“Let me tell you baby ’bout the death of rock” (Me deixa te contar baby, sobre a morte do rock)
(“Rock Is Dead” – The Doors – 1969)
A maior parte dos historiadores situa o nascimento do Rock no ano de 1954. As datas mais célebres se situam entre Abril e Julho desse ano. A primeira, 12 de Abril (data em que 60 anos depois escrevo esse texto), que marca a gravação de “Rock Around The Clock”, por Bill Halley And His Comets, lançado um mês depois. A segunda, 5 de Julho, com a gravação de “That’s All Night”, por Elvis Presley. Mas embora esse seja o ano considerado como oficial, o termo começou a ser usado ainda em 1951, pelo disc jockey americano Allan Freed, com referencia ao tipo de musica que ele tocava, uma espécie de Blues urbano, que misturava uma série de outros ritmos como Rockabilly, Western Swing, Bluegrass, Blues, Jazz, Boogie Woogie e Negro Spirituals. Freed, também conhecido como “Moondog”, trabalhava na estação de rádio WJW, em Cleveland, e foi quem organizou o primeiro grande concerto de Rock and Roll da história, o “Moondog Coronation Ball”, em 21 de Março de 1952.
Entretanto, a frase “rocking-and-rolling” (balançando e rolando, em português), uma gíria negra laica que remete a dançar ou fazer sexo, apareceu em pela primeira vez em 1922 na canção “My Man Rocks Me Com Um Steady Roll” de Trixie Smith. E mesmo antes, ainda em 1916, o termo foi usado com conotação religiosa em “The Camp Meeting Jubilee”, gravado por um quarteto masculino desconhecido.
De fato, a palavra “Rock”, que no idioma inglês é uma metáfora para “shake up”, “to disturb or to incite” (sacudir, perturbar ou incitar) tem uma longa história anterior à década de 1950, quando se estabelece o inicio da história do gênero. Em 1937, Chick Webb e Ella Fitzgerald gravaram “Rock It for Me”, que continha o verso “So won’t you satisfy my soul with the rock and roll” (Então, você não vai satisfazer a minha alma com o rock and roll.) Já o termo “Rocking” era usado por cantores negros no sul dos Estados Unidos como uma definição para o êxtase espiritual. Na década de 1940, no entanto, o termo foi usado com duplo sentido, referindo-se a dançar e ao ato sexual, como em “Good Rocking Tonight”, de Roy Brown.
Já o verbo “roll” é uma metáfora muito antiga que significava ter relações sexuais. Expressões como “They had a roll in the hay” (Eles tinham um rolo no feno) ou “I rolled her in the clover” (Eu transei com ela no trevo) já constavam de textos de escritores americanos do século XIX. Já o uso dos dois termos em conjunto era utilizado para descrever o movimento de um navio no mar, como na canção “Rock and Roll”, das Boswell Sisters, em 1934, e em “Rockin ‘Rollin’ Mama”, de Buddy Jones em 1939. O cantor country Tommy Scott se referia ao movimento de um trem na ferrovia em “Rockin e Rollin”, de 1951. Durante a guerra do Vietnã, o termo “Rock and Roll” se referia ao disparo com um fuzil, onde o soldado empunhava a arma no quadril como uma guitarra.
Mas, embora todas essas referencias anteriores a 1954 sejam válidas pelo ponto de vista de análise do termo e de análise histórica, há que se ponderar sempre, para a compreensão de qualquer movimento cultural, o contexto histórico. E só a partir daí podemos efetivamente marcar o “nascimento” de qualquer movimento. Em 1954, uma doutrina racista americana conhecida como “separate but equal” foi derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Mas isso em teoria, pois na pratica o país vivia numa era em que as tensões raciais estavam a um passo de explodir de forma mais violenta. Os negros norte-americanos protestavam contra a segregação de escolas e instalações públicas e a derrubada da doutrina racista para efeitos legais era uma tarefa difícil de concretizar na prática.
