Well… Aqui estou mais uma vez escrevendo sobre David Bowie. Por mais que pareça repetitivo ou um tanto chato, não é um problema meu. É dele. O artista multitarefas, ou, quem sabe, um Homem da Renascença do século 20 com reflexos no 21, que teima em permanecer presente na cultura ocidental de maneira fulgurante e inapagável partiu desta para as estrelas em 10 de janeiro de 2016, deixando para trás todo um conjunto de obras que estão sendo reanalisadas e reavaliadas, colocando-as em seus devidos tamanhos.
Desde aquela fatídica data, Bowie recebeu ‘trocentas’ homenagens, nos mais diversos meios, nas mais diversas formas, e nos mais diversos lugares. Uma delas veio na forma de um documentário: Moonage Daydream, escrito, dirigido e produzido por Brett Morgen, lançado oficialmente no Festival de Cannes em 2022, sobre o qual publiquei um texto — muito suspeito, admito — neste BarataVerso. Sorry, boys & girls, mas não deu para ser imparcial. Desta vez, vou falar de Moonage Daydream, a trilha sonora, tão impressionante quanto o documentário que lhe deu origem.
Todos aqueles que tem no cinema um importante referencial de vida, especialmente no que se refere a filmes marcantes, busca nas trilhas sonoras uma espécie de continuidade das emoções captadas da grande tela. Mais uma vez, essa sensação se repete na trilha sonora de Moonage Daydream, disponibilizada em streaming, bem como nos ‘antiquados’ CD e LP, além do DVD, obviamente.
Tal qual no documentário, a trilha sonora não obedece a uma ordem cronológica, tampouco se divide em fases, e muito menos se prende à discografia oficial de Bowie. Arrisco-me a dizer que a trilha sonora de Moonage Daydream ganhou vida própria, em razão da arrumação da playlist, o que dá ao ouvinte uma sensação de imersão e aquela incapacidade de pular faixas, procurando os grandes hits do cantor. Não é assim que funciona. Evidentemente, a trilha sonora segue a linha do documentário, senão o resultado seria uma bagunça total, como já visto em uma infinidade de trilhas sonoras.
Moonage Daydream é algo como uma colagem sonora, uma reunião de músicas editadas/remixadas, excertos de citações e efeitos sonoros, sem intervalos entre as faixas, com acréscimos na forma de vinhetas, no entanto, sem descaracterizar nenhum dos clássicos bowieanos. Até mesmo os medleys (que em outros trabalhos, salvo exceções, sempre procuro evitar ouvir) ficaram realmente coesos, perfeitos.
Da mesma forma que no documentário, a trilha sonora evidentemente não agradou a todo mundo, especialmente aos críticos. Ainda bem que foi assim. Na verdade, todos queriam muito mais, inclusive os podres do artista. Essa nunca foi a intenção de Brett Morgen. Caso contrário, teríamos uma versão mundo-cão de Bowie, o que de certa forma afetaria a integridade da trilha sonora, assim presumo.
Os fãs e fanzocas de David Bowie certamente vão reclamar a ausência de um ou outro hit, mesmo sabendo que a trilha sonora não é um ‘the greatest hits’ do artista. No que me apetece, a trilha sonora está perfeita, principalmente por ter a assinatura do produtor Tony Visconti, figura indissociável da trajetória do Camaleão.
Agora, escolha a sua mídia favorita, ponha os fones de ouvido, esqueça o mundo ao redor e mergulhe no seu devaneio lunar.
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.
