Sergio Sampaio, o Maldito Bendito

Quando o coração de Sérgio Sampaio parou de bater, às 5 horas da manhã, do dia 15 de Maio de 1994, terminava ali uma história de erros e acertos. Aliás, mais erros do que acertos. Não só dele. O irrequieto capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, que partiu, a exemplo de tantos outros, sem dinheiro e muitos sonhos, para a cidade Rio de Janeiro, e lá tentar a sorte e o sucesso, escreveu, na verdade, uma biografia bem ao modo blues de ser, em que palavras tristes ou alegres atenuam ou acentuam a dureza da vida de quem fez de sua arte uma forma de luta contra certos padrões pré-estabelecidos, a indústria da música e, claro, contra o Sistema e tudo o mais que isso signifique, ou abranja de forma negativa.

Passados vinte anos daquela triste manhã, a obra do homem que pôs o bloco na rua para todo mundo ver, dançar, cantar junto a plenos pulmões; botar pra ferver; e se espelhar diante das ácidas e dolorosas palavras, que só falavam a verdade diante de tudo que ali estava, e que – pasmem! –, ainda teimam em existir, neste século de avanços tecnológicos em contraste com antigos fantasmas, que nunca foram embora na verdade, e que agora se valem de eufemismos politicamente corretos, marqueteiros, ativistas, sindicalistas amigos do poder, estudantes teleguiados, artistas veteranos outrora aguerridos, hoje omissos, e intelectuais chapa branca enganosamente bem-intencionados, para impor uma nova ordem, que a História e a Razão já se encarregaram de desacreditar faz tempo, mas que agora se apresenta não mais pela força de fuzis, soldados e tanques nas ruas, nem por tomadas violentas do poder. A ordem agora é reinventar a mentira como meio de sustentação política. Quem estiver dentro, tudo. Quem estiver fora, a lei.

Se aquele 15 de Maio tivesse sido apenas um dia comum na vida de Sampaio, estes dias encheriam vários balaios, ou seja, material mais que suficiente para produzir outros Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, cuja recepção, presumo, não seria das mais amáveis por parte da tal elite, branca ou não, que aprendeu a dizer “sim” a tudo que signifique alguma vantagem financeira ou lugarzinho sob o guarda-chuva do Poder. Inconformista em tempo integral, Sérgio Sampaio compraria muitas brigas, uma vez que ele era mestre em transformar em música suas impressões a respeito das coisas que o incomodavam, e que, por outro lado, incomodaram a censura do regime militar. A voz contundente e inquisidora de Sérgio ainda possuem o dom de causar inquietude.

Sérgio Sampaio já nasceu pronto, mas só veio saber disso muito mais tarde. Mas, tal qual um diamante bruto, foi burilado conforme as circunstâncias de sua paupérrima condição financeira, dos muitos apertos passados na Cidade Maravilhosa, da fome, das dormidas ao relento, das sólidas amizades surgidas ao acaso, dos amores fugazes; e das desilusões, amorosas ou não. Nada mais rock and roll no mundo na MPB. Sexo, drogas e MPB – e algum rock. Influência de Raul Seixas.

A música de Sérgio Sampaio é filha legítima do Tropicalismo, tendo em Caetano Veloso um referencial importante, não sendo difícil identificar similaridades com a obra do baiano, como em Transa. Também, vale destacar outra figura muito presente nos primeiros trabalhos do capixaba: Raul Seixas, o cérebro por trás da Sociedade da Grã- Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez, o álbum anárquico inspirado em Frank Zappa, feito às escondidas, no qual Sampaio participa, e que custou a Raulzito a sua saída da CBS. Contudo, foi com Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, que Sérgio conheceu o sucesso, algo que ele perseguia desde que se entendia como compositor e cantor.

Aconteceu tudo muito rápido. A música foi lançada em compacto, no bojo do VII Festival Internacional da Canção, o qual vendeu mais de 500 mil cópias – uma verdadeira façanha –. E, no rastro desse fenômeno discográfico, vieram tudo de bom e de ruim que o showbizz pode oferecer: muito dinheiro, muita adulação. As portas fechadas de antes agora eram portões escancarados. Sampaio era enfim um superstar. Todavia, o que foi fatal para o equilíbrio emocional do novo gênio-genioso da MPB, a cobrança por novos Blocos na Rua, inclusive, diz-se, por parte de outro capixaba – Roberto Carlos – que deseja algo parecido para tocar no rádio. Em 1973 foi lançado o álbum tendo a marcha-rancho incluída e cujo título dera nome ao disco. Ao contrário do compacto, o LP vendeu muito pouco: ridículas cinco mil cópias. Sampaio não segurou o tranco. Ele tinha muito mais para mostrar, mas não tinha pressa; a indústria, sim.

Outro fator determinante para degringolar a carreira de Sérgio Sampaio foi, em muitos casos, a recepção fria por parte da crítica dita especializada da época, que não percebeu na combinação incendiária de voz, música e poesia, todo um sentimento de angústia, inconformismo, revolta, misturados à compaixão, ao escracho e fugas da realidade. Contudo, Sérgio Sampaio seguiu sua vida de modo errático, totalmente dependente de seu temperamento oscilante e a paciência volátil, fatores que o impediram de administrar sua carreira de modo mais proveitoso.

Após o “Bloco…”, Sérgio lançou Tem que Acontecer (1976) e Sinceramente (1982), ambos fracassos comerciais ainda maiores que o do primeiro disco. No entanto, nada como o tempo para revelar, em conjunto, essas três belas jóias da música brasileira, de qualidade ímpar, fazendo justiça a um homem inconformado, dono e refém de si mesmo, que, desde o começo dizia apenas queria escrever poesias e cantá-las para quem quisesse ouvir.

Em 2006, Zeca Baleiro, grande fã do capixaba, lançou a coletânea Cruel, na qual estão reunidas algumas gravações inéditas. No entanto, há mais material de Sérgio Sampaio esperando conhecer a luz. Seja como for, a obra do poeta vem sendo redescoberta pelas novas gerações, que estão dando ao boêmio o reconhecimento que lhe fora negado 40 anos atrás. Não foi por menos disso que Sérgio Sampaio botou seu bloco na rua, e que nunca fugiu da briga.

Leitura recomendada: Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, 2ª. edição revista e ampliada, por Rodrigo Moreira – Editora Muiraquitã (2003).

“Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”
Rodrigo Moreira
Editora Muiraquitã (2003).
288 Páginas

Texto publicado na 4ª edição da revista “Gatos & Alfaces“, Agosto 2014

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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