Os que acabaram de morrer não descansam fácil nas covas, precisam ainda contar a história de suas mortes, nem os indigentes anônimos que vagueiam pelas escuras esquinas do bairro, tampouco, os injustiçados presos em arapucas militares armadas defronte aos quartéis e nas rampas do castelo do rei salobro.
A todos, deveriam ter-lhes dado os nomes e o devido respeito, todos mereciam o perdão faraônico, o salvo conduto ao desfeito paraíso perfeito, lhes cabendo a correta conduta cívica e divina, a defesa jurídica e os olhos da verdade.
A certidão de nascimento com os genitores, o cuidado e o afeto dos pais e dos dias, o pão à mesa ou algo quente a aplacar as entranhas do corpo, talvez, a lápide branca e cristalina e o escolhido epitáfio do fim da linha, tudo, relegado e esquecido ao peso da coberta da terra.
Eram os mortos, os esquecidos de amanhã
Eram os mortos, os que jaziam no fim de todos os ciclos e círculos
O que foi retundo e redondo e pó.
Se eu for antes, lhe peço o favor, não me siga os pés.
As crianças ainda vão precisar de você.

Perfeito!
Nada mais filosófico e poético do que a morte. Sem morte, não há vida. A morte é uma consequência da vida. Fugir da morte é fugir da vida.
Um belo texto. Não serei raso a dizer, mas Lu Genez é a melhor escritora neste país tão carente, nesta época, de bons escritores, sem papas na língua, e com uma qualidade literária ímpar. Parabéns.