Lula: “Ultio Mea Est”

Antes de qualquer coisa: o ex-presidente e ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva não proferiu a frase. Traduzida do latim, a expressão significa “A vingança é minha”.

Pincei a frase de um episódio da série Família Dinossauros (A Grande Sorte de Dino), no qual Dino da Silva Sauro processa seu patrão, o ‘amável’ Sr. Richfield, que o demitira em decorrência de um acidente de trabalho, e, por causa disso, incapacitado para cumprir sua tarefa de derrubar árvores. No tribunal, onde o caso está sendo julgado, vê-se o escudo da corte, o qual ostenta o lema irreverente. O juiz D.X Machina (trocadilho para Deus surgido da máquina) decide a favor de Dino. O episódio dá uma cutucada nos princípios socialistas, nos quais boas intenções geralmente redundam em desastre.

Sempre gostei de trocadilhos, principalmente aqueles irreverentes, que induzem à reflexão. Afinal de contas, o que é a justiça aplicada por meio da sentença de um juiz (Deus, de certa forma) senão um ato de vingança? Contudo, não é sobre o direito que quero falar. Quero falar sobre a vingança propriamente dita. No caso do ex-presidiário, tal sentimento está na fase do desejo, e já faz tempo. Entretanto, para que esse desejo passe à ação é preciso percorrer um caminho cheio de curvas perigosas.

Diz o ditado que a vingança é um prato que se come frio. Sabe-se que esse sentimento é um dos mais asquerosos dos seres humanos. A vingança primeiro destrói o homem por dentro, para só depois destruí-lo por fora. Até mesmo Deus (aquele, do Velho Testamento) já se vingou algumas vezes, ficando aí a grande dúvida se Ele fez o homem a sua imagem e semelhança, ou se foi o inverso. A História é farta em casos, reais ou fictícios, em que a vingança é o ingrediente principal. E, mais uma vez, ela entra em cena, é claro, disfarçada de justiça. Lula, o injustiçado, clama por ela como um sedento implora por um copo d’água no meio do deserto.

Livrado da prisão por uma série manobras de seus advogados, aliados e seguidores junto ao Supremo Tribunal Federal, onde tem supremos amigos, os quais, fazendo uso dos mais variados argumentos jurídicos, inclusive alegadas falhas processuais, revogaram, em 07 de Novembro de 2019, para horror dos brasileiros, a possibilidade da prisão em segunda instância:

“O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira (7) derrubar a possibilidade de prisão de condenados em segunda instância, alterando um entendimento adotado desde 2016 (…)”.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/11/08/entenda-a-decisao-do-supremo-que-derrubou-prisao-apos-condenacao-em-segunda-instancia.ghtml

A decisão da Suprema Corte foi, na verdade, um cavalo-de-pau jurídico que já entrou para a história do direito, ato contínuo, para a do Brasil, tal foi a polêmica levantada. A decisão do STF foi só mais uma entre as muitas responsáveis pelo alto desgaste da instituição junto a opinião pública, uma vez que as portas das prisões se abriram para devolver à liberdade os réus da Operação Lava Jato, inclusive o mais célebre deles: Lula. Traficantes de drogas, assassinos e outros criminosos de alta periculosidade também se beneficiaram da suprema bondade da Suprema Corte. Tecnicamente, Lula não foi inocentado de seus crimes. Por outro lado, todos os processos que o levaram à prisão, praticamente terão de recomeçar do zero. Enquanto isso, ele está livre, leve e solto para levar seu messianismo sindico-populista-protoditatorial aos quatro cantos do país. Lamentemos, mas acompanhemos com lupa os passos do ex-presidente que já se comparou a Jesus Cristo.

Lula lembra um vilão de desenho animado: é vaidoso, fanfarrão, contraditório, às vezes engraçado, às vezes paternal, mas sempre cheio de planos infalíveis, os quais, para nossa felicidade, dão errado, graças a seus diletos seguidores, protegidos, aliados, filhos e sócios. Por outro lado, há que se reconhecer que o ex-presidente é um obstinado – ele acredita demais em si próprio. Além do mais, seu carisma encanta um séquito que nunca olha além daquilo que está acostumado a ver e ouvir esse messias etílico e autoritário. Lula, a exemplo de uma série de líderes tragicômicos atuais e passados, é bom vendedor de suas ideias; é do tipo que vende peixe podre, terrenos na Lua e casa pegando fogo com desenvoltura e nenhum constrangimento. Os “clientes” nunca reclamam, e até voltam para comprar mais.

