Durante um evento em homenagem ao legado de James Bond, Baratex é surpreendido por um agressor mascarado que o acusa enigmaticamente de “rejeição”. José Cat intervém e evita o pior. A partir do ataque, os dois iniciam uma investigação que mistura vaidade ferida, idolatria distorcida e segredos pessoais do próprio Baratex, levando-os a rastrear o mascarado até San Francisco, onde preparam a armadilha final — não apenas para capturar o inimigo, mas para desvendar a verdadeira motivação por trás da violência.
Oakland, 22 de maio de 2015.
O clima do final de primavera em Oakland era de uma névoa fria, quase uma formalidade distante, não uma ameaça. Dentro da Dunsmuir House & Gardens, o ambiente era de uma elegância que Baratex sempre desprezou, mas à qual se adaptava com a displicência de um convidado forçado. O motivo da reunião era a celebração exata dos 30 anos do filme “007: Na Mira dos Assassinos” (A View to a Kill), lançado nos EUA nesta mesma data. A mansão neoclássica, uma das locações históricas do filme e situada tão próxima a São Francisco, palco do clímax da trama britânica, exalava aroma de pinho e cera antiga, numa bizarra e luxuosa antecipação natalina, mesmo em maio. Em contraste com os móveis vitorianos, um saxofonista de smoking, no alto de uma escadaria de carvalho, serpenteava as notas de “A View to a Kill”, tema do filme. Dessa vez, a música não continha o sintetizador frenético da banda Duran Duran, mas uma versão suave, quase jazzística, que dava ao frenesi da espionagem um toque de melancolia.
Baratex, aos 57 anos, usava um terno preto que parecia ter sobrevivido a uma guerra de bar, e não a um alfaiate. No entanto, por cima da roupa de gala, ele ostentava seu bom e velho chapéu, a aba de feltro surrada sendo a única mancha de honestidade na festa burguesa. Sua barba branca, agora mais espessa e bem cuidada, era a única formalidade que ele parecia aceitar. Ao seu lado, José Cat estava imóvel, com a postura de uma estátua grega vestida por um terno italiano sob medida, os olhos felinos percorrendo o salão com a vigilância de um monge, ignorando a taça de suco de uva que lhe fora oferecida.
“Eu até que gosto de filmes de espionagem, Zé, quando eles não levam a si mesmos tão a sério. Mas não entendo o porquê um velho caubói filosófico como eu foi chamado para um evento dessa elegância toda”.
Baratex murmurou, acendendo o que parecia ser um cigarro comum, mas cujo cheiro de fumo de rolo denunciava algo mais artesanal. O que ele fumava, na verdade, não era o tabaco industrial. Eram paieiros, feitos à mão com fumo de rolo e palha, cuidadosamente bolados por uma grande poeta e cantora que ele havia acolhido anos atrás, sua filha adotiva, Liz Franco. Os tais paieros eram sem filtro, porque Baratex gostava de coisas fortes, e mulheres idem. Ele considerava aqueles cigarros de palha um ato de poesia combustível.
José Cat, sem desviar o olhar do bambuzal visível pela janela, respondeu com sua voz grave: “Guarde sua opinião para si, meu velho amigo. Essas pessoas foram generosas em lhe convidar. Segundo a produção, você é uma espécie de James Bond da vida real, um herói de ação com um verso próprio.”
“Ah, por favor…”, Baratex riu. “Estou mais para um Indiana Jones sem grife, sem o chicote e com muito mais ressaca.”
“Eu diria que você está mais para um boneco do Xerife Woody, de Toy Story, porém vendido em um camelô”, José Cat retrucou, com um lampejo de satisfação nos olhos.
Em resposta à provocação, Baratex fingiu coçar um dos olhos com o dedo do meio para disfarçar um gesto obsceno direcionado ao amigo felino.
“A coincidência nessa bagaça toda é que tenho 57 anos, Zé. A mesma idade que o Roger Moore tinha quando interpretou o Bond nesse filme que estão celebrando, que foi seu último no papel. Eles não me chamaram por causa de qualquer ‘aventura’. Chamaram a minha idade, o meu declínio, o meu verso de desilusão. Eles querem me celebrar como uma metáfora barata, Zé.”
Antes que José Cat pudesse replicar com alguma citação bíblica ou filosófica, uma figura de inquestionável elegância se aproximou. Sir Roger Moore, aos 87 anos, parecia desafiar o tempo com um sorriso educado e olhos que mantinham a faísca da ironia britânica.
