“Eu te convido
A olhar para si mesmo,
Sentir a leveza da vida
Quando você sorrir.”
Clarisse da Costa
O ser ao lado levou a lata de cerveja à boca e deu um demorado gole, depois levou a mão ao bolso da camisa, tirou dois cigarros importados e deu um. Eu tirei o meu isqueiro de gás butano, o objeto de prata, chamou a atenção do meu amigo acidental. Acendi o cigarro do meu amigo e depois o meu, olhei para o sujeito que parecia um condenado a uma pena longa que acabou de ganhar a liberdade.
— Faz tempo que eu não sentia o gosto da liberdade! — Disse Toninho Patuá.
— Interessante meu amigo! — Devolvi intrigada.
— Foi quando o meu pai foi convocado para a guerra! O trem do exército apareceu por aqui, a caça de voluntários — Disse o fatigado Toninho Patuá.
— Impossível! Meu bom amigo! — Contrarie usando a lógica cartesiana, mesmo sabendo que ali a lógica não existia.
— Parece mesmo que foi ontem, minha amiga Clarisse Cristal. Por fim o trem chegou e os jovens sem embrenharam mata acima. O meu pai, com espaço e cinco filhos para criar, foi apanhado de surpresa, àquela época trabalhava de carroceiro. Trabalhava no porto e foi apanhado voltando para casa, ele tinha parado na estação dos trens e um sargento com a sua prancheta em mãos e ladeado por três soldados. O sargento simplesmente pediu carona e assim aqueles homens uniformizados foram conduzidos pelo bairro onde vivíamos! — Disse Toninho Patuá e deu mais um gole de cerveja e uma tragada no cigarro.
— Tu tinhas quantos anos? — Fiz eu, outra pergunta desnecessária e imprudente.
— Era bem pequeno, mas isso não importa e o que importa agora. E que importa foi o olhar gélido daquele homem pequeno, vestido com aquele uniforme verde oliva. Estavam na frente da nossa casa, aqueles homens uniformizados e armados. Estávamos na soleira da porta, a minha mãe grávida e os meus quatro irmãos e sabíamos o que ocorria quando o trem do exército chegava na cidade! — Disse o emocionado, Toninho Patuá e mais uma pausa para beber e fumar.
— Em tempos de guerra, vinham recrutar que estava pela frente, em cidades pequenas e distantes. — Disse eu um tanto constrangida.
— Sim! E eu ouvi da boca daquele homem, dizendo que vinha a procura de bons voluntários e tudo mudou quando ele olhou para nós, na soleira da porta. O homem disse que o irmão e o filho dele, já estavam na fronte de batalha e que eram assim na família dele. E eu uma opção simples, mas nada fácil, para o meu pai, ou ele iria para a guerra ou iria o meu irmão mais velho. — Disse Toninho Patuá angustiado.
— Que horrível escolha! — Disse eu consternada.
— E assim o meu irmão mais velho embarcou no trem do exército, rumo à capital federal e depois para o velho mundo. E senti que eu era diferente, quando uma lufada de frio me atingiu, era um verão muito quente, depois fui jogado ao chão com uma forte dor no peito. E eu soube que o meu irmão mais velho tinha morrido e a minha mão também e foi o início do fim, pois as coisas passam a ter sabores ocres. E um vazio enorme começou a me envolver e eu vi um a um irem embora e o amargor que sentia, quando comia ou bebia alguma coisa eu não sentia sabor algum! — Disse Toninho Patuá olhando para o oceano.
— Depois passou a não sentir fome ou sede, creio! — Disse eu friamente e comecei a ouvir uma canção ao longe.
— E toda a vez que alguém morria, eu sentia as dores e os desesperos, não só de quem partia, sentia as dores e desesperos de que ficava. Foram todos da minha família e eu fiquei sozinho. Então eu percorri o mundo atrás do nem eu sei o que, sempre na escuridão, sempre à noite, sempre sentido as dores e o desespero quem ficava! E depois de não encontrar o que eu não sabia o que de fato eu procurava eu voltei para a casa. — Disse Toninho Patuá dono de si.
— E que mudo? — Por fim perguntei e então percebi que o canto vinha do oceano.
— A tua pessoa! Depois que te vi criança crescida, os sabores voltaram e a necessidade de sentir a luz do dia novamente! — Disse Toninho Patuá.
E então a cena do desconhecido se afogando no mar, inundou a minha mente. Braços fortes seguraram o homem que se afogava e então mandaram de volta a orla da praia e o salva-vidas fez os atendimentos de primeiros socorros e o homem voltou à vida.
— Uma vida por outra vida, minha querida amiga Lady Cristal! Agora eu sinto tudo, percebo tudo e eu sei de tudo — Disse Toninho Patuá sorrindo.
Logo entendi o que ocorria e eu paralisada ouvi a canção vinda do mar. Toninho Patuá sorrindo e olhando para mim, começou a andar está indo para a orla. E começou a correr de braços abertos, gritou alguma coisa em uma língua que eu não conhecia.
Fragmento do Livro: Do Diário de Uma Louca, texto de Clarisse Cristal, poetisa, cronista, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista, cronista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

Bravo, Clarisse!
Agradecemos
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