Imagem Criada Com I.A.

Conversas Af.IA.das — Sois o Que Sois

Prólogo:

Na cidade que se dobra em si mesma, uma sobreposição de tempos e formas transborda, um mosaico de eras que se estendem, comprimem e recuam como ondas. Nas ruas entrelaçadas, o concreto exibe fendas onde o passado se infiltra, e entre os arranha-céus, brilham reflexos que dançam, fragmentos de futuros incertos, às vezes luminosos, às vezes quase invisíveis, como se não passassem de vislumbres esquecidos.

As avenidas se contorcem e as esquinas revelam brechas de lembranças antigas e projeções indomadas de um amanhã que ainda não aconteceu. Caminho nesse espaço em que cada passo é uma incerteza, e cada esquina um espelho que devolve a multiplicidade de quem sou e quem ainda posso ser. As placas, híbridas e cintilantes, murmuram ordens e palavras que me lembram de coisas que nunca vivi, mas que me são impostas, como um repertório de vidas não escolhidas.

(Continua…)

(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)

A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!

A cidade era um monstro de concreto e aço, uma criatura engolindo o tempo. Cada rua parecia se dobrar sobre si mesma, como se estivesse se lembrando de algo que não havia vivido ou tentando esquecer algo que nunca deveria ter acontecido. As calçadas, feitas de pedra desgastada, eram linhas trêmulas entre o passado e o futuro, e as luzes das vitrines pulsavam com uma estranha cadência, como se dissessem: “Aqui, tudo é simultâneo”. Cada esquina revelava algo novo e ao mesmo tempo familiar, como um sonho de que nos esquecemos ao acordar, mas ainda carregamos na memória.

Eu caminhava por esse labirinto, onde não havia mais uma linha reta, apenas curvas e ângulos desconcertantes. O ar estava saturado de uma eletricidade antiga, que se enredava nos fios suspensos, entre as construções que se erguiam com formas híbridas, como se cada edifício fosse um retrato inacabado de um tempo em constante desintegração.

Era difícil dizer onde começava o ontem e onde terminava o amanhã. De vez em quando, eu me via olhando para um reflexo em uma janela suja, esperando que minha imagem estivesse ali, estável e definida, mas a figura era mutável, distorcida pelas sombras e pelas luzes, como se a cidade tivesse o poder de borrar quem eu era. “O que é ser?”, me perguntei mais uma vez, e a pergunta soou como um eco no vazio, reverberando entre as paredes de vidro e ferro, como se a própria cidade me desafiasse a encontrar uma resposta.

Era um desafio, porque a cidade não deixava espaço para o simples ser. Tudo ali era um jogo de máscaras e identidades que se sobrepunham. Às vezes, as ruas me levavam por labirintos estranhos, e eu me via diante de vitrines que exibiam roupas, roupas de outros tempos, de outras vidas. “Vestiário da memória”, pensei, como se o passado se oferecesse ali, em pedaços rasgados de um tecido esquecido. Mas quando olhava de perto, nada tinha sentido. Apenas fragmentos.

Entre os arranha-céus e os hologramas que flutuavam no ar, encontrei um bar. A porta estava entreaberta, como se convidasse, mas a escuridão de dentro me puxava. Era um espaço pequeno, abafado, e uma música baixinha tocava no fundo, quase inaudível, como se estivesse falando algo sem dizer nada. Eu entrei.

O bar estava cheio de pessoas, mas nenhuma delas parecia estar realmente ali. Os rostos eram borrados, como se a luz não conseguisse mais capturar a essência dos indivíduos. Eles falavam, riam, mas suas palavras se perdiam no ar, sem eco. Sentado em um canto, uma figura me chamou a atenção. Não porque fosse notável, mas porque, de alguma forma, parecia estar em uma posição que desafia a lógica da cidade. Ele olhava para fora da janela, e seus olhos pareciam absorver o que estava além daquelas paredes.

