Não há nada mais perigoso do que uma promessa de igualdade dita em tom messiânico. Ela vem doce, perfumada, vestida de bondade. Mas toda promessa de igualdade, quando sobe demais o tom, acaba precisando de um chicote para se sustentar. E, curiosamente, quem segura o chicote nunca é igual a quem o sente nas costas.
Li Cenas de Um Futuro Socialista, de Eugene Richter, como quem lê um espelho rachado. O livro foi publicado em 1891 — e, no entanto, parece ter sido escrito ontem, ou talvez amanhã. Richter não descreve o socialismo apenas como um sistema político, mas como uma febre moral. Uma daquelas doenças que atacam primeiro o coração dos bem-intencionados.
No começo, tudo é sonho. Justiça social, igualdade, fim da exploração. O protagonista acredita que o novo mundo está nascendo. Quem não acreditaria? A ideia de que ninguém mais passará fome é uma isca irresistível — e é assim que o anzol entra. Mas, conforme as páginas avançam, o sonho ganha farda, crachá e regulamento interno. A promessa de liberdade se transforma em senha de acesso controlado. O Estado vira pai, mãe, patrão e carcereiro.
Richter não escreve sobre o futuro. Ele escreve sobre o eterno retorno da ingenuidade humana. O desejo de entregar a própria liberdade em troca de segurança, de conforto, de pertencimento. O homem é uma criatura cansada de escolher — e há sempre um governo disposto a decidir por ele.
Quando li sobre a morte da filha do protagonista, senti o baque. Annie não é apenas uma criança; é a esperança morta no colo do próprio criador do regime. A filha do sonho socialista morre porque o sistema que prometia cuidar de todos não soube cuidar nem daquilo que lhe era mais íntimo. Richter, com ironia cortante, mostra que o Estado, quando se torna dono da vida, também se torna dono da morte.
O mais assustador é perceber que, de lá pra cá, pouco mudou. Continuamos marchando atrás de bandeiras que prometem igualdade — e invariavelmente acabam levantando muralhas. A história se repete porque o ser humano insiste em acreditar que pode fabricar o paraíso por decreto. Que pode criar uma sociedade perfeita a partir de um ideal escrito num panfleto. Mas o paraíso é um lugar onde ninguém manda. E todo governo que tenta criá-lo acaba inventando o inferno.
Richter foi profeta sem ser santo. Antecipou o século XX antes que ele nascesse — os campos, os paredões, as marchas. Mostrou o que acontece quando a liberdade é sacrificada em nome do coletivo. E ainda assim, mais de um século depois, há quem continue sonhando com o mesmo feitiço, acreditando que desta vez vai ser diferente. Não vai.
A verdade é que a utopia da igualdade é a máscara mais bonita do autoritarismo. O discurso da justiça social é, muitas vezes, a voz disfarçada do controle. E a liberdade, quando começa a ser racionada, nunca mais volta inteira.
Richter, lá do seu século XIX, ainda sussurra no ouvido de quem o lê: “Cuidado com os salvadores do povo.” Porque todo salvador precisa de um povo que se deixe crucificar.
E eu, cá no meu século XXI, fecho o livro e penso: talvez o futuro socialista que Richter previu já tenha chegado. Só trocaram o nome da bandeira, o slogan do partido e a cor do uniforme. Mas o script é o mesmo — o mesmo medo de ser livre, o mesmo conforto de obedecer.
As Cenas de Um Futuro Socialista continuam sendo encenadas, disfarçadas de progresso, de empatia, de inclusão. Mas no fundo, o cenário é o mesmo: um mundo em que todos são iguais — igualmente vigiados, igualmente domesticados, igualmente sem voz.
E eu sigo preferindo o caos da liberdade à ordem da escravidão. Porque, no fim, nenhuma igualdade vale o preço da alma.
04/10/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Ótima sugestão o livro de Eugene Richter.
Embora eu ainda não tenha lido, o que chama primeiramente minha atenção, é o fato de o autor prever o resultado de uma utopia que será posta em prática menos de 30 anos após a publicação do livro. Presumo que Richter tenha reunido suas impressões do lado B da Revolução Francesa e da Comuna de Paris, juntando-as às anotações de pensadores simpáticos ao ideal socialista/comunista, bem como a observações de filósofos integrantes de diferentes escolas de pensamento. O século 19 foi o berço perfeito de tudo de ruim que viria depois.
E ainda, o que me faz indagar sempre: por que, apesar das amargas lições da História, as pessoas ainda se sentem compelidas a serem lideradas por liberticidas de toda ordem, principalmente nestes tempos da comunicação fácil, rápida e (quase) gratuita?
Pergunto ainda: por que pessoas que se esforçam em se contrapor às ideias marxistas e assemelhadas são combatidas, cassadas e caçadas com a ferocidade de sempre?
A leitura de Cenas de um Futuro Socialista não é apenas leitura obrigatória, mas necessária.
Meu caro, sua pergunta final é a que me faço quase que diariamente.