Reproduzo adiante o manuscrito de uma suicida, minha amiga Maria Helena: “Meu amado amigo Marcos, tive, bem o sabes, inúmeros amantes que desprezei. Eles adoravam: a selva negra, pura seda, entre minhas pernas loucas, os cabelos pretos, as sobrancelhas grossas, os olhos verdes, grandes, a tez nívea, os seiozinhos delicadamente assassinos. Tive algumas mulheres bonitas: também naufragaram em meu leito. Estudo, como já disse a ti várias vezes, o assédio sexual às mulheres octagenarias. Porém, a tese, o fruto esperado desse meu empenho, não floresce. A bolsa de estudos dá os últimos suspiros. Vejo-me sobre um pináculo de pedra cujo cimo é um circulo estreito onde só cabem meus pés descalços. Olho para o abismo escuro sem fim que me cerca. Tenho pavor de cair. Desnorteada, sozinha, sem dinheiro, soçobro e ouço viciferações. Apunhalam-me o espírito dores sangrentas. No cinzeiro ali a minha frente ergue-se uma montanha indigesta de cigarros. Acumula-se na pia da cozinha, gritando, a louça emporcalhada. Sei perfeitamente, amigo, que ardes de paixão pela minha alma e pelo meu corpo. Mas a tua chama física não me queima. Eu só gosto um pouco de teu espírito, não de tua carne. E conforme já dizia o poeta minúsculo: os corpos não se entendem, mas as almas, sim. E apesar de teres desejado que, unidas numa só, a minha e a tua crepitassem num amor transcendente, lamento, mas nem isso foi possível. E tu, amado, por despontares como o único ser que, embora intrépido me adorasse, nunca exigiste de mim a fornicação torpe, só tu, portanto, mereces esta carta de despedida. Minhas duas mãos juntas, nevadas, em oração, os dedos de pianista, delgados, as unhas vermelhas, seguram trinta cápsulas de barbitúricos, que darão fim a minha existência. O horror já passou. Derramo uma lagrimazinha, prova de uma certa ternura que por ti guardo em meu coração. Adeus para sempre, pobre urubu e amado amigo. Nem posso dizer-te que algum dia haveremos de nos encontrar no céu, porque, bem o sabes, sou atéia.”
Marcos Valério Murad, Araraquara, SP, é livreiro, dono da livraria e sebo Murad, no centro da cidade, escritor, e especialmente Livre Pensador!
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Bom demais.
Erudição tem isso. Orgulho em tê-lo conosco, mestre Murad