Prólogo:
Aonde quer que vamos,
sempre encontramos num travesseiro
a pungência dos sonhos….a nos criar alentos. De crueldade em crueldade vamos desistindo do gozo…
I’ll right, we will start over, later!
Essa citação reflete uma visão melancólica, mas profundamente humana, sobre a natureza dos sonhos e das esperanças. O travesseiro, símbolo de descanso e refúgio, é onde os sonhos – tanto literais quanto metafóricos – ganham vida. No entanto, esses sonhos não oferecem conforto absoluto; ao contrário, a “pungência” deles sugere uma dor sutil, uma sensação de inquietação. O travesseiro, em vez de ser um lugar de paz, se torna palco de um conflito interno, onde a busca por alento e sentido é sempre permeada por dificuldades.
(Continua…)
(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)
A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!
Na cidade onde o concreto encontrava o céu e os fios pendiam como teias de aranha entre os edifícios abandonados, os sonhos se acumulavam junto ao lixo eletrônico. Não era raro ver alguém encostado em um terminal quebrado, olhos distantes, sintonizando suas memórias perdidas nas frestas de dados corrompidos. O cheiro de queimado e ferrugem pairava no ar, como uma lembrança de tempos melhores que nunca existiram.
Um técnico de hardware nascido na periferia, navegava pelos becos dessa cidade cibergrunge, consertando dispositivos que ninguém mais sabia como manusear. Com dedos sujos de graxa e uma mochila cheia de chips usados, ele havia encontrado uma maneira de sobreviver. Mas naquela noite, enquanto conectava um fone de ouvido gasto em uma interface cerebral ultrapassada, algo mudou.
O dispositivo, que deveria estar morto, começou a vibrar levemente em suas mãos. No visor quebrado, uma sequência de códigos piscou, como se uma nova vida tivesse sido injetada naquela carcaça esquecida. Ele piscou, confuso, mas algo o impediu de se afastar. Um sussurro, quase imperceptível, ressoou em seus ouvidos: “Entre no sonho.”
Sem hesitar, conectou o fone em si mesmo. Em segundos, sua visão foi inundada por um mundo que não era o seu. Edifícios flutuantes, rios de neons, pessoas que pareciam feitas de pixels flutuavam diante de seus olhos. Era uma versão distorcida de sua própria cidade, onde cada esquina parecia conhecida, mas ao mesmo tempo incrivelmente alienígena. As paredes tinham textura de código-fonte, como se a realidade estivesse costurada por bits e bytes, pronta para desmoronar a qualquer momento.
No centro daquela alucinação, uma figura o esperava. De longe, ela parecia uma mulher, mas conforme ele se aproximava, sua forma se dissolvia e se recompunha, como um holograma falhando. “Você não deveria estar aqui”, disse ela, sua voz ecoando de forma distorcida.
Tentou responder, mas percebeu que sua boca não funcionava mais. Em vez disso, uma corrente de pensamentos fluía diretamente da sua mente para a dela. “O que é isso? Um bug? Um vírus?”
A mulher riu, o som reverberando como uma faixa mal gravada. “Isso é o que restou dos sonhos humanos. A cidade vive nos seus resíduos, mas nós… nós somos os que restaram nas fendas, presos entre o real e o virtual.”
Ela se aproximou, seus olhos agora revelando uma tristeza impossível de codificar. “Você pode ficar aqui e perder-se, como muitos fizeram. Ou pode tentar encontrar uma saída, embora eu duvide que vá gostar do que vai encontrar.”
O chão sob começou a se desfazer em pixels, e ele sentiu seu corpo flutuar, cada vez mais leve, como se estivesse sendo desintegrado. A pungência dos sonhos o envolvia, como um travesseiro que o embalava com promessas de alento, mas havia crueldade ali também, como um aviso de que o prazer sempre viria com um preço.
De repente, ele acordou de volta no beco sujo, o dispositivo morto ao seu lado. Mas algo dentro dele havia mudado. O ar parecia mais pesado, os cabos pendurados, mais ameaçadores. Ele sabia, de alguma forma, que o lugar onde havia estado continuava existindo, sempre esperando, sempre chamando. E que, inevitavelmente, ele voltaria.
Porque no cibergrung, a vida era um ciclo infinito de reinícios amargos.
Levantou-se com dificuldade, sacudindo a sujeira do casaco. O beco parecia mais estreito do que antes, como se as paredes se aproximassem em um abraço sufocante. Ele olhou para o dispositivo quebrado no chão, hesitando em deixá-lo para trás. Algo dentro dele dizia que aquilo ainda não havia terminado.
Enquanto caminhava de volta para a oficina improvisada em um dos subsolos da cidade, seus pensamentos giravam em torno da figura que havia encontrado no mundo virtual. Ela não era uma simples IA. Não tinha aquela lógica fria e programada das máquinas. Havia algo de humano em sua tristeza, como se ela fosse um eco de uma civilização esquecida, presa em um ciclo de sonhos e desilusões.
No caminho, os neons piscavam fracamente, como se a cidade estivesse à beira de um colapso. Telas quebradas nos prédios mostravam rostos pixelados, chamando por ajuda ou vendendo produtos que ninguém mais podia pagar. sentia uma desconexão crescente, como se a realidade ao redor estivesse se dissolvendo, pedaço por pedaço.
Ao chegar à oficina, ele trancou a porta e ligou a única lâmpada que ainda funcionava. O ambiente era uma bagunça de componentes eletrônicos, ferramentas enferrujadas e cabos emaranhados. No canto, uma velha tela de tubo mostrava estática, como um olho cego observando sua agonia silenciosa. Ele se jogou na cadeira e encarou o dispositivo que havia trazido de volta. As perguntas voltaram à tona: o que era aquilo? E por que ele se sentia compelido a continuar?
