Meu Nome é 940.734.148-XX

O Estado apagou o ‘EU’. E você deixou. Você não tem mais nome. Tem número! De nome próprio a código fiscal: como o CPF se tornou a nova identidade dos brasileiros — e a senha silenciosa de um sistema que apaga o ‘eu’ em nome do controle. Um manifesto inspirado em Ayn Rand contra a burocracia que nos rastreia, numera e cala.

Durante muitos anos, minha carteira de identidade era um retângulo azul desbotado, plastificado mal e mal, com uma foto de adolescente mal-humorado e uma assinatura tremida. Lembro de tê-la perdido uma vez, aos dezessete anos, e sentir como se tivesse perdido um pedaço do corpo. Era o RG, o registro geral, aquele que nos diferenciava uns dos outros, mesmo na igualdade da república. Era o nome, o nome do pai, da mãe, o dedo impresso na tinta preta. Aquilo me dizia: você é você.

Hoje não. Hoje eu sou uma sequência de números. Nove, quatro, zero, sete, três, quatro, um, quatro, oito, oito, sete… CPF.

O tal do Cadastro de Pessoas Físicas foi criado, dizem, para organizar o pagamento de impostos, centralizar a base de contribuintes. Ajudar a Receita Federal a fazer seu trabalho, fiscalizar, cobrar, manter o Estado funcionando. Um número para facilitar a vida do fisco. No começo, ninguém ligava. O CPF era um cartão pequeno, verde, que guardávamos no fundo da carteira e só usávamos quando íamos fazer um contrato, abrir conta no banco, ou algo tão burocrático quanto uma visita ao cartório. Mas a burocracia tem uma sede antiga: ela nunca se sacia. E o Estado, uma vez sabendo seu número, nunca mais esquece de você. Hoje, o CPF é seu nome. É mais do que isso: é a sua alma.

Tente comprar um pão no mercado e recusar-se a informar o número do CPF no caixa. A atendente vai te olhar como se você tivesse cometido um crime. Em certos aplicativos, você não conclui uma compra sem digitar aquele número maldito. Tentou abrir um e-mail, cadastrar uma conta em algum serviço digital, marcar uma consulta? CPF. CPF. CPF. Você já não existe sem ele. Sua identidade está amarrada nesse cordão de controle.

Às vezes me pego tentando lembrar o número do telefone da minha mãe. Não consigo. Mas o CPF? Sai da boca mais rápido do que uma oração. E é aqui que me lembro de um livro. Cântico, de Ayn Rand. Lá, o protagonista se chama “Igualdade 7-2521”. Nomes próprios foram abolidos. O indivíduo não importa. O coletivo é tudo. Cada ser humano é uma peça sem nome numa engrenagem enorme chamada “nós”. Eles falam de si mesmos usando o plural. “Nós desejamos. Nós pensamos.” Mas nunca “eu”. “Eu” é uma heresia. E me pergunto: quando foi que deixamos de ser “eu”? Quando passamos a aceitar que nossa existência dependesse de uma sequência de algarismos? Quando foi que passamos a achar natural que um governo soubesse onde estamos, o que compramos, com quem conversamos, e nos punisse ou nos recompensasse com base nesse perfil de cidadão digital, numerado, vigiado?

É claro que o controle não começa com tanques nas ruas. Começa com um cartão. Depois, um número. Depois, a exigência de que tudo passe por esse número. Que seu rosto esteja vinculado a ele. Que sua biometria seja colhida. Que seu comportamento online esteja indexado a ele. E, aos poucos, o Estado não precisa mais te reprimir: você se reprime sozinho. Você aprende que só pode existir se obedecer aos comandos do grande sistema. Do grande “nós”.

O CPF é o novo passaporte para a obediência. Para a submissão. Um documento que, mais do que provar que você existe, prova que você está sob controle. Imagine um futuro (ou seria o presente?) em que seu CPF será suspenso por “conduta antissocial”. Você critica um político? Perde acesso à sua conta bancária. Participa de uma manifestação “não autorizada”? Bloqueio no sistema de saúde. Vota errado? Está fora do sistema de crédito. Já tentaram isso, diga-se, em nome do “bem comum”. Sempre assim: pelo bem comum se justifica a supressão de todas as liberdades.

Fui renovar meu plano de saúde e o atendente pediu, antes de qualquer coisa: CPF. Nem meu nome. Nem se eu tinha alguma doença crônica. Só o CPF. E com aquele número, ele puxou minha vida: endereço, telefone, ocupação, histórico de internações, medicamentos comprados nos últimos meses. Eu não era mais uma pessoa. Era um perfil.

A partir dali, percebi o que Ayn Rand queria dizer. Ela, tão acusada de extremismo e paranoia, talvez estivesse apenas vendo o que já era inevitável: que o coletivismo, mesmo com suas boas intenções e discursos aveludados, sempre exige o sacrifício do indivíduo. Sempre. Porque o indivíduo é incômodo. Ele pensa. Ele erra. Ele duvida. Ele não se encaixa. E sistemas que se baseiam no controle total não toleram o erro, nem a dúvida. Muito menos a liberdade.