“Baratex”, Moore disse, estendendo a mão. Sua voz era aveludada. “É um prazer enorme. O senhor e seu… parceiro.”
“Sir Roger Moore”, Baratex respondeu, apertando a mão com o mínimo de entusiasmo. “Eu diria que é uma honra ser reconhecido por alguém que é a própria elegância encarnada.”
Moore riu suavemente, um som que lembrava um whisky de malte descendo suave. “Gosto do seu senso de humor. Os produtores me contaram sobre algumas de suas histórias, especialmente aquela em Florença. São… típicas de um cavalheiro com pressa. Mas, diferentemente de mim, o senhor parece levar a filosofia para o campo de batalha. Não é apenas derrotar o vilão, é humilhá-lo intelectualmente, não é?”
“James Bond nunca bebe um vinho barato, Sir Moore. Ele sempre bebe algo caro, com algum nome francês complicado, de uma região que tem mais tradição do que alma. Ele representa a ordem que exige perfeição e bom gosto em tudo, especialmente tratando-se de mulheres. Eu bebo o vinho que lembra a falha humana. Meu verso é que a única maneira de sobreviver é aceitar que tudo vai dar errado, inclusive as mulheres”, Baratex sentenciou. Ele deu uma longa tragada no paieiro, o fumo perfumado exalando um contraste rústico no salão.
Moore observou o cigarro de palha com um interesse polido. “Acho que entendi, prezado. Digamos que Bond seja o terno impecável, a linha reta da narrativa. O senhor é o… cigarro artesanal, a quebra da regra. Bond sempre teve um final, uma resolução clara. Mas o senhor, Baratex, o senhor é, de fato, a reticência. O senhor só tem um próximo capítulo incerto, não um final.” Ele fez uma pausa, os olhos azuis fixos em Baratex. “Mas permita-me perguntar… Esta reticência é uma escolha filosófica ou é a fuga elegante de um compromisso que poderia ter sido belo?”
Baratex engoliu a seco, surpreso com a profundidade inesperada da lenda.
“É um presente, Sir. Da minha filha. Forte. Sem filtro”, Baratex disse, desviando a pergunta com a única verdade que tinha à mão.
O diálogo profundo, a colisão de duas formas de ser herói, foi interrompido não pela música, mas pela quebra violenta de uma janela no extremo do salão. O som, seco e cortante, silenciou o saxofonista e transformou a elegância em pânico.
Do vão da janela, onde os estilhaços de vidro ainda caíam como chuva prateada, surgiu a figura que parecia ter saído de um pesadelo desenhado a nanquim. O agressor era uma figura de ação e mistério, usando uma máscara púrpura e compacta, que cobria todo o seu rosto. Seu traje era um uniforme roxo colante, com linhas que pareciam indicar reforço ou armadura, misturando a formalidade de um agente com a letalidade de um soldado. Ele era a precisão violenta, um misto bizarro de etiqueta forçada e brutalidade contida.
O mascarado mal tocou o chão e seu braço chicoteou no ar. Um brilho rápido cortou a luz dos candelabros: uma faca de combate que voava reta em direção à cabeça de Baratex.
José Cat, no entanto, era mais rápido que o aço e o pensamento.
Com um rugido gutural, o felino antropomórfico moveu-se com a velocidade de um reflexo. Ele não tentou desviar ou agarrar o atacante, mas esticou a mão em um movimento lateral e cravou as garras, que surgiram com um clique seco e metálico, diretamente no ar. O som do aço da faca colidindo com as garras do felino foi um estalo alto e agudo, que fez os convidados gritarem e se jogarem atrás de colunas e mesas.
José Cat interceptou a faca, a lâmina presa entre duas garras, e a arremessou na direção oposta, onde perfurou um retrato de um ancestral vitoriano da Dunsmuir House.
A luta entre o felino e o mascarado iniciou-se no centro do salão, transformando a pista de dança em um palco de guerra. O mascarado não usava a força bruta de José Cat; ele operava com precisão geométrica e agilidade surpreendente. Enquanto José Cat atacava com a fúria de seus músculos e golpes que visavam dilacerar, o agressor esquivava com micro-movimentos e respondia com socos e chutes cirúrgicos, visando articulações e pontos vitais, parecendo ignorar a dor.