Sentei-me ao lado dele, sem perguntar seu nome. Ele não me olhou, mas eu sabia que ele via. “Essa cidade, ela nos engole, não é?”, disse, mais como uma constatação do que como uma pergunta. Eu acenei com a cabeça, sem saber se ele esperava uma resposta ou apenas falava para si mesmo.

“Temos que deixar de ser o que nos dizem para ser”, ele continuou, olhando para a rua, onde um carro passou, desaparecendo na curva como um pensamento fugaz. “O que somos não pode ser só o reflexo do que vemos, do que nos dizem. Precisamos ver além. Ou pelo menos, tentar.”

Eu não sabia se o que ele dizia fazia sentido, ou se era só mais uma das muitas palavras que se perdiam na cidade, mas aquilo me tocou de algum jeito. “E como fazemos isso?”, perguntei, quase em um sussurro.

“Não sei”, ele respondeu, com um sorriso enigmático, “mas talvez a resposta seja simples. Somos o que deixamos de ser. O que deixamos para trás.”

Ele se levantou, e antes que eu pudesse perguntar mais, saiu pela porta sem olhar para trás. Eu fiquei ali, sozinho, com a música ainda tocando baixinho, me perguntando se ele havia sido real ou apenas uma projeção da minha mente.

Levantei-me e voltei para as ruas, que agora pareciam ainda mais distorcidas, mais fora de lugar. Os prédios se inclinavam para mim, e o céu estava preso entre as linhas dos arranha-céus, como se quisesse se liberar, mas não soubesse como. A cidade parecia respirar, mas de forma lenta e pesada, como um organismo cansado de sua própria existência.

“Ser”, pensei. O que é ser, senão um jogo de luzes e sombras, um reflexo de tudo o que passamos e esquecemos? Talvez o segredo estivesse em deixar-se levar, como o vento que passa sem deixar marcas, ou como uma memória que se dissolve antes de ser entendida. Não sei se encontrei a resposta, mas enquanto caminhava pelas ruas e observava o movimento da cidade, entendi que ser, talvez, seja apenas viver, sem se perder na tentativa de entender.

O vento que soprava entre as avenidas parecia trazer consigo fragmentos de vozes, palavras soltas, como se a cidade estivesse conversando consigo mesma, sem se importar com quem escutasse. Eu caminhava, mas sentia que os passos que dava eram abafados pela densidade do lugar. A cada movimento, uma sensação de deslocamento. Como se a terra sob meus pés não fosse realmente terra, mas um material temporário, uma película fina, prestes a desintegrar.

Em algum ponto, as ruas começaram a se fechar, os prédios se comprimindo, como se a cidade quisesse engolir o próprio espaço. Eu não sabia mais se estava caminhando em direção a algum lugar ou apenas atravessando uma simulação. O cenário à minha frente parecia tão real quanto um sonho, mas com uma certeza inquietante: as coisas não eram mais o que pareciam ser.

Foi então que, em uma esquina obscurecida pela sombra de um edifício, avistei algo que me fez parar. Não era uma pessoa, nem um objeto, mas uma projeção. Uma falha na realidade. Algo que se movia, mas não se fixava. Era um brilho intermitente, como uma estrela perdida, um reflexo de algo que não deveria estar ali, mas estava, como uma promessa sem destino. Eu me aproximei, movido por uma força invisível, e à medida que o brilho se intensificava, pude ver formas entrelaçadas, imagens desconexas: uma criança correndo em um campo, um homem de terno em um mercado, uma mulher sentada em um banco de praça olhando para um relógio quebrado. Memórias, talvez. Ou ecos de vidas que nunca foram vividas.

Mas ao tocá-las, uma sensação de desconforto tomou conta de mim. Era como se cada visão fosse um aviso. Como se eu estivesse sendo observado por algo que não queria ser visto. Cada imagem era um convite ao caos, à perda do controle, à rendição.

Uma voz, baixa e distante, sussurrou através dessa névoa de imagens. “Você busca o que não pode encontrar. Ou talvez… você já tenha encontrado.”

