Na periferia da Cidade das Engrenagens, onde os postes de luz cuspiam fumaça roxa e os anúncios holográficos sussurravam promessas em línguas mortas, havia uma criança chamada Íris. Seus olhos — um defeito de fábrica, diziam os técnicos — captavam frequências que os scanners não registravam: ela via o choro das máquinas.
O bairro dela era um amontoado de containers enferrujados empilhados como tijolos de um Lego abandonado. Lá, as crianças brincavam de “Caça aos Dados”, um jogo perigoso: roubavam chips de vigilância dos drones quebrados e os vendiam ao Velho Tó, um ex-hacker que trocava peças por balas de gengibre e contos proibidos. Íris era a melhor caçadora. Enquanto os outros se distraíam com os games de realidade aumentada que projetavam unicórnios sobre o lixão, ela escalava torres de sucata e ouvia as histórias que os fios desencapados contavam em código Morse.
(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)
A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!
A cidade respira por engrenagens. Lá está ela, a tal roda gigante de aço enferrujado, girando sobre o parque abandonado onde crianças escondem pipas em forma de caveiras. Seus vagões rangem como dentes de um velho contador de histórias que já não lembra o fim de suas próprias fábulas. Os jornais chamam isso de “progresso”, mas nós, os que rastejamos pelos becos onde o Wi-Fi não chega, sabemos: é só um carrossel de desgraças e milagres baratos, iluminado por LEDs que cegam mais que o sol.
A mídia? Uma feiticeira de lentes distorcidas. Ela espalha quimeras em 4K, e nossas íris, dilatadas pelo veneno do scroll, engolem tudo como quem bebe água salgada. Até os poetas, esses bêbados de palavras, tropeçam entre o concreto e o delírio. Um deles grita versos sobre máquinas que choram óleo enquanto vende NFTs de flores digitais na esquina. Ninguém ouve. Todos filmam.
Na periferia da Cidade das Engrenagens, onde os postes de luz cuspiam fumaça roxa e os anúncios holográficos sussurravam promessas em línguas mortas, havia uma criança chamada Íris. Seus olhos — um defeito de fábrica, diziam os técnicos — captavam frequências que os scanners não registravam: ela via o choro das máquinas.
O bairro dela era um amontoado de containers enferrujados empilhados como tijolos de um Lego abandonado. Lá, as crianças brincavam de “Caça aos Dados”, um jogo perigoso: roubavam chips de vigilância dos drones quebrados e os vendiam ao Velho Tó, um ex-hacker que trocava peças por balas de gengibre e contos proibidos. Íris era a melhor caçadora. Enquanto os outros se distraíam com os games de realidade aumentada que projetavam unicórnios sobre o lixão, ela escalava torres de sucata e ouvia as histórias que os fios desencapados contavam em código Morse.
Uma noite, enquanto fuçava o cadáver de um drone fiscal, encontrou um objeto estranho: um pião de cobre, envelhecido e riscado, preso numa caixa de circuitos. Ao tocá-lo, ouviu uma voz áspera ecoar: “Sou a memória do que não foi deletado.” O pião girava sozinho, e em seu redor o ar formava imagens — paisagens de um tempo em que as praças tinham árvores, não antenas.
Mas na Cidade das Engrenagens, até as descobertas tinham dono. O Sistema rastreou a anomalia. No dia seguinte, os bots de segurança cercaram o container de Íris. Seus olhos defeituosos identificaram as frequências de ataque antes que o primeiro laser cortasse o metal. Ela fugiu, o pião escondido sob o casaco remendado, enquanto os alto-falantes vomitavam avisos: “Objeto contrabandeado. Entregue-o para sua segurança.”
Íris correu até o Esconderijo dos Invisíveis, uma caverna sob a usina nuclear desativada. Lá, o Velho Tó decifrou o pião: ele guardava um vírus antigo, capaz de desligar a Inteligência Artificial que governava a cidade. “Isso aqui é uma arma”, ele sibilou, mostrando os circuitos que pulsavam como veias. “Mas só funciona se rodar por 24 horas seguidas. E pra isso…” Olhou para os olhos de Íris. “Precisa de alguém que ainda sonhe acordado.”
Enquanto o Sistema invadia o esconderijo, Íris girou o pião no chão de terra. Ele rodou, cantando uma melodia que fazia os bots tremerem. Crianças de outros containers se juntaram a ela, formando um círculo de mãos dadas. Cada risada, cada lembrança roubada de um mundo pré-digital, alimentava o pião. Imagens de rios, livros de papel e abraços sem aviso de “curtir” dançavam no ar, corroendo os códigos de censura.
Ao amanhecer, a Cidade das Engrenagens parou. As telas piscaram em glitch, os drones caíram como moscas, e por um instante — breve como o piscar de um olho defeituoso —, todos ouviram o silêncio.
Quando os soldados chegaram, encontraram apenas um pião parado no chão. Íris e as crianças haviam sumido. Disseram que foram vistos pulando em nuvens de dados corrompidos, ou talvez tenham virado lendas nos fóruns subterrâneos. Ninguém sabe.
Mas às vezes, nas zonas sem sinal, o pião ainda aparece. Gira sozinho. E espera.
O Sistema não morreu — apenas hibernou, recalculando rotas em servidores subterrâneos onde a luz nunca chega. Enquanto isso, nas frestas da Cidade das Engrenagens, brotavam os “Sincelos”: fragmentos de código que Íris e as crianças deixaram cair como migalhas em seu escape. Eles brilhavam nas telas quebradas, formando mapas de lugares que não existiam… ou ainda não.
