1.
Vai-se o dia e cai a noite, e o povo, dia e noite, está dormindo. Povo abençoado, sofrido e calado, povo adiado, povo encalhado num presente sem futuro. Sabias dos caminhos por onde passavas, o nome dos campos que lavravas, dos regos das poças que levavam água ao milho, e do gado. De sol a sol era a jornada, o trabalho era bem-vindo e era honrado.
2.
Bebias uma pinga, que era, por regra, de água baptizada, indo da água-pé, ao meio vinho e, em dias de festa, podia até ser vinho mesmo. Na maceira, o pão não tinha parança, e era mais de míngua, que de abundância. Cebolas com sal era uma merenda. Umas rachas de bacalhau salgado, às tirinhas cruas, muito poupadinhas, comiam-se com apreço e devagar.
3.
Na feira vendias, da única laranjeira, as poucas laranjas, meia dúzia de ovos, duas galinhas, e dois ou três coelhos. Prescindias do que precisavas, para pagar a décima, e a caixa escolar, comprar as batatas de semente, de Montalegre, talvez entachar aquelas chancas, cambadas, a cair de velhas, peças de roupa pela páscoa. Ou a doença, aquele pé de meia sagrado, onde não se toca para mais nada.
4.
E, mesmo assim, ias às romarias, contente e feliz, porque havia cantigas, danças e concertinas, cantares ao desafio, e raparigas, muitas raparigas, mulheres esguias, maduras e finas, de resposta pronta, às vezes cortante, a quem se atrevia a confianças apressadas, ainda não consentidas, ou subentendidas. Nossa Senhora d’Agonia, Feiras Novas, Senhora da Peneda, S. João d’Arga, Senhora do Minho.
5.
Sim. É verdade. Gabavas-te do teu rapaz que na escola era um às, e já tratava dos bois, das ovelhas e das cabras. E rebentavas de orgulho quando o abade dizia, e a professora, que aquele gaiato tinha que ir estudar. E os ecos dessas palavras ficavam a ressoar dentro de ti: tinha que ir estudar, tinha que ir estudar, tinha que ir estudar. E quantas vezes cantaste, então, para não chorares. Estudar! Olé!
6.
Porém, tinhas no peito o orgulho e o preito à esperança. E sabias muito bem que os senhores da vila, que mandavam e aldrabavam, eram preguiçosos, e te comiam vivo os olhos e os ossos, e mais ainda os da cidade. Era o fascismo, disseram-me um dia. E era. E logo te espetaram um cravo ao peito, símbolo do pacto que te punha no caminho da abundância. Era o socialismo, logo ali, ao virar da esquina.
7.
E tu, logo que sim, de bandeira na mão, contra a escravidão, como te disseram, nas ruas marchando, quatro patas, sim, duas patas, não, e, logo depois, sem explicação, já tinha de ser, duas patas sim, quatro, não. E tu, que sim, que afinal tudo eram patas. E já que isso era pela abundância prometida e contra a penúria, marchavas sem parar, e gritavas as patas necessárias ditas, sim, e as outras, não.
8.
Passaram os tempos. Mudou muita coisa. Mas tu sempre na frente, com a arma do voto na mão. Disseram-te um dia que aquilo das patas já não tinha interesse. E que isto estava mal, e que o melhor era emigrares. E quando lhes disseste que estavas velho, doente e cansado, aumentaram-te a idade da reforma. E quando te reformaste, com uma pensão de miséria, disseram-te que o melhor era morreres, que estavas a gastar sem trabalhar, e a comer.
9.
Só então viste que sempre te enganaram. E que, melhor que a crença, é o juízo crítico e a inteligência. Passaste a pensar pela tua cabeça. E aprendeste que dó a cultura nos salva e a inteligência. Militante da sabedoria, sublevaste a alma do teu povo, e marchaste enfrentando a ignomínia sem medo. Ouviste, já no cate, a ires embora, o hino do sonho que sonhaste pela vida fora. Adormeceste. E as aves te cantaram, as árvores e as águas.
António Mota nasceu Portela das Cabras, Vila Verde, Braga, (Portugal). Estudou nos Estados Unidos da América e e frequentou a Faculdade de Direito em Coimbra. É poeta, escritor e Livre Pensador.
