[Canonizaram o morto, que ideia enfadonha]

Canonizaram o morto, que ideia enfadonha
Virou mártir, padre, santo, papa, nome de rua.
O tiraram de um lugar comum, lhe deram altar e velas,
Pediram silêncio, homenagens, manifesto.
Ultrajaram lhe a memória,
Se ainda tivessem contado uma anedota, uma história,
Mas não, parecia que só rezava
Que dormia num catre,
numa cela minimalista de parede branca,
Nem um quadro torto, nem um riscado na parede.
Como se só vivesse de abstinências e abdicações sacras
Fosse um monge budista, niilista, nudista, naturalista,
tivesse alcançado o Nirvana.
E em sua carne, as marcas do estigma.
As chagas de um escolhido.

Tiraram-lhe a mortalidade dos homens
As manchas, os caminhos errados, as faltas de virtude.
Esqueceram dos pecados banais,
capitais, de pequena monta,
Uma mentirinha aqui, outra acolá.
Nenhuma inveja boa, a se anotar no caderno de maldades.
A beatificação dos hipócritas do dia,
Bendita, nos obituários do jornal.

que no dia da minha morte,
Não me tenham Santa,
Fui bruxa, feiticeira, vadia, mundana, cigana.
Nem sequer, reverenciem minhas qualidades,
Nem tampouco listem os meus defeitos.
Só que me façam de lembrança,
Do tamanho que fui, nem um centímetro a mais, ou a menos.
Talvez, alguém que conheceu minha alma,
Possa lhes falar dos meus medos e sonhos
Do que me fazia rir ou chorar
E, de tudo o mais, que me fez humana,
Mortal, de ossos, cinzas e pó.

02.Ago.20

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta, escritora… E, claro, Livre Pensadora!

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