Não tenha pressa de morrer, disse um padre com um crucifixo nas mãos, que eram lisas e limpas, e que abençoavam as tristezas dos pobres e amaldiçoavam a alegria dos ricos.
Não tenha pressa de viver, disse uma puta com as calcinhas arriadas, que tinha mãos de unhas sujas, e que batiam punhetas aos ricos e arrancavam dinheiro dos pobres.
Não tenha pressa de vencer, disse um editor digitando no computador, com as mãos brilhantes e coloridas, e que assinavam cheques a políticos, e me apontavam o caminho da rua.
Não tenha pressa de gozar, disse a vagabunda com a saia levantada, que com uma mão mexia no meu pau, e com a outra acariciava a cabeça de um cachorro doente ao lado da cama.
Não tenha pressa de pensar, disse um pedreiro segurando sua ferramenta com a mão direita, e enquanto que com a esquerda derrubava a parede que eu acabara de construir.
Não tenha pressa de comer, disse outra piranha, que tinha mãos quentes, e que usava uma aliança de casamento, e um anel de brilhantes dado por outro amante.
Não tenha pressa de respirar, disse um médico, que tinha mãos pequenas e sem sangue, e que seguravam um bisturi com firmeza, e tremiam pela ausência de droga.
Não tenha pressa de sorrir, disse mais outra vadia, com as mãos enormes e cheias de calos, e que pedia esmolas com uma mão, e com a outra dava de comer a um mendigo.
Não tenha pressa de correr, disse um policial com uma arma nas mãos, que eram rudes e secas, e que batiam na cara do moleque de rua e apanhavam o lucro do traficante da esquina.
Não tenha pressa de chorar, disse uma megera, que tinha mãos sadias e cuidadas, e que me batia com uma mão, e com a outra acariciava a cabeça do meu irmão que ria de mim.
Não tenha pressa de matar, disse um inseto com seis patas e um par de antenas, e que me acenava com duas delas, e com outras duas segurava uma gilete, sobrando ainda duas.
Não tenha pressa de chupar, disse uma putinha de dezesseis de mãos pequenas, e que me batia uma punheta, e puxava os cabelos dos três filhos sem pai que pediam chupeta.
Não tenha pressa de beber, disse um escritor, que tinha mãos lisas e tratadas, e que seguravam seu mais recente fracasso literário, e que brandia palavras de ordem contra o capitalismo.
Não tenha pressa de trair, disse uma crente, que tinha mãos horrorosas e preguiçosas, e que enfiava os dedos nos meus olhos, e jurava que tinha por mim o mesmo desejo cristão.
Não tenha pressa de sofrer, disse um filho com uma bandeira nas mãos, que eram belas e sedosas, e que pregava a riqueza dos pobres e a pobreza dos ricos.
Não tenha pressa de ofender, disse uma cadela de olhos inchados, que tinha nas mãos adornos, e que moíam carne fresca e a ponta dos dedos, enquanto se masturbava.
Não tenha pressa de esquecer, disse o professor, que tinha mãos vazias e belicosas, que esmagavam a história, e erguia o dedo a ditadores por conta de ideologia.
Não tenha pressa de escrever, disseram todos eles, que tinham mãos aleijadas, e que as juntavam numa inútil oração, e que batiam palmas enquanto o coveiro fechava o meu caixão.
20/11/2018


Pornomatopéias
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 5ª.
Editora: BarataVerso
Páginas: 222
Tamanho: 20× 20 × 1,50 cm
Peso: 0,550
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
