Pesadelo Mortal

Há um ano tenho pesadelos diários. São horrorosos, tenebrosos, tensos. E o pior, eles só começam quando acordo, pois a noite, passei a tomar muito álcool e remédios para dormir e tentar fugir desses pesadelos. Nesses pesadelos medonhos, as pessoas não têm bocas nem nariz, mas uma faixa de pano no rosto. Não há sorrisos nem dentes à mostra, então conseguir identificá-las é quase impossível. E como não tem bocas nem dentes, elas não sorriem. E possivelmente respiram com muita dificuldade. Mas, tem horas que, dentro desse pesadelo eu penso: Ah, mas elas ainda tem olhos e ouvidos, podem ver e ouvir, então vou mostrar a elas, gritar para elas que estão sendo encaminhadas ao precipício. E faço isso. Mas não adianta, parece que aqueles pedaços de pano que são obrigadas a usar lhes deixou surdas e cegas também. E elas nem me parecem mais seres humanos. Elas, essas pessoas, caminham feito robôs sem alma, como seres sem cérebro, conduzidos ao fim da espécie.

Há um ano tenho esse pesadelo recorrente, e sei de outras pessoas que também o tem, e tanto quanto eu, elas sabem que não é um pesadelo, que jamais acordaremos e as coisas estarão do jeito que eram. Há apenas um ano. E ainda penso que em tão pouco tempo, fizeram a humanidade regredir cerca de cem anos. As outras, as que caminham para a auto extinção não sabem de nada, pois acreditam apenas no seu próprio medo. E quem segue apenas o medo, jamais irá a lugar nenhum. E nem deixará ninguém ir.

Há um ano, apenas um ano, apesar de tabagista, não tinha problema algum de saúde, pois sempre caminhei muito, e gostava de ir a praças e parques, escrever, fumar e pensar. Dentro deste pesadelo, sou considerado um criminoso. Um criminoso que adoeceu, por depressão, colesterol alto e especialmente um desejo suicida que aumenta dia após dia.

Há um ano eu ainda escrevia poesia, mas não há mais poesia dentro de mim, e não há poesia aos que ficam trancados dentro de casa, prisioneiros voluntários, com suas máscaras e programas de TV. Roubaram até a poesia, além do desejo de lutar. Nesse pesadelo não há lugar para mais nada. Apenas morte.

Há um ano tenho pesadelos diurnos, e neles a sordidez dos ditadores que transformaram apenas mais uma das milhares de doenças com que a humanidade se defrontou desde sempre, numa guerra por poder, por dominação total. O mundo não aprendeu com história, e assim, e assim caminhamos ao holocausto, que desta feita não será apenas a um povo, mas a todos os povos da terra.

Há um ano tento não pensar, não me debater contra essa massa de pessoas que já estão mortas e ainda não perceberam, pois aquele que aceita, e até implora, para que tiranos as tutelem, morrem nesse momento. Eu sofro por elas, e elas mesmo assim me odeiam, me chamam de genocida, de sociopata; dizem que eu sou o culpado, não aqueles que os apavoram; me mostram fotos de mortos e doentes, e sequer se olham no espelho para enxergarem suas faces enrugadas pelo pavor.

Há um ano, este pesadelo roubou tudo o que tinha, e tudo o que eu era. Até a capacidade de sonhar e o desejo de viver. Um dia todos morrem, mesmo.

Enfim, no final desse pesadelo, estaremos mesmo todos mortos. Mesmo que vivos!

28/02/2021

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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