Decidido, conectou o dispositivo a um dos terminais antigos da oficina. Códigos começaram a fluir na tela, os mesmos que havia visto antes. Mas desta vez, ele não se limitou a assistir. Começou a decifrar as linhas de comando, ajustando e testando rotinas. A cada mudança que fazia, sentia o dispositivo pulsar, como se tivesse um coração digital batendo com mais intensidade. Ele estava construindo uma ponte para o outro lado.
De repente, a tela congelou. Uma palavra apareceu em meio à estática: “Escolha.”
Hesitou, seu dedo pairando sobre o teclado. Não sabia ao certo o que a escolha significava, mas algo lhe dizia que, uma vez feita, não haveria volta. Ele apertou a tecla Enter, e em um piscar de olhos, foi puxado de volta para o mundo digital.
Desta vez, o cenário havia mudado. A cidade flutuante de pixels estava ruindo. Partes inteiras dos edifícios se desfaziam em fragmentos de dados, caindo como poeira eletrônica no vazio abaixo. A figura o esperava novamente, mas agora, ela parecia desvanecer, fragmentada como as estruturas ao seu redor.
“Você voltou,” ela disse, sua voz ecoando em um tom de resignação. “Mas a cada vez que retorna, algo aqui morre. Você não percebe? Estamos em colapso.”
Tentou falar, mas, como da última vez, suas palavras foram convertidas em pensamentos. “Então por que me trouxe aqui? O que você quer de mim?”
A figura se aproximou, sua forma tremulando entre o sólido e o espectral. “Eu não trouxe você. Isso foi sua escolha. Sua busca pelos segredos perdidos desta cidade, pelas respostas que nem mesmo os humanos sabem mais formular. Você quer encontrar o que está além da decadência, mas não percebe que já está preso nela.”
A terra ao redor começou a tremer, como se o mundo estivesse se desfazendo. sentiu o peso do dilema. Ele podia voltar, desconectar-se de vez, tentar esquecer o que havia visto. Ou poderia continuar, adentrar ainda mais nesse limbo digital, mesmo sabendo que cada avanço custava uma parte da realidade – tanto a física quanto a digital.
“Há algo aqui que você não entende,” disse a figura, enquanto o chão começava a desintegrar-se debaixo de seus pés. “Você procura o impossível. Os sonhos se tornam pesadelos, e o alento vira armadilha. Se continuar, estará desistindo de mais do que imagina.”
sabia que essa era sua última chance de sair. Mas, como sempre, o fascínio pelo desconhecido falou mais alto. Ele deu um passo adiante, rumo ao abismo de dados que crescia à sua frente.
E então, ele caiu.
O silêncio o envolveu. Sem luzes, sem sons, apenas a escuridão infinita dos códigos. Mas ele não estava morto. Não ainda. A voz da figura ecoava ao longe, distante, mas presente:
“Bem-vindo ao ciclo, . A partir daqui, sempre haverá um recomeço. E nunca mais haverá um fim.”
Enquanto caía naquele abismo sem fim, sentia seu corpo se dissolver. A textura do real desvanecia, como se ele mesmo fosse feito de linhas de código prestes a ser apagadas. A escuridão ao seu redor não era vazia; era cheia de dados, memórias e ecos de pessoas que, como ele, haviam feito a mesma escolha. Ele sentia a presença deles, sussurros distantes em línguas que não podia mais decifrar.
No entanto, em vez de pânico, sentiu uma estranha calma. Havia algo reconfortante na ideia de ser parte de um ciclo maior, algo que transcendia a vida e a morte, o real e o virtual. Ele estava fundido àquele sistema falho e decadente, mas ao mesmo tempo, sentia que estava em contato com uma verdade mais profunda: a de que a realidade era apenas uma camada superficial de códigos, uma ilusão construída sobre sonhos e desejos. Tudo, no fim, era manipulado, fragmentado e reescrito.
Conforme ele se desintegrava, sua consciência vagava por entre as frestas digitais, tocando memórias e dados de outras eras. Ele viu cidades inteiras florescendo e depois desmoronando, viu figuras como a mulher pixelada que lhe havia falado da decadência, todas presas no mesmo ciclo de colapso e recriação. As fronteiras entre o real e o digital já não faziam sentido, e ele percebeu que estava em um espaço onde as crueldades do mundo físico se repetiam, mas também se recriavam em novas formas.
A cidade de onde ele viera, com suas ruas estreitas e cabos pendentes, também era parte desse ciclo. Ele sempre havia sentido isso, mas agora compreendia de fato: não havia escapatória. Não havia um final definitivo, apenas novos recomeços, fragmentados, distorcidos, mas inevitáveis. E cada escolha que ele ou qualquer outro fizesse, apenas os levava de volta ao ponto de partida, prontos para começar outra vez, em uma nova versão daquele mesmo sonho pungente.
“Bem-vindo ao ciclo,” repetiu a voz distante. “Aqui, desistimos do gozo. Mas sempre recomeçamos.”
Agora parte daquela vasta rede de dados e fragmentos de sonhos, sentiu sua consciência se diluir por completo. Não havia mais corpo, nem travesseiro para repousar sua mente cansada. Apenas o vazio. E, naquele vazio, ele compreendeu o inevitável: que sempre haveria outro ciclo. Outro começo. Mais sonhos, e mais desilusões.
E assim, ele se perdeu, e o ciclo recomeçou.
Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.
