Os Coveiros do Rock (Ou: “Foda-se o Rock e Foda-se a Poesia! Vou Cagar!)

Acordei com uma caganeira desgraçada… Mas por força da imposição alheia, tenho que falar que acordei com problemas de intestino. Então caguei, ou seja, obrei, defequei. A ditadura do politicamente correto não permite que eu fale, mas como tomei porrada de milico com 15 anos de idade, no auge da ditadura militar eu mando esses bostas tomarem nos seus cus. Enquanto isso, o underground corteja o luxo e o luxo corteja o underground. Não sou de pedra, nem peço desculpas ou peço perdão. Não sou filho de ninguém, apenas um poeta filho-da-puta que acredita em poesia. Poesia é merda! Não sinto falta de deuses, nem de demônios, apenas falta de dinheiro e de reconhecimento do meu esforço de 40 anos escrevendo merdas que ninguém lê. Poesia é merda! Ah, conhece o novo livro do Coelho? A nova musica do Caetano? Ou a nova peça do Chico? Conhece, claro que conhece! Sabe mesmo o que é ser underground? Não sabe. Claro que não! Não brinque de ser pobre. Não tenho absolutamente nada contra ter dinheiro, mas tenho muito contra a hipocrisia e o fingimento. Não tenha inveja dos pobres. Eu não tenho! Bancar o underground morando em cobertura do Leblon ou em Pinheiros é fácil, camaradas. O difícil é ser poeta morando em Guaianases. Ser do contra quando suas contas estão pagas é fácil. Ser revolucionário em rede nacional e internacional social é fácil. Difícil é ser poeta no meio de um trem abarrotado de gente preocupada com o futebol e com igreja. Morar no centro da cidade e posar de excêntrico, usando calças rasgadas e camiseta furada é muito fácil. Difícil é morar na periferia e só ter isso pra vestir. Um dia me disseram, sobre meu livrinho mimeografado, que não acreditavam em arte pobre e quem disse isso me mandou seu livro impresso em papel couchê. E agora escuto do “Professor”, do “Mestre”, trinta anos depois quase a mesma coisa. A periferia não conhecia fanzine, conhecia jornazinho mesmo. E eu continuo não fazendo fanzine, continuo fazendo jornalzinho. O “Príncipe” não conhece minha história e eu não conheço a dele. Empatamos, pois. Fui testemunha do incêndio do Joelma. E também do Andrauss. Tinha uma loja de departamentos embaixo. Não sou andrógino nem caracol, sou Barata. E não rastejo, caminho desse jeito. Não sou técnico em nada, conheço apenas a madrugada. Moro na periferia, mas não defendo nenhuma zona. Nenhum ponto cardeal me consola. Nenhuma zona, nem a de conforto – Essa mesmo que não me conforta. A única zona que conheço bem e defendo é a do meretrício. Não me finjo de artista para comer o coveiro. Não morro e não pago enterro de ninguém. E por falar nisso há muito tempo tinha parado de pensar em morte, mas ultimamente tenho pensado em saltar, em pular, em cortar e em atirar. Atear fogo. Logo, pouca gente irá lembrar, mesmo. A palavra “saudade” foi criada para isso mesmo, para que deixemos ir, deixemos morrer sem sentir culpa. A “saudade” cumpre o papel de consolador e absolvedor das culpas. Não quero um séquito, nenhuma legião de puxassacos nem de chupabolas, apenas respeito e reconhecimento. Ter um trabalho reconhecido por sua qualidade consiste basicamente em duas coisas: 1 – Fazer o que a gente gosta e gostar daquilo que a gente faz – Isso se chama honestidade. 2 – Não deixar a vaidade acima da verdade e da arte – E isso também se chama honestidade. Não brinco de poetar, poesia não é brinquedo. Poesia não é musica e musica nunca será poesia. Música é matemática. Poesia? Poesia é mágica, mate-mágica. Ato mágico de combinar letras e palavras e depois brincar de escorregador com os sentimentos próprios e os alheios. Qualquer poeta é uma criança. Não pela inocência, mas pela ingenuidade. Criança pela crença. Sou também… Mas cansado, doente e triste. Criei muitas coisas. Criei poesias, cachorros, galinhas, esposas e filhos. As poesias estão mortas, os cachorros me morderam e morreram e o resto não lembra de nada. Ao bem a memória é curta, ao mal é eterna. Durante muito tempo tentei matar o poeta, diariamente com doses de morfina, mas o desgraçado não morreu. Infeliz! Agora quero saltar do mundo com ele andando, porque assim a queda pode ser mortal. Quero saltar, pular do mundo sem que ele perceba minha falta, embora saiba que ele nunca perceberá. Filosofia de John Rambo:”Ser dispensável não é não ser convidado para uma festa, mas ser convidado, não ir e ninguém notar sua falta”. Queria mesmo ter estudado algo importante, odontologia, medicina, qualquer coisa que pudesse contribuir para diminuir as dores das pessoas, mas o que fiz foi abraçar uma “ciência” que não causa, mas que mostra às pessoas suas dores. Já que era para ser assim, deveria então ter sido soldado, polícia ou mesmo assassino profissional, ao menos ganharia algum dinheiro e não teria tempo de pensar nas dores do mundo. As Dores do Mundo… Maldito Schopenhauer! Maldito Rock’n’Roll. Ah, poderia ao menos ter sido musico ou cantor, ao menos teria a chance de ser escutado. Ninguém escuta poetas, muito menos ouve estrelas. Poetas nunca estão na Televisão a não ser quando estão envolvidos em algo dantesco. Não sou poeta. Poetas são aqueles moleques mimados e putinhas recém chegadas de Londres. Os trens da CPTM não carregam poetas, carregam apenas angustias em seus trilhos de aço, movidos por maquinistas automáticos que alertam para descerem pela porta da direita, cuidado com o vão da plataforma. Joguei minha poesia nos trilhos do trem e sorri ao vê-la espatifada e rasgada entre os dormentes. Está morta! Eu a matei!. O Rock também está morto, mas não fui eu quem o matou, mas ele agora apodrece no meio das ruas e os coveiros chegam para enterrá-lo com suas palavras de ordem, seu fanatismo e sua doença. Não acredito mais nas artes, nem nos artistas. Quem matou o Rock? Já foi ao espelho hoje? Minha amiga chilena, cujo pai foi amigo de Neruda, disse que “a poesia não morre, mas o poeta precisa sobreviver.” Sobreviver não é viver e eu não quero sobras, quero inteiro. Ademais, não acredito em ninguém com mais de dez. Sófocles disse que há algo de ameaçador num silêncio prolongado. Acho que qualquer silêncio é muito ameaçador, pois é nele que há a verdade. E o que me resta agora é apenas cortar o cabelo e a barba e depois abrir o gás deixando uma placa do lado de fora da porta: “não acenda fósforos.” O bebê está dormindo, façam silêncio que o Rock está morto! Então que foda-se o Rock e foda-se a Poesia! Vou cagar!

17/09/2012

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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