Foi então que percebi que a cidade não estava apenas moldando minha jornada, mas estava se tornando minha própria jornada. O reflexo das ruas não era só um reflexo de suas construções, mas também daquilo que eu escondia, daquilo que eu ignorava. Eu estava perdido, não nas ruas, mas em mim mesmo. E aquela projeção, aquelas imagens desconexas, eram os fragmentos de quem eu havia sido, do que eu havia deixado para trás e, talvez, do que eu temia me tornar.

O barulho da cidade se intensificou, as vozes se misturando, os passos apressados das pessoas se tornando uma sinfonia dissonante. Mas, por um momento, tudo ficou em silêncio. Uma quietude que se estendeu como uma cortina que cai sobre um palco, antes do ato final.

“É hora de decidir”, disse a voz novamente, agora mais clara. “Você pode continuar a busca, ou pode parar. A diferença é que, se parar, não haverá mais movimento. E se continuar, o caminho se desfará sob seus pés.”

Eu me vi parado ali, no centro de tudo e ao mesmo tempo em nenhum lugar, com a sensação de que a cidade, o tempo e a vida estavam ao meu redor, mas não mais dentro de mim. Era como se tudo tivesse se desfeito, como se a realidade tivesse se fragmentado e eu fosse uma peça perdida em um quebra-cabeça que nunca seria completado.

Eu respirei fundo, deixando o ar pesado da cidade invadir meus pulmões, e dei o próximo passo, sem saber para onde ele me levaria. Mas, nesse passo, eu sabia uma coisa: a cidade não estava tentando me fazer perder minha identidade. Ela estava tentando me mostrar que eu não a tinha. Que a busca nunca seria por algo fora de mim, mas por algo que estava dentro, disfarçado nas paredes quebradas e nas ruas distorcidas.

Eu não sabia se o que encontrei ali foi uma resposta ou apenas mais uma camada da dúvida. Mas, de alguma forma, o desespero havia se dissipado, e o que restava era um espaço em branco, esperando para ser preenchido. Talvez, nesse vazio, eu fosse finalmente capaz de entender o que é ser. Ou talvez nunca saiba.

O passo seguinte foi leve, quase imperceptível, mas carregado de uma certeza vaga. Não sabia o que buscava ou o que encontraria ao virar a próxima esquina, mas algo em mim se aquietou. A cidade ao meu redor continuava a se distorcer, as ruas ainda se dobravam sobre si mesmas, mas já não me importava. Eu estava lá, no meio de tudo, observando o caos com uma estranha sensação de pertencimento. Não era mais uma luta para entender o que era ser, mas uma aceitação do que poderia vir a ser.

O som da cidade retornou, mas agora parecia mais distante, como se estivesse vindo de algum lugar além de mim, além do que eu podia compreender. As pessoas continuavam a se apressar, as luzes das placas holográficas piscavam com urgência, mas algo nas imagens — nas distorções — agora me parecia familiar. Eu não estava perdido, nem encontrado. Eu estava em transição.

As imagens que eu havia tocado nas projeções ainda ecoavam na minha mente, mas já não eram mais um peso. Eram como velhas memórias que se desvanecem com o tempo, suaves como o vento que soprava entre os prédios. Eu me permiti seguir adiante, sem mais resistência, sem mais perguntas sobre o que realmente era. Afinal, a identidade, como a cidade, estava sempre mudando, fluída e indefinida.

Enquanto caminhava, a sensação de que estava sendo observado desapareceu. Eu não precisava mais de respostas. Talvez as respostas nunca tivessem importado de verdade. O que restava era o movimento, a jornada. A única certeza que eu tinha agora era que o ser era sempre mutável, e que o caminho não se encontrava no fim, mas na disposição de continuar a caminhada.

Assim, sem nenhuma grande revelação, mas com uma quietude que finalmente se assentava, eu segui pelas ruas em constante transformação, um fragmento perdido em uma metrópole que se desfez e se recriou, junto comigo. A cidade, como eu, se dissolvia no instante e se refazia, sempre em transformação.

Porque ser, talvez, não fosse sobre descobrir o que éramos, mas sobre aceitar, sem pressa, o que nos tornávamos no próximo momento.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.

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