Arte Feita Com Auxílio de IA (Leonardo AI)

Sonho Besta

Um dia sonhei que era um escritor conhecido e reconhecido. Era parado nas ruas para dar autógrafos, crianças queriam brincar com minha barba e mulheres queriam a todo custo irem comigo para a cama. Eu tinha uma secretária gostosa, que entre de outras coisas, anotava meus compromissos numa agenda: entrevistas em programas de televisão, debates em faculdades, tardes de autógrafos e noites em baladas onde eu bebia de graça, rodeado por mulheres lindas.

Ai acordei, chateado, é claro, que ninguém gosta de acordar de um sonho desses. Olhei do lado da cama e minhas gatas pediram comida: não tinha; minha mulher queria café: não tinha; a barriga pedia algo sólido: não tinha. Fui ao banheiro e também não tinha creme dental, então só enxaguei a boca e fui fazer café: não tinha pó, não tinha açúcar; procurei pelos cigarros: também não tinha. Não tinha nada, apenas o sonho que eu tinha tido naquela noite.

Então, como sou de acreditar em sonhos, peguei o texto do ultimo romance que escrevi, assim, meio não querendo, e que era um calhamaço cheio de sacanagem e umas doses de sofrimento, além de uma tentativa de fazer filosofia de botequim, e fiz outra revisão. Devia ser a décima que eu fazia, e sempre mudava algo, tentando melhorar o texto. Depois, salvava o arquivo e desligava o computador.

Acontece que aquele dia seria diferente, afinal eu tinha tido um sonho, e como não tinha nada na barriga, na cabeça ou dentro de casa, resolvi segui-lo. Um dia me disseram que era bom seguir os sonhos, mas nunca entendi direito de que tipo de sonhos falavam. Mesmo assim, decidi que aquele dia seria diferente, e o mundo me agradeceria por seguir aquele meu sonho.

Ajeitei tudo, redigi uma mensagem com as melhores palavras que pude encontrar e mandei em anexo o meu fabuloso romance às três maiores editoras do país. Tinha que ser assim, se eu queria realizar aquele sonho, e ter tudo aquilo que sonhara, nada de editoras pequenas, que me dariam no máximo um convite para alguma vernissage de outro autor, e me renderia no máximo o boquete de alguma piranha de esquina. Não, eu sabia o que queria.

Quando os emails deixaram minha caixa postal, ainda fiquei um tempo esperando a resposta, olhando para a tela do computador. Foram cerca de quinze minutos, afinal um texto daqueles não demoraria mais que isso para ser disputado entre as três. E enquanto esperava, já me via exatamente como naquele sonho que eu tive, ouvia até as conversas, via as cores dos vestidos das mulheres, suas coxas, a cor da caneta que eu escrevia dedicatórias, e até o rosto dos entrevistadores de televisão.

Nunca mais tive aquele sonho, e um ano depois ainda espero todos os dias algum email chegar com o contrato de publicação do meu fabuloso romance. E ainda não tenho nada na barriga, nada para beber, e ninguém para foder. Sonho besta aquele!

02/10/2018

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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