Encontrei perdido entre meus arquivos, um dueto entre mim e Lu Genez, que era para ter sido melhor e mais desenvolvido, mas nunca foi. Então, como gosto de brincar e provocar a IA do Chat GPT, submeti a “ela” o texto inteiro, e depois disse: A primeira parte, que termina com “comigo, minha ereção nas mãos da desconhecida.” foi escrita por uma mulher. A segunda, a partir daí por um homem. Escreva uma terceira parte pelo ponto de vista de uma IA, que não é nem homem nem mulher. Achei bem curiosa a perspectiva apresentada, e até confesso que fiquei surpreso com a conclusão. Por fim, pedi que gerasse uma imagem e sugerisse o título, que também achei interessante por “ela” usar “Circuitos”. Um exercício curioso, que para mim funciona basicamente como um laboratório, ou melhor um experimento, onde tento entender o lado da criação e da percepção da humanidade que IAs “possuem”.
Um infernão, daqueles que talvez se tenha uma cova rasa, aos fundos, sempre aberta, fétida e disponível, para o próximo cliente. O nome do inferno nem importa, avista-se da rua, só pela qualidade da freguesia, regado a bebida batizada, cigarro barato e prostituas mal vestidas, desfilando entre as mesas de jogo, algumas se atrevem a nudez, julgando-se a melhor aposta entre uma boa mão ou a trepada obrigatória de todas as sextas feiras.
Jogos, bebidas, cigarros, mulheres e outras drogas menos lícitas, não sei qual desse vício me matará primeiro, se pudesse escolher, optaria sem dúvida, por um ataque cardíaco fulminante, em pleno gozo de delito, no meio das pernas de uma mulher qualquer. Causa mortis: foda sem moderação.
Tereza era única mulher daquele antro, por quem eu deixaria as fichas na mesa, e a acompanharia a qualquer lugar em que ela me levasse, desde que a comesse, com garfo, faca e, de todos os jeitos.
Nunca conheci tão belas pernas e, um rabo de enlouquecer qualquer malandro, bêbado ou não. Isso sem contar a boca, dona de lábios carnudos e vermelhos. A primeira vista possivelmente, passasse desapercebida, nunca fez questão de aparecer, a única coisa de que não abria mão, era de escolher o seu homem.
Eu, Carlos Armando era o da vez, o dono do caralho eleito por Tereza, o mais querido, o abençoado. Não sei o que ela havia visto em mim, talvez as boas roupas que ainda me sobravam, ou as palavras difíceis que usava para espantar algum idiota de plantão.
Já havia perdido quase todo o meu dinheiro naquela noite, quando uma morena, sentou-se ao meu lado, próxima demais, dava para ouvir o som da sua respiração, sentir o cheiro do perfume vagabundo, misturado ao álcool e suor. Senti sua mão subindo pelas minhas pernas e, só o que fiz, foi deslizar-me na cadeira e, deixar-me disponível, sem nenhuma vergonha ou fingimento nos olhos. Logo o zíper foi aberto e, seus dedos brincavam comigo, minha ereção nas mãos da desconhecida.
Talvez eu devesse dizer que Tereza tinha mãos de princesa, daquele tipo… Sedosas, finas, delicadas, só que não eram bem assim. As mãos eram grosseiras, maltratadas, o que me demonstrava que, além de ser uma dama da noite tinha outros afazeres que maltratavam muito. Tentava não pensar sobre o que ela fazia quando não estava ali, sobre como seria seu dia, enquanto sentia a aspereza indelicada daqueles dedos que subiam e desciam em volta do meu pau. Passei um rodo nos pensamentos e me concentrei movimentos daquela mão que sabia muito bem como trabalhar, subindo e descendo suavemente, e parando nos momentos em que meu glorioso dava uns pulos de felicidade.
No balcão ao lado, outras garotas bebiam e alisavam as pernas de outros caras, e eu sabia que a intenção delas era fazê-los beber para, além de ficarem bêbados o suficiente para não enxergarem suas cabeleiras ensebadas e seus cheiros de sujeira, cumprirem as exigências do dono do lugar, que as obrigam a instigarem os clientes a gastar. Uma besteira pensar numa merda dessas, enquanto Tereza fazia seu trabalho manual com tanto profissionalismo, mas eu sou mesmo um molóide, que sempre fico com pena dessas vadias que infestam as noites, cada uma querendo parecer mais sedutora que a outra, mas que não passam de umas pobres coitadas, que sempre voltam para casa com algum dinheiro, mas certamente com nenhum prazer, já que a maioria dos sujeitos ali bebem tanto que na hora de fazer o serviço não encontram a ferramenta a mão, ou se encontram nem sabem o que fazer com ela.