Nesse momento, entretanto, um novo gênero musical que unia elementos das músicas negras e brancas, provocou inevitáveis e fortes reações, de ambos os lados. E quando Allan Freed começou a tocar musica para uma audiência multirracial, e um ano depois criou um festival, as gravadoras compreenderam que havia um mercado formado pelo público branco para a música negra que ia além das fronteiras estilísticas do Rhythm and Blues. O preconceito aberto e as barreiras raciais não podiam barrar as forças do mercado e assim o Rock and Roll tornou-se um sucesso de um dia para outro nos Estados Unidos, provocando ondas que, primeiro atravessaram o Atlântico em direção às ilhas britânicas, e posteriormente o mundo inteiro.
Os efeitos sociais do Rock and Roll influenciaram estilos de vida, moda, atitudes e linguagem e decerto tiveram fator preponderante na mudança de mentalidade com relação aos direitos civis por todo o planeta, pois tanto brancos quanto negros gostavam do gênero, diminuindo assim resistência das mentes mais conservadoras e criando uma mentalidade de respeito às diferenças.
O Rock, e posteriormente os gêneros que dele derivaram, até certo momento, se pautou pelo respeito às diferenças humanas. E se não criou uma nova sociedade humana, ao menos transformou a existente. Estilos musicais como Soul Music, Funk, Progressivo, Punk, são apenas alguns dos filhotes que surgiram na esteira do Rock and Roll, e que, obviamente com exceções, sempre foi usado como trilha sonora de mudanças sociais.
Um dos maiores símbolos efetivos do Rock, foi justamente o que o transformou em fenômeno: o filme “Blackboard Jungle” (Sementes da Violência no Brasil) conta a história de um professor, Richard Dadier interpretado por Glenn Ford, recém-empregado em uma escola de um bairro pobre, que enfrenta a hostilidade de seus alunos, dominados por delinquentes liderados pelo estudante Gregory Miller (Sidney Poitier). O filme, dirigido por Richard Brooks, foi lançado em 1955 e despertou atos de violência nos cinemas onde foi exibido. Tudo isso embalado nos “rocks” de Bill Haley and the Comets. A curiosidade é que anos depois, em 1967, Poitier, o tal líder rebelde protagonizava um dos maiores sucessos do cinema interpretando justamente um professor às voltas com o mesmo problema, mas desta feita do outro lado, como um professor, no xaroposo “Ao Mestre Com Carinho” O rebelde agora trocava de lugar, era o mestre… A indústria do cinema percebia o poder transformador do Rock and Roll. E a enorme mina de dinheiro que ele representava, é claro.
Mas e agora, o que podemos depreender sobre o Rock após mais de sessenta anos? Realmente temos a sociedade que se começou a moldar e realizar? De fato não temos, pois apenas o Rock, como qualquer outro movimento social baseado em arte, não pode efetivamente transformar uma sociedade, infelizmente.
A arte, de muito tempo para cá, é um produto, extremamente sensível a interesses financeiros, como a própria história do Rock nos mostra desde o início. É preciso muito mais que isso. E se hoje vivemos os estertores do Rock, talvez o que estejamos ver morrer não seja apenas a morte de um gênero musical, de um movimento social, mas o nascimento de outro, muito mais forte e baseado nos mesmos interesses. Os conflitos humanos são perenes e os interesses financeiros cada dia mais fortes e poderosos. E se o Rock, um gênero de musica multirracial, um movimento social e multi-artístico não foi capaz de mudar, o que poderá?
“Nenhum de nós no Rock é motivado apenas pelo nobre desejo de compartilhar nossa sabedoria com a humanidade. Acho que faríamos outra coisa, se fosse essa a motivação básica”. — Roger Waters, Pink Floyd
Texto Publicado na 3ª edição da Revista “Gatos & Alfaces“, Maio, 2014
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
