Diário de Um Espelho
Barata Cichetto
Todas as manhãs olho meu rosto no espelho embaçado
“Olha para o outro lado, estúpido vidro amaldiçoado!”
Outro fio branco em minha barba, – caralho, que bosta!
Pois nos meus cabelos brancos o tempo fez sua aposta.
Outras rugas, o amarelado intenso e a pele inchada:
“Cale-se, espelho nojento ou lhe parto com a enxada”,
E ao olhar ao meu rosto, não acho nada engraçado
Pois não vejo graça das misérias de um desgraçado.
E não tenho sanha de maldito ou alma de artista
Não sou o sonho, mas o pesadelo de um monista
Nem augusto, nem dos anjos, porco poeta sebento
Pois das chagas sou o pus e das mágoas lazarento.
Nunca fui bom, nunca santo, nem do pau, nem do oco
Pois qualquer desgraça a mim é sempre muito pouco.
Um dia ainda quebro o espelho sem nenhuma piedade
E continuo a olhar meu rosto sem qualquer felicidade.
06/03/2013
Prompt: Baseado neste poema, escreva um conto poético. Use cerca de 1.000 palavras.
Diário de Um Espelho
Na penumbra de um quarto que nunca soube o que é a luz do dia, um homem encara seu reflexo no espelho. Não é um espelho qualquer. Não é uma simples superfície de vidro, mas um confessor cruel, um companheiro de cicatrizes e um diário de desventuras gravado em rugas e fios de cabelo branco.
A manhã começa como todas as outras: o vapor do banho embaça a imagem, mas nunca o suficiente para ocultar o que precisa ser visto. Ele seca o espelho com a manga do pijama, e ali está o rosto de sempre, um mosaico de imperfeições.
“Olha para o outro lado!” rosna, sua voz um eco áspero que o vidro devolve com indiferença. O espelho não obedece; ele nunca obedece.
Na barba, um novo fio branco reluz como um insulto. “Caralho, que bosta,” murmura, a resignação enroscada em cada sílaba. O espelho, imperturbável, reflete mais do que apenas cabelos grisalhos. Ele devolve olhares cansados, sulcos profundos ao redor da boca e olhos que já não brilham.
O tempo, um apostador silencioso, joga seus dados sobre a carne.
Os dedos tocam as rugas no rosto. Há nelas uma memória tátil, a textura áspera de noites mal dormidas e de escolhas mal feitas. “Cale-se, espelho nojento, ou lhe parto com a enxada!” Ele ameaça, mas a voz é mais súplica do que comando. O espelho não responde; ele apenas mostra.
Na imagem refletida, não há risos a se encontrar. Há algo de desgraçado naquela face, algo que nem o tempo conseguiu lapidar. Não é a tragédia de um mártir, tampouco a beleza melancólica de um artista. É a crueza de quem viveu demais sem pedir por isso.
“Não sou o sonho, mas o pesadelo de um monista,” murmura. As palavras surgem de algum canto de sua mente, um lugar onde os livros e a solidão se misturaram há muito tempo. Ele ri, um som seco, quase sem vida. A risada quebra-se antes de atingir a superfície do espelho.
Não há nada de augusto nele, e muito menos angelical. É um poeta, sim, mas um poeta sebento, porco, cujas palavras escorrem como pus de feridas abertas. Ele nunca escreveu para agradar. Escreveu porque era a única forma de não sufocar.
E o espelho sabe disso. Ele sabe de tudo.
O homem encara seu reflexo, e por um momento parece ver algo além do rosto marcado. Talvez o garoto que um dia foi, de olhos brilhantes e sonhos ambiciosos. Mas o espelho apaga essa visão tão rápido quanto a ofereceu, devolvendo-lhe apenas a realidade.
“Nunca fui bom,” ele admite, como se confessasse a um padre invisível. “Nunca santo. Nem do pau, nem do oco.” Ele pensa em todas as coisas que não foi, e são tantas que a lista preenche o vazio do quarto como uma neblina.
A dor o invade, mas não há lágrimas. As lágrimas secaram há anos, e ele aprendeu a engolir o sal. O espelho continua ali, impassível, sua moldura desgastada uma metáfora para a própria vida do homem.
“Um dia,” ele promete, “eu ainda quebro esse espelho. Sem piedade.” Mas ele sabe que isso é mentira. O espelho não é o inimigo. O inimigo vive dentro dele, espalhando suas raízes invisíveis em cada canto de sua alma.
Ele se afasta, mas não antes de lançar um último olhar à sua própria face. A imagem o segue enquanto ele sai do quarto, como uma sombra que nunca o abandona.
O espelho permanece, testemunha silenciosa de mais um dia de autoaversão. Ele aguarda o retorno do homem, sabendo que o ciclo se repetirá. Porque, no fundo, ambos estão presos. O homem precisa do espelho para odiar a si mesmo. O espelho, por sua vez, só existe para refletir esse ódio.
E assim, o diário continua, uma página refletida de cada vez.
20/11/2024


Versos Reescritos Pela Máquina (ou Merda d’Artista)
Barata Cichetto e ChatGPT
Prefácio: Santo Xavier
Gênero: Poesia / Conto
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 192
Tamanho: 16 × 23 × 1,20 cm
Peso: 0,400
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