Não me entenda mal. Não falo aqui de partidos, nem de ideologias superficiais. Falo de uma tendência muito mais profunda: o desejo de controle. E esse desejo independe da cor da bandeira ou do nome do líder. É uma pulsão totalitária que habita o coração de todo Estado inchado. De todo coletivo que se acha mais importante que a soma das pessoas que o compõem.

Hoje, resisto como posso. Recuso-me a decorar senhas vinculadas ao CPF. Dou respostas falsas em cadastros irrelevantes. Insisto em dizer meu nome inteiro, como se ele ainda tivesse algum valor simbólico diante daquela sequência de números. Mas sei que é uma batalha desigual.

E mesmo assim, escrevo. Escrevo porque talvez a única saída esteja aí: na resistência do indivíduo. No gesto pequeno, mas insistente, de dizer “eu”. De lembrar que somos únicos. Que nossos direitos não vêm do Estado, mas da nossa própria existência. Que nosso valor não está na utilidade que temos para o sistema, mas na dignidade intrínseca de sermos humanos.

A saída não é fácil. Talvez não exista uma porta, mas uma fenda. Uma rachadura. Talvez a saída seja, como em Cântico, a redescoberta da palavra “eu”. Uma palavra perigosa, como toda verdade.

Porque quando um homem diz “eu”, ele se coloca contra o mundo, mas em favor da vida. E talvez — só talvez — isso ainda baste para começar uma revolução.

O Nome Perdido (Discurso-Poema)

Não sou um número.
Sou um nome.
Eu sou sopro.
Eu sou verbo.
Sou memória de um tempo em que os olhos vinham antes das senhas.

Hoje me chamam por código,
Por traço,
Por número
CPF carimbado na testa,
Nos lábios,
No meu login.

E o nome da minha mãe?
Mal não lembro.
Mas meu número?
Escorre da boca como uma oração.
Como uma prisão.

Ah, Brasil, quando foi que trcou o nome por um registro?
Quando deixou de ser alma viva para ser dado estatístico?

Tudo começou com um cartãozinho verde,
Pequeno, inofensivo.
E agora,
É a chave-mestra da tua cela.

CPF para comprar pão.
CPF para adoecer.
CPF para viver.
CPF para morrer.

E eu?
Onde fui parar?

Em “Cântico”, chamavam o homem por um número.
Igualdade 7-2521.
Ele não sabia dizer “eu”.
Não podia.

Mas um dia, a palavra caiu do céu,
Como raio em pedra seca.
E ele disse.
Disse: EU.
E o mundo tremeu.
Pois dizer “eu”, é romper correntes.
É um crime em tempos de obediência.
É erguer-se num mar de “nós”.

Eu sou.
Não porque um Estado permite.
Mas porque um sopro, um risco, um instante, me fez ser.

O Estado não me criou.
Não me nomeou.
Não me contém.

Eu venho antes.
Eu vou além.
Eu sou homem.
Eu sou mulher.
Eu sou gente.

E por isso recuso.
Eu recuso o número que silencia
Eu recuso o controle que finge se importar.
Eu recuso o conforto do cativeiro.

Porque liberdade não é um aplicativo.
Não é uma senha.
Não é um QR Code.

Liberdade é lembrar seu próprio nome no escuro.
É dizer “eu” mesmo que ninguém ouça.
É ser mesmo quando querem,
É que você funcione.

Então eu gravo, em mim: eu não sou 940.734.148-87
Eu sou o nome que minha mãe gritou.
Eu sou o olhar que sonhou alto.
Eu sou o EU que ainda resiste.

E enquanto houver poesia, haverá saída.

21/06/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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Genecy
Genecy
22/06/2025 21:46

Hoje tive que expor o número do meu CPF ao menos umas três vezes. E nem precisava. A verdade é que ja estou condicionado a revelar essa minha intimidade numérica, seja para uma pessoa que nunca vi na vida, seja para uma máquina, um aplicativo — qualquer coisa que precise saber que eu existo mesmo, para que eu compre, pague, reclame, requeira…
De fato, cada vez mais somos apenas um número sob controle de empresas, instituições e, claro, o famigerado Estado. Em outras palavras, o ente que deveria trabalhar para o portador do CPF, na verdade conquistou o poder sobre ele.
Outro detalhe (não tratado na matéria): quando o número do CPF está vinculado ao número do IP do seu computador, celular, ou qualquer mecanismo que em que exista o Internet Protocol Adress, então, meu amigo, você está FODIDO! Aliás, fodidos estamos todos.
E, para finalizar, com a proliferação das câmeras de reconhecimento facial, não haverá mais refúgio: você será encontrado.
Ayn Rand nunca esteve tão certa.

Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
22/06/2025 18:49

É isso, meu amigo, nada de Drácula, criatura de Frankenstein, Lobisomem, Múmia, Jason, Freddy, Meiers e genéricos, o verdadeiro terror está no cerne do que você escreveu, a perda da nossa individualidade. 1984.
Texto poderoso e encontra respaldo em textos bíblicos. O deus deste mundo operando e tendo nós, humanos, como sócios minoritários, caminhando a passos largos para o abismo sem perceber. Mas você está percebendo.

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