Revelação

Revelação

Aconteceu num dia escuro daqueles que choram eletricidade
Quando eu, encostado a um poste de luz, no centro da cidade
Percebi de uma senhora em minha direção olhares brilhantes
Por detrás de um par de óculos negros à desejos semelhantes.

E, era tão bela aquela estranha, que apaguei meu cigarro
Que era sem jeito falar que a amo, no meio de um pigarro
Dei dois passos, e junto a ela igual a um fantasma apareci
Esperando por lembranças de algo que agora me esqueci.

E éramos agora dois, parados numa esquina sem rua alguma
Sem saber que a direção de qualquer rua é de fato nenhuma
A não ser aquelas que olhos apontam em dia sem claridade
Pois é na escuridão que desponta o destino da humanidade.

E nós, um par parado junto àquele poste cinza de iluminação
Ficamos fitando o dia preso em nossas faces por admiração
E sem que déssemos conta do que era paixão ou casamento
Nos abraçamos sem misericórdia na sinfonia do sacramento.

E nos queríamos tanto que era quase um exercício de poder
Mas temíamos o pranto de qualquer resquício de se perder
E sem juras e nem méritos por um instante quase nos amamos
Debaixo da luz daquele poste que por testemunha chamamos.

Rabisquei ali um poema num pedaço de papel sujo de bosta
Um daqueles poemas tolos que qualquer mulher ainda gosta
Mas por mais que eu insistisse ela o afastava tremendo a mão
E mesmo eu implorando atenção a meu poema ela disse não.

Ainda pensei, que dama estranha é essa que recusa uma ode
Que mulher sem coração, que pensa que poesia não se pode
E guardei no bolso o rabisco na esperança do futuro imprevisto
Sem saber que naquela noite veria algo que jamais tinha visto.

E na esquina tinha um prédio sem placas um hotel de transição
Daqueles em que putas ganham as sentenças de sua inquisição
Cuspindo o rancor e guardando a moral num quarto de despejo
Certas que o dinheiro compra o que pode, mas mata seu desejo.

Éramos sós agora, e se a nudez do seu corpo pude vislumbrar
Os estranhos e luzidios óculos não deixariam de me alumbrar
E ao buscar os olhos invisíveis entre o par brilhante de lentes
Recebia o não, com um sorriso determinante de belos dentes.

Era dia, mas ninguém sabia, depois foi noite e ninguém soube
Nos fizemos amantes à luz, e foi maior o prazer que me coube
Mas na escuridão dos sonhos, e na clareza da madrugada fria
Conheci tudo o que havia e vi tudo aquilo que antes eu não via.

Uma eletricidade imensa fluía pelas fibras duras daquele lençol
E era tanta luz naquele corpo que poderia ofuscar ao próprio sol
Que quedei-me quase cegado por uma luz que jamais tinha visto
E naquele momento soube que é por essa luz que ainda existo.

E então foi que diante de meus olhos incrédulos houve a revelação
Que aos mais céticos eu diria sem piedade que foi minha elevação:
Eis que a dama os óculos escuros retira, e com gesto de quem nega
Revela olhos turvos opacos, do jeito que são os olhos de uma cega.

28/06/2017

Memórias Arrependidas de Um Poeta Sem Pudor
(Antologia Poética, de 1978 a 2025)
Barata Cichetto
Gênero: Poesia
Ano: 2025
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 876
Impressão: Papel Pólen 80g
Capa: Dura
Tamanho: 16 × 23 × 5,2 cm
Peso: 1,50

Brindes Incluídos:
2 Marca-páginas da BarataVerso;
1 Marca-página BarataVerso em Couro;
2 Adesivos do BarataVerso;
1 Sobrecapa

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

2 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários
Celso Moraes F
Celso Moraes F
26/12/2024 7:47

Poema com plot twist! Errei as apostas que fiz mentalmente aqui e que só eu saberei do que se tratou. Gostei. Para ela, todo encontro é às cegas! ba-dum-tssss
Pequenas histórias que nos levam a pensar o depois do ponto final. Mas, ainda mais do que isso, o antes da palavra inicial. Como ela ficou cega? Ou terá nascido assim? Qual é a história dela? Os amantes do brega recordarão “A Desconhecida”, música de Fernando Mendes que tem uma triste história de bastidores. A mim, o título lembrou a composição homônima criada pela dupla Clodo e Clésio e interpretada pelo Raimundo Fagner. Duas obras boas com o mesmo título.

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×