A Mão Suja que Escreve a Luz

“Eu, e eu não sou nem gênio muito menos o grande e absoluto Marquês
Arranco minhas carnes igual a um carneiro e uso minha pele como papel
Depois retiro da sarjeta, a caneta de ouro desprezada pelo bom burguês
E cometo meus escritos falando de merda, de Sade e das putas de bordel.”
Barata Cichetto em “Sade, Poe e Eu”, 2002

Quando proibiram o Marquês de cometer seus escritos duros e insanos — como escrevi certa vez, cuspindo versos para não engasgar com a hipocrisia do mundo — tomaram-lhe as penas, negaram-lhe o papel, mas não conseguiram tocar naquilo que era irredutível: a vontade de pensar até o limite do horror. Sade, esse homem que jamais foi santo, acabou por dar nome ao que os séculos chamariam de sadismo, como se nele estivesse condensado o prazer da crueldade. Mas reduzir Sade ao chicote é como resumir o trovão ao barulho: não se entende nada da tempestade.

Conheci o outro Sade — o filósofo oculto na alcova — nos anos 1970, quando ainda vivíamos sob botas e silêncios. E não foi numa livraria clandestina ou num sebo mal iluminado: foi no forro de um sofá. Um amigo, desses que entendem que livro proibido é melhor que bíblia, tirou de dentro do estofado um exemplar amarelado de A Filosofia na Alcova. Não lembro se tive medo ou euforia; lembro apenas do choque. Não pelas cenas de libertinagem — que aos dezoito anos a gente imagina até no bar da esquina —, mas pelo rigor filosófico entranhado naquelas páginas, pela maneira como o Marquês usava o escândalo para desmontar as fachadas da moral e revelar o mofo por trás do verniz. Era como se cada frase dissesse: “se quer compreender o humano, não desvie o olhar.”

Li aquilo como quem abre o estômago e encontra engrenagens. No auge do Regime Militar, quando a própria filosofia era vista como subversão, Sade me ensinou que pensar também é um ato de violência — contra o conformismo, contra a passividade, contra a covardia travestida de virtude. Enquanto o país engolia sua própria língua para não ser punido, lá estava ele, dois séculos antes, apontando que o verdadeiro crime não é o excesso das paixões, mas a mediocridade das certezas.

Décadas depois — já no século XXI, quando as sombras mudaram de lugar mas continuam sombras — apaixonei-me por uma mulher nascida no mesmo dia que ele: 2 de junho. Coincidência é para quem não lê literatura. Eu chamo de trama. Ela, cheia de histórias picantes que misturavam riso e navalha, reacendeu em mim aquele Sade que nunca dorme. Era como se o fantasma do Marquês, obeso e lúcido em Charenton, tivesse voltado para cochichar provocações entre nossos lençóis e nossos livros.

Com ela, que parecia obra e autora ao mesmo tempo, entendi que há amores que são também capítulos — e que certos encontros não nascem do acaso, mas da necessidade de continuar uma conversa antiga. Foi por causa dela que escrevi, em primeira pessoa feminina, o romance de uma protagonista que, desde a adolescência, sonha com Sade sempre na noite do próprio aniversário. Não sonhos eróticos — embora ali tudo tivesse carne —, mas encontros filosóficos, diálogos de quem sabe que o pensamento mais perigoso é também o mais libertador.

Na imaginação dela — que também era a minha — Sade surgia como um fantasma que não assombra: provoca.

E pensando bem, talvez eu tenha buscado nele, desde aquele exemplar escondido no sofá durante os anos duros do regime, a mesma urgência que grito nos meus versos: a impossibilidade de calar. Ele escrevendo nas paredes, no sangue, na merda — eu escrevendo com o que tenho, arrancando “minhas carnes igual a um carneiro” e usando a pele como papel. Ambos convencidos de que a palavra, quando honesta, fede. Porque só a mentira é perfumada.

O tempo avançou, como sempre avança, mas algumas obsessões ficam como tatuagens involuntárias. Continuo arrancando da sarjeta minhas canetas de ouro e cometendo minhas porcarias poéticas. Continuo acreditando, contra todas as estatísticas, que a escrita — mesmo que perdida, suja, clandestina — ainda acrescenta alguma coisa a essa humanidade suja que insiste em se declarar limpa.

Sade morreu sem saber que seus manuscritos sobreviveram. Morreu obeso, cansado, mas escrevendo. Um escritor clandestino até o fim, mesmo depois que seu nome virou diagnóstico. E não importa quantos tribunais, psiquiatras ou moralistas tentem reduzi-lo a rótulo: o que permanece, ainda hoje, é o pensamento — a coragem de olhar o abismo e descrevê-lo sem tremer.

Enquanto escrevia aquele livro, percebi que Sade nunca foi personagem fixo: é um portal. Um espelho distorcido que nos obriga a encarar nossos próprios excessos, nossos limites, nossa hipocrisia. O homem que a psiquiatria transformou em patologia e que a filosofia transformou em pergunta.

Talvez por isso eu volte a ele sempre, como quem retorna a um mestre severo. Não porque me atraia a crueldade, mas porque me fascina a lucidez que ela exige. Sade não pediu que o mundo fosse cruel — apenas constatou que ele já era. E se há uma herança sua que me toca, não é o sadismo, mas a ousadia de usar a palavra para escancarar o que todos preferem esconder.

No fim, continuo sendo — como escrevi — “um idiota com manias estranhas”. Mas sigo, entrementes, retirando das minhas porcas entranhas outros delírios em forma de poemas, como ele retirou dos cantos imundos de suas prisões páginas que fariam a civilização corar.

Porque, se a literatura não serve para iluminar nada, que ao menos suje. E que a sujeira, por favor, seja verdadeira.

07/11/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×