O cigarro queima no cinzeiro, pego com meus dedos amarelos
A nicotina mancha as pontas e os torna um tanto sujos e belos
Olho com tristeza a esses dedos que tantos afagos forneceram
Que em tantas vulvas úmidas entraram e que dele esqueceram
E penso que não fosse por esses meus dedos com unhas roídas
Não teria a pecha de maldito e centenas de poesias destruídas.
Ah, esses meus dedos longos, que não me livraram da traição
E nem de estar agora lembrando de toda a minha contradição
Lembro de um par, indicador e médio, prediletos das vaginas
De clitóris insaciáveis e de cus melados das plebeias e reginas
Ainda a tempo de apanhar outro cigarro com dedos tremendo
Lamentando a mim mesmo a falta de sorte que estou sofrendo.
Tenho esses dedos rápidos e extensos, as mãos de um pianista
Profetizava a professora de musica, gostosa feito a uma artista
Mas era por ela que meus dedos masturbavam o caralho duro
Debaixo da carteira da escola, um tanto tesudo outro inseguro
Sabendo que jamais seria musico, apenas punheteiro e poeta
E que são as putas e os dedos os maiores enganos do profeta.
Busco agora outro cigarro, na carteira resta o único somente
E concluo que das profecias alheias sou o ultimo sobrevivente
Justo eu, aquele que era fraco e atormentado por seus medos
Resto a contar a história distorcida de meus próprios segredos
Declarando que a única pessoa autorizada a falar sobre mim
É aquela que receber uma transfusão de sangue, poesia e rim.
Mãos e pés, vinte dedos eu tenho, e no meu maço vinte cigarros
E apenas quatro seus desejos e quatro sãos as rodas do seu carro
Minhas pernas me levam até o meio das delas, braços na cintura
Então, prefiro amassar as bundas das cadelas a riscar sua pintura
E se vale muito mais que o que tenho de carne e osso o seu aço
Troque sua fumaça de gasolina fedida pelo calor do meu abraço.
É o ultimo aceso, pontas dos dedos queimados e as cicatrizes
Dos cigarros apagados no meu joelho por vorazes meretrizes
A fumaça formando uma nuvem redonda sobre minha cabeça
Preciso comprar cigarros antes que o mundo todo desapareça
Ainda é tempo de por meus dedos no rabo de uma vagabunda
E chorar de saudades depois de um outro grande pé-na-bunda.
5/04/2015


Memórias Arrependidas de Um Poeta Sem Pudor
(Antologia Poética, de 1978 a 2025)
Barata Cichetto
Gênero: Poesia
Ano: 2025
Edição: 4ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 876
Impressão: Papel Pólen 80g
Capa: Dura
Tamanho: 16 × 23 × 5,2 cm
Peso: 1,50
Brindes Incluídos:
2 Marca-páginas da BarataVerso;
1 Marca-página BarataVerso em Couro;
2 Adesivos do BarataVerso;
1 Sobrecapa
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