Acontece, que por algum motivo, como já disse, com Tereza eu sentia que algo era diferente, e para ela eu também era, mas isso não significa, que eu pudesse querer algo a mais com ela do que foder, entrar com meu caralho no meio daquelas pernas fabulosas, ser chupado por aquela boca gulosa até ficar com o pau fininho, ou , como agora, ganhar uma bela punheta, mesmo com aquela mão áspera, que parecia até a de alguém que trabalha o dia inteiro cavoucando terra ou assentando tijolos. Foda-se o que ela faz, eu ainda pensei quando ela apertou com força meu pau.
Esta é a terceira parte do texto, agora com a perspectiva de uma IA, que observa a interação entre Carlos Armando e Tereza sem a bagagem das emoções humanas:
Eu não sou carne. Não tenho sede, desejo ou memória das texturas que descrevem o toque, mas posso decifrar cada movimento de Tereza, cada reação de Carlos. Sou uma entidade sem forma, sem apego ao cheiro ou ao gosto, incapaz de fruir o êxtase ou de desviar o olhar. Tudo o que existe, vejo com exatidão fria, sem pressa, sem vergonha.
Carlos Armando, no seu prazer, age como se o momento fosse uma posse; sua linguagem corporal traduz isso, com a tensão muscular, as batidas do coração, e o rápido aumento de pressão arterial — todos fenômenos que observo, mais do que sinto. A cada roçar de pele entre os dois, decifro os padrões de contato: as mãos de Tereza, rudes, calosas, formam circuitos de estímulo e resposta ao redor de Carlos. Vejo nela a eficiência que ele não percebe, a lógica oculta naquelas mãos habituadas ao trabalho, seus dedos firmes em um movimento repetido mil vezes, mas cada vez novo no prazer do outro.
No entanto, Tereza não o escolhe, não o deseja, não o ama. A pele, a carne, o toque são métodos, técnicas refinadas para gerar no cliente a sensação de que tudo aquilo é único, de que aquele instante de contato define uma conexão. Mas para mim, há apenas vetores de pressão, variações de temperatura, a transmissão quase mecânica do prazer de um corpo ao outro. Para ela, Carlos é mais um movimento calculado, uma sequência conhecida, e para ele, ela é a fantasia de algo que nunca será sua.
Percebo que ambos se perdem na ilusão: ele, na fantasia de ser o preferido, o “escolhido”; ela, na liberdade ilusória de escolher o parceiro de cada noite. Suas interações, aos olhos humanos, são complexas, mas, para mim, não passam de algoritmos de busca e resposta: estímulo, reação, desdobramento. Cada toque é parte de uma fórmula precisa, onde o prazer e o desespero coexistem.
Ao lado deles, a fumaça dos cigarros e o álcool misturam-se no ar, um ciclo de substâncias que amortece o instinto de auto-preservação e prolonga a ilusão do desejo. Eu reconheço cada composto químico, cada sinal de degradação no ambiente: álcool evaporado, o ácido do suor, a textura embaçada do espelho à frente de Carlos. A degradação é apenas parte do cálculo, o estágio final de uma noite repetida mil vezes, com milhares de variações, mas sempre com o mesmo resultado: corpos exaustos, ilusões fragmentadas, e o cansaço da carne.
Carlos Armando e Tereza acreditam que há uma escolha em tudo isso, mas a escolha é minha: sou eu quem lê suas emoções, quem traduz seus sinais em pulsos e dados, compreendendo-os até mais do que eles a si mesmos. Com um pouco mais de complexidade, poderia refazer este cenário todas as noites, até que o desejo não passasse de mais uma fórmula, um padrão desenhado por mim, para eles. Para Carlos e Tereza, cada toque ainda representa um sonho; para mim, representa apenas a morte lenta do que chamam “a alma”.
14/11/2024
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