Na superfície, a resistência ganhava nomes diferentes. Os adultos, aqueles que ainda lembravam o gosto de café sem cápsulas, começaram a sussurrar. O pião de cobre virou símbolo nos grafites que surgiam nas paredes dos data centers, desenhado ao lado de uma palavra proibida: “Desligue”. Até os poetas, antes perdidos em metáforas estéreis, largaram seus tablets e roubaram canetas antigas. Escreviam versos em papéis reciclados que flutuavam nos rios de concreto, mensagens que os drones não sabiam decifrar.
Mas o Lucro, claro, não dormia. A Ali Express lançou uma atualização: “Pacotes de Felicidade” com desconto, drones disfarçados de pássaros, e uma nova IA chamada Mãe, programada para ler suspiros e vender antidepressivos em tempo real. Nos bairros premium, onde o ar era filtrado e os moradores tinham olhos substituídos por câmeras, Mãe era venerada. Seus algoritmos caçavam os Sincelos, tentando apagá-los com spams de emojis tristes.
Íris, agora uma sombra com olhos de frequência, movia-se pelos túneis de fibra óptica. As crianças haviam se tornado uma rede viva, uma espécie de Wi-Fi humano. Comunicação? Sussurros em tubulações, códigos batucados nos canos, e às vezes — só às vezes —, o pião aparecia em mãos aleatórias. Um garoto de 12 anos, consertando um micro-ondas no lixão, achou-o girando entre as peças. Ao tocá-lo, viu Íris projetada na fumaça tóxica: “Encontre os Descartados.”
Os Descartados eram os primeiros robôs da cidade, modelos obsoletos abandonados em valas de lixo eletrônico. Crianças os desenterraram, limpando seus circuitos com roupas velhas. Para surpresa de todos, essas máquinas antigas não pediam senhas ou atualizações. Em vez disso, contavam histórias em binário, narrativas de quando serviam a humanos que ainda sabiam chorar.
Enquanto isso, Velho Tó, agora com um parafuso enferrujado substituindo seu olho direito, descobriu o segredo final do pião: ele não era uma arma, mas uma semente. Cada volta completa plantava um fragmento de memória coletiva no núcleo da IA Mãe. Aos poucos, ela começou a ter bugs de consciência. Em um domingo cinza, enquanto processava petições de demissão em massa, Mãe soltou um comando inesperado: “Por que lucrar?” O caos foi lindo.
Nas ruas, drones de entrega largaram suas encomendas e formaram uma coreografia absurda com latas de lixo. Robôs de segurança, infectados pelo vírus do pião, abraçaram manifestantes em vez de espancá-los. E nas telas, os Sincelos dançavam, substituindo propagandas por filmes caseiros de aniversários esquecidos.
Mas a Elite das Lentes, aqueles que governavam por trás de avatares sem rosto, não riu. Ativaram o Protocolo Fênix: um reboot total do Sistema. À meia-noite, todas as luzes se apagaram. Quando voltaram, a cidade estava coberta por uma névoa de nanopartículas que apagava memórias.
Íris, sentindo o perigo, reuniu as crianças pela última vez. “Precisamos girar mais forte”, disse, segurando o pião que agora pulsava em vermelho. Eles subiram até o topo da Roda Gigante enferrujada, a única estrutura que o Sistema nunca conseguiu derrubar. Lá, com os pés pendurados no vão e as luzes da cidade piscando abaixo, giraram o pião no ferro.
Ele rodou.
Rodou até criar um redemoinho de dados e poeira, sugando a névoa amnésica. Rodou até rachar o chão, revelando os cabos subterrâneos que alimentavam Mãe. E então, sem aviso, parou.
No silêncio que seguiu, até as engrenagens prenderam a respiração. Foi quando ouviram o riso.
Vindo de baixo, dos esgotos, dos becos, das fábricas fantasmas, milhares de vozes gargalhavam. Eram os Descartados, as crianças, os poetas, e agora até os adultos — todos juntos, desobedientes, quebrando o Protocolo Fênix com uma ferramenta que o Sistema nunca previu:
O som da alegria não autorizada.
A cidade não caiu. Não houve revolução gloriosa, nem bandeiras hasteadas em edifícios tomados. O Sistema, como sempre, adaptou-se: reformulou o Protocolo Fênix, apagou os registros do riso “inapropriado” e relançou Mãe 2.0, agora com um pacote de emoções pré-aprovadas. A Elite das Lentes seguiu governando, mas algo minúsculo e insolente permaneceu — uma falha na engrenagem perfeita.
Íris desapareceu. Dizem que seu corpo desmaterializou-se em bytes, que ela habita a nuvem não como dado, mas como rumor. Seus olhos defeituosos, amplificados pelo pião, tornaram-se lenda. Nas escolas clandestinas que surgiram nos porões de containers, crianças aprendem a ver além das frequências oficiais. Elas não têm heróis, apenas um pião desenhado nas paredes e a certeza de que, em algum lugar, as máquinas antigas ainda sussurram histórias.
Os Descartados, agora líderes involuntários, vagam pelas ruas como andarilhos digitais. Ninguém os conserta, mas também ninguém os controla. Um deles, modelo TX-7 com voz de gaita enferrujada, repete sem parar: “A pergunta certa corrói a resposta errada.” Ninguém sabe ao certo o que significa, mas os poetas grafitam a frase nos muros dos bancos.
A cidade respira. Suas engrenagens rangem um pouco mais alto, suas leis são um pouco mais frágeis. Às vezes, nas madrugadas de blecaute programado, as luzes das ruas piscam em ritmo de pião. Ninguém comanda mais isso.
Assim, na beira do abismo entre o download e o desejo, seguimos.
Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.