Convidados de gala, que segundos antes discutiam cinema, agora rastejavam ou tentavam fugir pelas portas de carvalho. José Cat foi arremessado para a lateral e derrubou uma estátua, que caiu com um estrondo. O mascarado usou uma mesa de buffet como apoio para girar e acertar o felino nas costelas. O cheiro da comida e dos drinques se misturavam ao cheiro metálico da adrenalina. Baratex assistia, paralisado pela derrota iminente do amigo. Ele viu o mascarado quebrar a defesa de José Cat com uma finta para a esquerda e acertar a nuca do felino com um golpe seco de cotovelo. José Cat caiu de joelhos. As garras se retraíram lentamente, e o corpo musculoso, ficou inerte no chão.
O mascarado, vitorioso, ficou sobre o corpo do felino. A face mascarada do agressor demonstrava foco total em Baratex, que estava paralisado não pelo medo, mas pelo ódio em ver seu melhor amigo sendo subjugado. Baratex, mesmo com o peso dos 57 anos e a falta de agilidade, agiu pelo instinto do desespero.
Ele levou a mão ao terno e sacou seu bom e velho revólver, companheiro de décadas. O caubói filosófico decidiu interromper o diálogo existencial com a ação bruta.
“A sua poesia é barata”, Baratex sibilou, puxando o gatilho. O tiro reverberou ensurdecedor na mansão.
O mascarado não teve tempo de usar o punho. Ele se lançou para o lado com uma velocidade que desafiava a física, e a bala atingiu o espelho atrás dele, transformando o reflexo da Dunsmuir House em um buraco negro.
O mascarado hesitou por um milissegundo, reconhecendo o perigo letal do velho. Ele olhou para Baratex, que apontava a arma, e então para José Cat, caído. Ele sabia que a vitória naquele momento seria arriscada demais.
“Você não tem mais tempo, Luiz Carlos Barata”, a voz distorcida e fria ecoou. “Eu vim para dar um final à sua história. Você conhece a dor da rejeição?”
“Ei! Eu te conheço por acaso?” Baratex franziu o cenho. Com isso, o agressor se virou e correu para a janela quebrada, sumindo na escuridão da noite de Oakland com a agilidade de um predador.
Baratex largou a arma, exausto, e correu para junto de José Cat. O felino tossiu, tentando se levantar, mas estava abalado.
“Não, Zé. Fique parado”, Baratex disse, a voz baixa, de volta à preocupação.
José Cat, mesmo ferido, abriu os olhos. Suas pupilas dilatadas focaram no amigo, e então, no vazio da janela.
“Quem… quem era esse desgraçado, Barata? E o que ele quis dizer com… dor da rejeição?” José Cat questionou, a respiração presa, momentaneamente abalado pela derrota. “E por que ele atacou você?”
Baratex olhou para a janela quebrada, depois para a sujeira de seu próprio terno e para o chapéu no chão.
“Não faço ideia, Zé”, Baratex murmurou. “Mas vamos descobrir.”
O tumulto na Dunsmuir House começava a se dissolver em confusão. O luxo quebrado dos candelabros e os gritos de pânico eram agora substituídos pelo burburinho confuso dos depoimentos.
Enquanto Baratex ajudava José Cat a se reerguer, uma figura de inquestionável distinção se aproximou. Sir Roger Moore, que havia se afastado discretamente durante o confronto, estava agora de volta, o smoking intacto, a compostura britânica inabalável. “O senhor parece ter tido um pequeno… contratempo”, Moore comentou, com a suavidade de quem fala sobre o clima.
Baratex ajeitou o chapéu, que estava amassado, e guardou seu revólver.
“Coisa pouca, Sir Moore. Só um susto. Um mal-entendido com um sujeito que tem problemas de etiqueta e não gosta do meu paieiro”, Baratex mentiu, sentindo o peso da mentira na língua. Ele agradeceu o ídolo com um aceno sincero.
Moore sorriu, um gesto de empatia polida.
“É nobre da sua parte minimizar o incidente, Baratex. Mas permita-me dizer… A aventura não é algo que o senhor procura, mas algo que te persegue. Pelo visto, o seu tipo de vida não admite a aposentadoria.”
“É o meu fardo, Sir”, Baratex respondeu, a melancolia voltando à sua voz. “Eu não consigo ter um final, estou sempre no meio de uma frase inacabada.”