O ex-sindicalista é o elefante que conhece a própria força, embora saiba que ela já não é mais a mesma. Ainda assim, não se seve ignorar que Lula é figura importante no cenário político brasileiro, haja vista que seu rebanho ainda é bastante numeroso. Mesmo preso, ele nunca deixou de fazer articulações para voltar ao poder. Entretanto, novos atores foram surgindo no horizonte, atrapalhando seus planos. Após seu livramento da prisão, ele não deseja apenas voltar a ocupar o Palácio do Alvorada. Lula quer vingança.

O ex-presidiário costuma dizer que, se caso volte ao poder, não haverá revanchismo contra aqueles que, direta ou indiretamente, transformaram em escombros o sonho de hegemonia política presa a sua ‘doutrina’, que, a médio e longo prazo transformaria o Brasil em uma aberração semelhante a Cuba, Venezuela, republiqueta africanas e ditaduras asiáticas. Lula nunca escondeu sua admiração a regimes de força. Ele sabe que os déspotas que comandam (ou comandaram) esses países fazem as coisas acontecerem de modo vertical, de cima para baixo, e sem oposição. Na verdade, ele quase chegou lá.

O primeiro sinal de que seus planos dariam errado foi o escândalo do mensalão, em 2005. Logo depois eclodiram uma série de outros escândalos, os quais, combinados com uma crise econômica internacional e uma série de burradas cometidas por sua lugar-tenente Dilma Rousseff, que levaram o Brasil a uma recessão e altos índices de desemprego. A “presidenta” sofreu um impeachment na esteira de uma manobra contábil denominada pedaladas fiscais. Dilma, também conhecida pelo trocadilho de “presidanta” (presidenta + anta), foi posta para fora do Palácio do Alvorada na metade de seu segundo mandado. Pouco tempo depois, seu chefe foi condenado à prisão. O sonho de Lula teve que entrar em hibernação.

É fato: Lula está de volta – e está em campanha aberta. Ele está viajando pelo país, promovendo encontros com lideranças políticas, sobretudo no Nordeste, para formar os palanques que servirão como contraponto ao Presidente Jair Bolsonaro, um personagem que o establishment não consegue (ou não quer) engolir. Setores da grande imprensa, de entidades de classe, de intelectuais, formadores de opinião, entre outros, estão praticando uma espécie de esquecimento seletivo ante a extensa ficha criminal de Lula, tudo em nome de um projeto de pacificação do país, haja vista o alto grau de polarização política que foi se intensificando nos últimos anos.

Outro fator a considerar é que a esquerda perdeu o monopólio das ruas. Ela não tem (ao menos por enquanto) poder de parar o país. Ao mesmo tempo, acredita-se, que os brasileiros estão mais atentos aos fatos políticos que os afligem. Note-se que a peste chinesa ajudou a escancarar as feridas. As maquinações do ex-presidiário com vistas a seu retorno ao poder em 1º de Janeiro de 2023, mesmo que um poste seja eleito em seu lugar, exigem passos calculados. Ele sabe que não tem como se desvencilhar da pecha de ladrão, contra a qual ele nada pode fazer – ao menos por enquanto.

Na hipótese de Lula, ou seu poste, vir a ser eleito em 2022, a máquina de vingança será azeitada para um ajuste de contas travestido de justiça, que não poupará todos aqueles que chutaram o pau da sua barraca. Ao mesmo tempo, ele acelerará seu plano de controle da imprensa e da internet. Também, deverá ser levado em conta a instauração de leis que visarão, ainda que de forma dissimulada, perseguir seus opositores reais ou imaginários, além de controlar as Forças Armadas e todas as instituições da República. Ele sabe como funciona o mecanismo de assassinato de reputações, da compra de consciências, da premiação de aliados e colaboradores. Por mais absurdas que pereçam essas deduções, a simples observação dos fatos não são descabidas.

Aos 75 anos (77 em 2022), o ex-presidiário sabe que seu tempo é cada vez mais curto, e que há muita coisa em jogo. Mesmo que as pesquisas apontem seu favoritismo frente a Jair Bolsonaro, ou mesmo a uma Terceira Via mais que suspeita, um novo fracasso nas urnas cobrará um preço alto ao protoditador ou a seu fantoche. Lula sabe que, paralelo a seu insano desejo de vingança, há outro, bem mais adequado, vindo daqueles que, ou desembarcaram do seu delírio de poder absoluto disfarçado de democracia, ou jamais se renderam a seus discursos típicos de ridículos tiranos latino-americanos, inconformados com seu messianismo brancaleônico e sua impunidade: carcer est domus scelestus. *

(*) A prisão é o lar do facínora.

28/08/2021

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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