Escrevo qualquer traço
Só pra me lembrar do engasgo dos dedos,
Dizer que ainda vivo.
Não sei o quanto o papel mais suporta.
Um poema, uma carta ou a justificativa barata para mais um suicídio ridículo.
Se pelo menos, o céu estivesse azul
Minha casa fosse térrea
Tentaria esconder meu desassossego
Debaixo do tapete da sala.
Trancaria o monstro no armário,
Esconderia o espelho.
É difícil viver o desajuste das horas
A inadequação estendida, entre uma madrugada e outra.
Os corredores daqui, estão nus
Nenhuma foto, nenhuma ligadura uterina.
A tinta vermelha,
Meu sangue escorrendo, lentamente nessas linhas
São tantas as coisas perdidas.
Não tenho asas, nem uma roupa de herói.
No 15º andar, a cidade é pequena
O vento, faz dançar os vultos na janela.
Não é do corpo vazio, que me desespero
É o estar cheio de tudo.
O entardecer sufoca os sentidos
Já pressinto a angústia de mais uma noite
Todas as falas da parede com estigmas de adeus.
Talvez, o papel ainda me salve,
Escolha falar de amor.
Jul 2019