“Nesse caso, boa sorte com o próximo capítulo”, Moore disse, com um aceno respeitoso. O ator, um mestre da fuga elegante, compreendeu a essência do velho caubói filosófico.
José Cat, mesmo mancando, colocou o braço em volta dos ombros de Baratex.
“Vamos sair daqui, Barata. Antes que a polícia chegue e você tenha que explicar por que um caubói veterano foi atacado por um psicopata mascarado na festa de um filme de espião.”
Eles saíram pela porta dos fundos da mansão, passando pelos exuberantes jardins e entrando no breu do estacionamento. Ali, esperando pacientemente com os faróis apagados, estava Araújo.
Araújo era um brasileiro, amigo e apoio logístico, que havia encontrado em Oakland um refúgio da agitação. Ele era um rapaz na casa dos vinte e poucos anos, com cabelos escuros e olhos atentos. Sua postura era atlética e pragmática, contrastando com a lentidão dos seguranças. Ele era o tipo de eficiência silenciosa que Baratex admirava.
Araújo estava ao volante de um Chrysler 300 preto, um sedã americano grande e imponente, mas que tinha a virtude de ser invisível na noite.
“Entrem”, Araújo disse, a voz calma, nem um pouco surpreso com o estado dos amigos.
José Cat se ajeitou no banco de trás, gemendo de dor. Baratex sentou-se na frente, acendendo um dos paieiros de Liz Franco.
“Para onde, Barata?” Araújo perguntou, ligando o motor.
“Para sua casa, Araújo. Precisamos de escuridão e de uma vista do abismo”, Baratex ordenou.
Araújo dirigiu o carro para as Oakland Hills, uma cadeia de colinas que se elevavam acima da cidade, oferecendo um refúgio de silêncio e casas discretas.
Enquanto o Chrysler subia as colinas, deixando para trás o glamour quebrado da festa, Baratex e José Cat iniciaram o debate que era a espinha dorsal de sua amizade.
“Você ouviu a última coisa que ele disse, Zé? ‘Você conhece a dor da rejeição?’ Ele usou meu nome completo, Luiz Carlos Barata”, Baratex perguntou. “O que um cara fantasiado quer com a minha vida pessoal?”
“Ele te chamou pelo nome. Isso não é uma briga de agentes, Barata. É uma vingança pessoal”, José Cat respondeu, com a respiração mais estável. “O que ele busca não é sua morte, é a sua confissão de que você falhou com alguém no passado.”
“A minha confissão é o meu verso. E o meu verso é que a dor da rejeição é a única coisa que não mente”, Baratex ironizou. “Eu rejeitei muita coisa na vida, Zé. Rejeitei o sucesso, o dinheiro, e até mesmo o amor. Mas eu fiz tudo isso por um bom motivo.”
“Me desculpe me meter na conversa, Barata”, Araújo disse. “Se você tivesse rejeitado o sucesso, não teria aceitado vir em uma festa glamourosa como essa.”
“Araújo, eu pedi sua opinião, fedelho folgado?” Baratex resmungou. Araújo riu.
“A Palavra de Deus nos diz que o diabo, o inimigo de nossas almas, anda em nosso derredor, bramando como leão. Tenha certeza, Barata, que esse indivíduo misterioso voltará a lhe atacar”, disse José Cat.
“E estaremos esperando por ele, Zé. Pode ter certeza”, Baratex acenou em concordância.
O carro parou em frente a uma casa modesta, de madeira escura, aninhada entre carvalhos, com uma vista espetacular da Golden Gate Bridge, que brilhava no horizonte.
“Chegamos”, Araújo anunciou, desligando o motor.
A casa de Araújo, aninhada nas Oakland Hills, era modesta por fora, mas o ponto de observação era inestimável, uma vez que a luz distante da Golden Gate Bridge servia de fundo para a crise.
José Cat estava deitado no sofá, aplicando gelo na nuca. Baratex estava na varanda, fumando o paieiro e observando a baía.
“Ele não vai esperar que você se recupere, Zé”, Baratex murmurou. “Ele me chamou de Luiz Carlos Barata, conhece minha história. Ele não é um louco qualquer. Ele é paciente, mas metódico.”
José Cat se sentou, ignorando a dor.
“Exatamente por isso. Se ele está tão determinado a te julgar pela tal da ‘dor da rejeição’, ele não está procurando uma briga, está procurando um final cinematográfico”, José Cat argumentou, com a lógica fria de um estrategista. “Ele fugiu porque você atirou e a polícia estava chegando. Mas ele não desistiu.”
