Caro Bob, tua pergunta, do então jovem Zimmerman, era de quantas estradas precisaria andar um homem, até ser considerado um. E hoje não sei a resposta, mas minha aposta é que não é a estrada que faz um homem, apenas a caminhada.
E sobre as pombas e as bombas, caríssimo Robert, o que podemos responder agora cinquenta e tantos anos depois? A pomba já pode pousar na areia? A bomba já não destrói e incendeia?
A resposta, senhor Allen que não é Ginsberg, não está soprando com o vento, que traz apenas a cegueira na poeira, na qual foi transformada a montanha esfacelada pelo tempo.
Sobre tua pergunta sobre o tempo que demora para alguém enxergar o que não vê, e conseguir a permissão para a liberdade, me parece ser a obviedade, sem qualquer novidade, e pode até ser, sem nada de maldade, a eternidade.
Há décadas espero o soprar do vento das respostas, a brisa da verdade, mas o que me vem é apenas o ensurdecedor ribombar dos trovões da tempestade. Nada de sopro, nada de respostas, nada de brisas.
Desde quando lançastes essas perguntas, muitos ainda esperam o tal soprar, mas a ventania já varreu cidades do mapa, destroçou países inteiros, esfarelou crenças e matou esperançosos de desgosto. Seriam essas mortes aquelas necessárias para que soubéssemos quando parar?
Por fim pergunto, meu caríssimo Bob Dylan, e pergunto a mim mesmo e não a ti, se ainda fazes essas perguntas, se ainda buscas as respostas, ou se os ventos também nunca lhe alcançaram.
A resposta, meu caro Roberto, que não acoberto, não está soprando com o vento. Eu não invento. A resposta, como no dito popular do boteco da esquina é aquela que ninguém gosta, porque parece bosta, é aquela certeira, como bala perdida: assoprar no seu cangote, na sua cacunda e no rego da sua bunda: é um monte de merda que nunca afunda. E que de malícia abunda.
10/06/2024.
Soprando no Vento
Quantas estradas um homem deve percorrer
Pra poder ser chamado de homem?
Quantos oceanos uma pomba branca deve navegar
Pra poder dormir na areia?
Sim e quantas vezes as balas de canhão devem voar
Antes de serem banidas pra sempre?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento
Sim e por quantos anos uma montanha pode existir
Antes de ser lavada pelos oceanos?
Sim e por quantos anos algumas pessoas devem existir
Antes de poderem ser livres?
Sim e quantas vezes um homem pode virar a cabeça
Fingir que ele não vê
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento
Sim e quantas vezes um homem deve olhar pra cima
Antes de conseguir ver o céu?
Sim e quantos ouvidos um homem deve ter
Pra poder conseguir ouvir as pessoas chorarem?
Sim e quantas mortes serão necessárias até ele saber
Que pessoas demais morreram?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento.
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Nas muitas estradas que percorri, o vento só me trouxe perguntas para as quais ainda não consegui as respostas. Acho que a pomba branca voou, voou, e morreu na praia.
De desgosto, não de cansaço.
Não me leve a mal, Mr. Dylan, mas a culpa não é sua.
O vento só traz mesmo perguntas.