Os Poetas e os Copos Quebrados (Contra o Mito do Poeta de Boteco)

Spoiler: Eu nasci pra morrer, e morro um pouco toda vez que alguém cultua Charles Bukowski como se fosse um santo do verso.

Dizem por aí que Barata Cichetto é o nosso Bukowski. Eu rio. Não porque ache ofensa — nem honra. É que essa mania de comparar tudo com o americano virou desculpa de botequim: “sou fã de Bukowski”, e pronto, está autorizado a beber até cair, vomitar na calçada e chamar isso de existência poética.

Não nego que gosto de beber. Gosto mesmo. Mas bebo em casa, em silêncio, sem plateia e sem garçons de sabedoria torta. Detesto bares. Detesto botecos. Aquele cheiro de cerveja azeda e suor filosófico me dá enjoo. O bar virou o confessionário dos poetas de ocasião — esses que confundem ressaca com inspiração, e acreditam que o álcool é o Santo Graal da autenticidade.

Bukowski, ou qualquer outro desses santos de copo, viraram desculpa estética para uma geração inteira de escritores e poetas sem causa. Pior: sem palavra. Gente que nunca leu um livro inteiro, mas recita frases de efeito tiradas de sites de citações, como quem repete oração de santo pagão.

Eu mesmo já vi mulher entrar em livraria e pedir livro de “poesia suja, tipo Barata Cichetto, o Bukowski brasileiro”. E o livreiro, coitado, torcendo o nariz, sem saber se aquilo era elogio ou piada. O Brasil é ótimo nisso: idolatra o marginal desde que ele esteja morto, ou bêbado, ou convenientemente desgraçado.

Mas o que ninguém entende — nem os devotos do copo, nem os puritanos da literatura — é que o problema nunca foi a bebedeira. O problema é o culto. É achar que o poeta precisa morrer um pouco por dia pra provar que é poeta. É acreditar que decadência é método.

Eu li Bukowski, li meia dúzia de bêbados talentosos. E afirmo sem culpa: Bukowski era melhor contista do que poeta. Os contos dele tinham carne, ritmo, sujeira. Já os poemas, quase sempre, me soavam como notas de rodapé do mesmo porre infinito. E eu, Barata, por sua vez, herdei o sarcasmo e o desdém, mas também o peso do rótulo — e nenhum poeta aguenta ser comparado a outro sem perder metade do gosto de escrever.

A verdade é que o Brasil adora transformar o fracasso em bandeira. E Bukowski, com seu cigarro torto e seu copo de uísque, virou o escudo perfeito pra quem tem medo de admitir que não escreve nada, que só bebe. Porque dá trabalho escrever. Dá vergonha ser só bêbado.

Eu? Bebo, sim. Às vezes até demais. Mas bebo sozinho, como quem conversa com um demônio educado. E quando a cerveja termina, não me sinto nem Bukowski nem Barata. Sinto apenas o gosto amargo da lucidez, esse tipo raro de ressaca que não se cura dormindo.

O poeta verdadeiro não mora no bar — mora na contramão. Não vende livro em livraria, nem lê poemas em voz rouca em salas de teatro. O poeta é o sujeito que, mesmo sóbrio, continua vendo o mundo girar torto. E ainda tem a audácia de escrever sobre isso sem precisar de um copo na mão.

17/10/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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GENECY SILVA
GENECY SILVA
20/10/2025 0:09

Li Bukowski apenas uma vez, só por causa de sua fama. Não me senti tentado a ler mais obras dele. Talvez eu venha a fazer isso um dia, só para rever meus conceitos. Por outro lado, assisti aos filmes inspirados/adaptados da obra do escritor: Crônica de um Amor Louco e Barfly – Condenados Pelo Vício, na época em que foram lançados. No entanto, me recordo pouco deles. Talvez eu precise reassisti-los, com a mesma finalidade de rever meus conceitos a respeito desse “último poeta maldito”.
Já no que se refere ao escitor Barata Cichetto, esse não precisa de comparações com ninguém, seja famoso ou não, pois possui identidade, marca, sei lá eu… próprios.

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