“Qual é a sua ideia?”
“Se ele está te vigiando, ele sabe que estamos feridos e nos escondendo. Ele vai esperar o momento certo. Se nos expusermos publicamente, como isca, ele será forçado a agir antes que percamos a vantagem da surpresa.”
Baratex apertou a ponta do paieiro.
“É burro. É suicida. É a única coisa que um homem desesperado como eu pode fazer”, Baratex concordou. “Vamos dar a ele o palco. E você, Araújo, qual é o seu papel neste suicídio elegante?”
Araújo, que até então observava o diálogo com a calma de um estudante de filosofia, sorriu discretamente.
“Eu dou suporte, Barata. E garanto que o seu final não seja o dele.”
Araújo conduziu-os até uma área discreta na sala de estar. Pressionou um painel na parede, e a estante de livros deslizou com um som suave, revelando um arsenal impressionante, digno de uma produção de Hollywood. Havia fuzis de assalto modernos, espingardas táticas e, ironicamente, várias pistolas automáticas.
“Escolham”, Araújo disse, pegando para si um rifle de precisão moderno e compacto, com uma mira térmica. “Eu irei atirar o quanto for necessário no mascarado.”
José Cat nem olhou para as armas.
“Minha fé está em Deus, acima de tudo, e em meu próprio físico. Armas de fogo são um peso desnecessário”, o felino afirmou, cruzando os braços.
Baratex, no entanto, foi até um compartimento mais antigo e sacou um revólver Smith & Wesson Modelo 10, antigo, mas bem cuidado, com o cabo de madeira gasto.
“Não abro mão de um bom e velho revólver”, Baratex disse, girando o tambor. “É honesto. Não tem truque. Seis balas, sem filtro, assim como eu. Amei esse.”
Araújo deu de ombros, aceitando a idiossincrasia do caubói. “Que seja. Quando?”
“Amanhã, Zé”, Baratex respondeu. “O palco final tem que ter o oceano. Vamos encontrar essa porra de dor da rejeição.”
Na manhã seguinte, a névoa cobria a Baía de São Francisco com um véu úmido e friorento, digno de um melodrama.
Baratex estava andando sozinho pelo Crissy Field, a vasta área de gramado que se estende ao longo da baía, oferecendo vistas espetaculares da Golden Gate Bridge. O local era público, mas, devido à névoa matinal e ao dia de semana, a multidão era esparsa. Ele vestia seu blusão amarelo, calça jeans, botas e coldre, além do chapéu na cabeça. Era o visual do Baratex de todas as suas aventuras até ali.
O plano da isca estava em andamento.
Baratex sentia os olhos nele. Não eram os olhares dos turistas, mas o peso da vigilância do mascarado.
“Tudo pronto, Zé?” Baratex perguntou, murmurando para o comunicador auricular quase invisível.
A voz grave e baixa de José Cat respondeu no seu ouvido. “Estou no topo do pavilhão, Barata. Você é a peça de xadrez mais importante do tabuleiro. Não faça nenhuma piada filosófica antes da hora.”
“Araújo?”
A voz jovem do brasileiro chegou logo em seguida. “Estou na colina do Forte Point. Tenho o mascarado no meu visor se ele piscar. Dê-me a ordem.”
Baratex não respondeu. Ele parou no meio do gramado, acendeu um paieiro, e soltou a fumaça no ar frio. Ele sabia que o mascarado estava perto. Era o cheiro da mágoa, da história não resolvida.
De repente, de um grupo denso de arbustos ornamentais que separava o gramado da praia, a figura emergiu. Não houve aviso, nem a frieza robótica da mansão. O mascarado irrompeu dos arbustos com a velocidade de um predador faminto, o traje ajustado e escuro combinando perfeitamente com a névoa, tornando-o quase invisível. Ele veio correndo em linha reta, direto para o caubói filosófico, com um ódio que só podia ser pessoal.
O mascarado atacou Baratex com a fúria de quem esperou por muito tempo. As facas, afiadas e letais, brilhavam na névoa de Crissy Field. Baratex, com o revólver em punho, tentou reagir, mas a velocidade e a coordenação do agressor eram irreais. O primeiro corte veio no braço esquerdo de Baratex, fazendo-o largar a arma. O velho caubói foi ao chão facilmente, a idade e a surpresa cobrando seu preço.
