Morro todos os dias um pouco, e já nem me assusto. A morte, em mim, não é um evento — é rotina. Há quem acorde para trabalhar, eu acordo para morrer. Com parcimônia, sem espetáculo, como quem toma café amargo e olha o céu rachando em cinza.
Já vivi o bastante para perceber que o problema não é morrer, é continuar. Continuar é o vício dos vivos. Continuar amando quem não ama, acreditando no que não acredita, repetindo promessas que já nasceram vencidas. Continuar é a forma mais covarde de morrer.
Por isso escrevo. Escrevo para interromper o movimento, para congelar o tempo, para ver se as palavras me salvam da pressa dos vivos. Mas as palavras também mentem. Dizem que eternizam, mas só repetem o mesmo desespero com outras letras. Escrevo, apago, reescrevo — e no fim, tudo volta ao pó.
Quando era menino, eu queria ser santo. Achava bonito morrer por uma causa. Depois percebi que toda causa é apenas uma desculpa para adiar a morte. Os santos, os heróis, os poetas, todos mentem: dizem que morrem por algo, mas morrem por nada. E esse nada, curiosamente, é o que mais me atrai.
Os vivos me parecem tão ocupados em provar que estão vivos, que esquecem de existir. Correm, postam, rezam, votam, casam, se indignam… e no intervalo, chamam isso de “vida”. Eu, que já fui um deles, agora assisto de fora — como um fantasma no bar, pedindo uma última dose e rindo dos que ainda acreditam no final feliz.
A morte me trata com educação. Passa por mim devagar, me cumprimenta com leveza, pergunta se ainda não estou pronto. Às vezes penso que ela me admira: sou um morto disciplinado, que cumpre seus turnos em vida sem reclamar. Outras vezes, penso que ela me esqueceu — e que isso, ironicamente, é uma forma de castigo.
Há dias em que sinto inveja dos que ainda acreditam. A fé, dizem, é um anestésico elegante. Gostaria de crer em Deus, ou ao menos no pós-crédito da existência, onde as almas trocam confidências e bebem vinho. Mas não. Tudo o que me resta é o vazio, e o vazio, quando bem frequentado, até que é um bom lugar.
Morrer é simples. Difícil é morrer de modo digno, sem a pieguice dos epitáfios ou o constrangimento das homenagens. Não quero flores, nem discursos. Quero apenas silêncio — esse som raro, quase extinto. Que deixem meu corpo no canto, e se possível, apaguem as luzes. A vida já foi barulhenta demais.
Escrevo isso não como testamento, mas como confissão. Não me arrependo de nada, nem me orgulho de coisa alguma. Vivi o suficiente para entender que o arrependimento é apenas vaidade atrasada. O que foi, foi. E o que não foi, nunca será — por mais que a memória insista em romantizar o fracasso.
Há quem diga que a morte é o fim. Eu prefiro pensar que é o início do silêncio. E se o silêncio é uma forma de paz, então já vivi em guerra por tempo demais.
Se alguém ler isto depois que eu partir, não chore. Ria. Ria de mim, das minhas pretensões literárias, das minhas crises existenciais, da minha mania de fazer poesia com o que não presta. Ria, porque o riso também é um tipo de morte — a morte do medo.
E quando rirem, por favor, deixem que eu descanse. Não me ressuscitem em citações, em homenagens, em coletâneas póstumas. Não quero ser lembrado — quero ser esquecido com dignidade. Porque esquecer é, talvez, o único gesto verdadeiramente divino que nos restou.
Agora há pouco, ela voltou. Bateu na porta sem pressa — três toques leves, quase musicais. Entrei no jogo: perguntei quem era. Ela respondeu com uma voz que já conhecia, a voz que me acompanha desde o primeiro choro. Disse apenas: “Sou eu. E hoje, enfim, vim a pé.”
Olhei em volta. Tudo estava no lugar. As coisas, as palavras, as saudades — todas imóveis, esperando.
Senti um frio gentil me subir pelas mãos. E antes que ela dissesse mais alguma coisa, pedi que me deixasse terminar esta frase. Ela assentiu, paciente, como quem entende que até a morte precisa esperar um ponto final.
E é isso. Agora sim, posso parar de continuar.
17/10/2025
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Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
