacional da República Pornocrática da América é formado apenas por homens do sexo masculino, usando a mesma designação constitucional que impede o acesso a qualquer outro gênero, e são escolhidos num processo eleitoral inverso ao da presidente: apenas por mulheres eleitoras, sendo que os vencedores são aqueles que conseguirem manter suas ereções por mais tempo. Qualquer tentativa de uso de qualquer medicamento estimulante é considerado também como crime eleitoral, e o candidato é castrado, assim impedido para sempre de participar de qualquer disputa eleitoral, e mesmo de participar como eleitor em qualquer eleição presidencial futura.

Era um dia normal na vida da República Pornocrática da América. E ele chegou ao fim, quando a presidenta que tomou posse as oito da manhã foi deposta antes da meia noite. Na madrugada, um Colégio Eleitoral se reuniu e declarou vaga a presidência, marcando para o dia seguinte novas eleições. A oposição foi às ruas, se manifestando através de orgias, e a situação postou tanques de guerra defronte ao Palácio do Governo, afirmando que a presidenta resistiria, até o último suspiro.

Era um dia normal na República Pornocrática da América. Mas não tão normal, pois nunca antes na história daquela República ocorrera um desfecho sangrento para uma situação similar. Especialistas foram chamados às emissoras de televisão a fim de explicar o que possa ter ocorrido para que algo tão banal na vida daquele país tenha tomado proporções tão trágicas, com a morte da presidenta deposta, além de várias outras pessoas.

Num dia normal, as pessoas estariam penetrando sexualmente as candidatas à presidência que estaria lançando seus gemidos de prazer anotados freneticamente por Juízas, para no final dele apontarem a presidenta do dia seguinte. Mas não havia, naquele dia anormal, nenhuma candidata, e nenhum eleitor na praça em frente ao Palácio do Governo, de pênis ereto esperando para votar.

E depois de muitos dias anormais, a Republica Pornocrática da América voltou ao normal. Hoje mesmo deve ser um dia desses.

11/06/2019

Do Livro:
O Homem Que Fotografava Sonhos e Outros Contos

Barata Cichetto
Gênero: Contos
Ano: 2024
Edição: 
Editora: BarataVerso
Páginas: 416
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,800

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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