“Eu avisei, Luiz Carlos Barata”, o mascarado sibilou, erguendo a faca para o golpe final. “O seu tempo de frases inacabadas acabou.”
O golpe não veio.
José Cat irrompeu do pavilhão, rugindo como um leão que sente o cheiro do sangue. O felino avançou sobre o assassino com uma violência calculada, seus golpes agora mais atentos e estratégicos do que na mansão. Os dois trocaram golpes brutais. O mascarado usava a agilidade e o aço; José Cat, a força e o instinto animal. O gramado virou lama sob a luta.
Mas a precisão era a arma definitiva. O mascarado atingiu José Cat com um chute lateral no peito, quebrando sua costela. O felino cambaleou, tossindo sangue, e caiu de quatro, derrotado pela segunda vez.
Quando o mascarado se preparava para executar o felino, a calmaria foi quebrada por uma rajada de tiros.
Araújo surgiu do topo da colina de Fort Point, disparando seu rifle. O som ecoou na baía. O mascarado esquivou da maioria dos tiros com movimentos incríveis, mas a mira de Araújo era implacável. Um tiro atingiu o ombro esquerdo do agressor.
O mascarado soltou um grito abafado pela dor, mas, sem perder o foco, usou o braço direito ileso para o último e fatal movimento. Arremessou a faca que segurava com uma força inacreditável em direção a Araújo.
A arma branca cravou na garganta de Araújo. O rapaz silenciou instantaneamente, caindo na grama enquanto seu sangue rubro manchava o verde da colina.
A morte de Araújo forneceu a distração final e necessária. José Cat, em um último e desesperado esforço, rastejou e, ignorando a costela quebrada, agarrou a perna de apoio do mascarado. Ele não puxou. Ele girou o corpo, usando toda a sua força felina para quebrar o osso da canela do agressor.
O mascarado soltou um berro agudo de dor, caindo de joelhos, imobilizado pela perna quebrada e pelo ombro ferido. Baratex se arrastou até o jovem. A máscara escura e compacta estava ensanguentada e cheia de lama.
“Você precisou do seu animal de estimação e de um atirador amador para me deter, Luiz Carlos Barata”, o mascarado sibilou, cuspindo sangue. “Você é um covarde por natureza desde sempre. Você foge de tudo o que é real.”
Baratex ignorou o insulto. Ele estendeu a mão trêmula e removeu a máscara do agressor.
A névoa úmida beijou o rosto do jovem rapaz, que tinha a testa franzida e a melancolia escura que exibia traços familiares para Baratex.
“Quem… Quem é você?” Baratex sussurrou, a voz perdida.
“Eu sou… Gabriel”, o jovem respondeu, e o ódio em sua voz era claro.
“Eu sou… filho de Cleuzeni.”
A revelação foi um murro no estômago do caubói filosófico. Cleuzeni. Em 1984, em Florença, na Itália, Baratex resgatou a cantora Cleuzeni das garras de um mafioso chamado Velluti. Cleuzeni era uma bela morena sergipana que tentava a vida na Itália. Ele a libertou, mas, fiel à sua filosofia de evitar finais felizes e compromissos, ele a rejeitou e partiu. A rejeição de Baratex foi a sua maior afirmação de liberdade.
“Eu sou o filho da rejeição que você pregou, Barata”, Gabriel continuou. “Minha mãe se casou com um professor de história em Milão, um homem decente e estável. Ela tentou ter a vida que você negou a ela. Mas ela nunca o esqueceu. Ela passou anos em depressão, olhando para mim, e vendo a ausência do homem que a libertou, mas a quebrou. Meu pai sabia que ela só se casou com ele para preencher o vácuo deixado por você. Ela morreu dois anos atrás. E eu jurei matar o único homem que ela amou e que a condenou à infelicidade.”
Baratex sentiu a ponta da bala que havia atirado no espelho em Oakland voltar e perfurar sua alma. Ele não havia gerado um monstro. Havia gerado um orfão de sua própria escolha. Pra piorar, as memórias de Florença em 84 lhe faziam lembrar do Doutor Sócrates, seu velho amigo, que, na época, jogando pela Fiorentina, o ajudou naquela aventura. Sócrates estava falecido há quatro anos.
Baratex se ajoelhou na lama, ao lado do Gabriel, ferido. O caubói avistou o local com o corpo de Araújo. Ele olhou para José Cat, que observava a cena com os olhos cheios de tristeza e compreensão.
“Você está certo, Gabriel”, Baratex disse, a voz cheia de areia e autocrítica. “Eu não fugi apenas da sua mãe. Eu fugi do que eu poderia ter sido. A minha honestidade de não mentir para ela sobre meu desejo de ser livre foi, no final, a maior das covardias. Eu escolhi a frase inacabada porque tive medo de escrever uma página inteira e estragá-la. E você… você é o meu erro mais honesto.”
Baratex estendeu a mão e tocou o rosto de Gabriel, limpando a lama. Ele não ofereceu desculpas vazias, mas a única coisa que podia dar: um novo começo.
“Sua mãe me amou pelo que eu era. E você tem o direito de me odiar. Mas não por mais tempo. O seu ódio matou meu amigo. Não mate você também. A dor da rejeição é real, mas a dor da vingança é vazia. Não é o final que sua mãe desejava.”
Baratex se virou para José Cat.
“Não temos tempo para a polícia, Zé. Vamos levar o filho da Cleuzeni daqui. Ele não vai morrer na rua. É por ela.”
José Cat, ignorando a própria dor, assentiu com a cabeça. A escolha de Baratex era clara: ele finalmente havia rejeitado a fuga e abraçado a responsabilidade. Juntos, os dois levaram Gabriel, ferido e chorando, para o Chrysler 300 abandonado. Eles ligaram para os contatos de Araújo, garantindo um resgate discreto para o falecido amigo, e partiram.
Dois meses depois. Milão, Itália.
O sol de primavera batia no pequeno cemitério. Baratex, sem o seu terno usual, vestia roupas escuras. Ele estava parado diante de uma lápide simples: Cleuzeni (1959 – 2013).
Ele colocou um ramalhete de flores silvestres sobre o mármore.
“Eu não vim pedir perdão pelo que fiz, Cleuzeni”, Baratex murmurou, observando as flores. “Eu não era capaz de te dar a estabilidade. Mas vim pedir perdão pelo que não fiz. Eu deveria ter te dito que, mesmo na liberdade, você era a minha melhor escolha. Meu erro foi te deixar com a dúvida.”
Baratex tirou o chapéu, pela primeira vez em muito tempo, expondo a cabeça ao sol. Ele estava finalmente em paz com a sua história. Ele havia encontrado seu final, mas havia escolhido escrever uma nova frase para o filho de seu passado. Ele colocou o chapéu de volta, e se virou para a estrada, onde José Cat o esperava.
“E o garoto?” Baratex perguntou ao amigo felino.
“Vai se recuperar. Ele disse que entende, apesar de tudo. Porém, não quer esbarrar com você de novo.”
“É justo. É justo”, Baratex deu um tapinha no ombro de José Cat.
Ele olhou para trás, fitando a lápide de Cleuzeni mais uma vez. Em seguida, virou-se novamente e foi embora com José Cat. A frase inacabada havia, enfim, encontrado sua pontuação.
Vinícius Pereira , Nova Iguaçú, RJ, já teve vários perfis em sites de fanfics. Após um longo hiato, por intermédio do destino (ou o que quer que prefira definir), ele retorna à escrita com a série de contos das aventuras do Baratex, figura que homenageia o grande Barata Cichetto.


Baratex – Lendas de Um Velho Caubói Filosófico (Temporada 1)
Autor: Vinícius Pereira
Editora: Selo Lâmina 44
Gênero: Contos
Ano: 2026
Páginas: 232
Tamanho: 15 X 21 X 1,25 cm.
Impressão: Papel Offset 90g
Impressão: PB
Capa Cartonada, Laminado Fosco
Arte de Capa: Eduardo Schloesser (Colorido por Louis Mello)
Posfácio: Adriana Avelino (Drigo)











O conto me deixou sem palavras, o mesmo, felizmente, não acontece com esse jovem escritor, que é mestre em frases de efeito. Muito, muito bom!
De fato, o Vinícius se supera a cada dia. Este conto me deixou quase sem ar, na ansiedade para saber o desfecho.
Aaah! É sensacional esses contos, e dessa vez contou a procedência dos cigarros fumados por Baratex! Aaah eu emocionei aqui…
Ass: a filha adotiva de Baratex.
Ah… Os paieros…Só os caipiras de alma entenderão. Baratex manda lembranças à filha adotiva.