Fui criança, adolescente e adulto durante os anos do Regime Militar. Vi e vivi coisas que hoje chamam de História. Mas sem glória nem orgulho, carrego em mim as marcas na pele e na memória, que se de um lado tínhamos a Ditadura clara e declarada, do outro havia outro tipo, que pregava a Revolução pela Democracia, mas de fato queria apenas aquele pela tal “Ditadura do Proletariado“, que é um termo tão mentiroso quanto aqueles usados por qualquer ditadura comunista: “República Democrática” ou “República Popular“.
Em 1997 criei um site chamado “A Barata“, cujo porquê do título já expliquei em vários outros artigos e especialmente no livro que conta a história dele, e que lancei em 2020: “Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade – A História de ABarata.Com.Br“. E foi por ele que me tornei “O” Barata, o que me enche de orgulho, já que ser identificado por um trabalho, que foi de grande prestígio no meio cultural na época — meados da primeira década do século —, não é coisa pouca não. Esse site ficou no ar por 23 anos, mas no final, nos últimos anos, apenas por meu apego emocional, já que na segunda década do terceiro milênio, as redes sociais, ciumentas, roubaram a elas toda a atenção que era dada aos sites.
Quando criei o Agulha, em 2021, depois da malfadada criação de um site voltado apenas à poesia, o BarDoPoeta, pensei em resgatar o slogan que criei em 98: “Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade“, mas acabei deixando de lado, já que a expressão acabou sendo “roubada” por outros, e como não é lá uma coisa que se possa registrar (creio que não, e de qualquer forma, mesmo que pudesse não o fiz), acabei por usar um termo que passou a ser muito importante, desde que o Judiciário brasileiro tomou a si o papel de mandar no Brasil, acima do Congresso, e do próprio Presidente: “Pensamento Livre”. Mal sabia eu, e todos nós, que a escalada na censura e da perseguição política a quem a ideologia reinante, a esquerdista, atingiria níveis insuportáveis depois de Janeiro de 2022.
Pensamento Livre parece ter se tornado crime, como na “Crimidéia” do 1984 Orwell, — muito real em 2024 —e com certeza experimentamos algo o Brasil nem viu nas ditaduras mais ferrenhas. Podem alguns dizer que “ah, mas os militares matavam os opositores…” No que eu respondo com uma pergunta: não foram poucas as pessoas mortas pela Ditadura Sanitária imposta pelo tal Judiciário, não foram também poucas as que morreram ou enlouqueceram por desespero, ao perderem suas fontes de renda (canais no Youtube, redes sociais, etc.). E também não foram as pessoas cujas famílias se desintegraram por causa da política do “Nós contra eles” criada pelo petismo quando se viu encurralado diante da Lava-jato que prendeu um monte de corruptos. Não, meus amigos e minhas amigas, não foram poucas as mortes causadas direta ou indiretamente por essa Nova Ditadura, que aprendeu como torturar sem encostar um dedo, sem bater, sem arrancar sangue. Gramsci foi um bom professor, e eles fazem a lição de casa direitinho.
“Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade” então agora me parece até um mote idiota e piegas, e até me faz pensar numa faixa trazida à frente de uma Escola de Samba onde está escrito: “A Mocidade Comunista de Padre Sílvio Apresenta: Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade“. Logo atrás, o Mestre Sala e a Porta Bandeira, casal de bandidos egressos de Curitiba, fazem passinhos vergonhosos tendo se achar estrelas, mas o comando do espetáculo, regendo a bateria que dá o ritmo, está um sujeito careca abana os braços, sacode a toga pedindo silêncio. É um desfile caótico, num Carnaval sem Quarta-feira de cinzas, e que dura até emenda até começar o próximo no outro ano.
Em 2021 quando o Agulha.xyz se firmou, poucos meses depois, já tínhamos cerca de 50 autores fixos, mas no final do ano esse número, com secessão escalando, as pessoas começaram a sair. Era ainda o auge da tal “Pandemia de Coronavírus”, e junto a tudo isso, acabei entrando numa depressão profunda, que me fez fechar o site, e me trancar dentro da tristeza, bebendo cerveja o dia inteiro. Agora em Janeiro de 2021, depois de ser cerceado pelo Youtube, onde tenho um canal basicamente de poesia desde 2007, decidi retomar o projeto, mas até agora, em Maio, cinco meses depois, esse número não chega a 10, apesar de meus esforços. (Aliás, eram dez, mas um pulou fora, com medo de represálias e perseguições no meio onde trabalha).
A análise dessas coisas me dão certas convicções que as pessoas desanimadas e com medo. Desanimadas por ter percebido que nada que digamos ou escrevamos possa surtir algum efeito. E com medo de que justamente esse efeito seja algum tipo de perseguição. Então preferem jogar Paciência no computador ou celular, ou conversa fora no Facebook. Medo e desânimo são efetivamente as duas maiores forças destruidoras do ser humano, porque atacam justamente o Livre Pensamento, sem o qual não há Liberdade de Expressão e muito menos Expressão de Liberdade. Com a fraudemia veio o primeiro teste do medo, e eles perceberam como seria fácil dominar as pessoas imputando mais e mais medo, de algo invisível. E esse medo foi incrementado com a perseguição política, num suco de merda que nos fizeram engolir sem vomitar.
Fui criança, adolescente e adulto durante os anos do Regime Militar. Vi e vivi coisas que hoje chamam de História. Mas sem glória nem orgulho, carrego em mim as marcas na pele e na memória, que se de um lado tínhamos a Ditadura clara e declarada, do outro havia outro tipo, que pregava a Revolução pela Democracia, mas de fato queria apenas aquele pela tal “Ditadura do Proletariado“, que é um termo tão mentiroso quanto aqueles usados por qualquer ditadura comunista: “República Democrática” ou “República Popular“. Existem aos montes na Internet, declarações de líderes da tal “Resistência”, que era essa verdadeiramente a intenção. Assim como denúncias desses com relação à justiçamento dos próprios “companheiros” que julgavam traidores.
Agora o que mais me deixa triste, é saber que jornalistas, artistas, intelectuais nas redações de jornais, e estúdios de rádio e televisão, tinham a visão de que tinham que lutar contra a opressão, contra o poder estabelecido, contra a Ditadura. Muitos desses morreram em mãos de torturadores oficiais, outros sumiram, e outros ainda enlouqueceram. Agora esses mesmos, apenas demonstram subserviência ao Sistema, ajudam a convencer os incautos que tudo é para o bem deles. Que “O Amor Venceu“, e se fingem de surdos e mudos quando um crime é cometido contra aqueles que eles julgam oposição. Ou seja: agem exatamente como aqueles contra quem dizia lutar, o que me faz concluir é que de fato eles não queriam Democracia coisa nenhuma, não queriam Liberdade, queriam apenas estar do lado dos que mandam. Como bem cantou o eterno filhinho de papai de “olhos azuis igual ao Médici”, um tal de Julinho da Adelaide: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, sendo, não por acaso, o tal pai da tal filha ninguém menos que o General Presidente Geisel.
Quase nada tenho escrito sobre Política nos últimos tempos, a não ser nos meus desabafos poéticos em Vômitos de Metáforas, e nem considero que este seja realmente um artigo sobre esse tema. Creio que a pauta real seja Liberdade e todos os seus sinônimos. Porque como disse a doce e depressiva Clarice Lispector em “Perto do Coração Selvagem”: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome“.
10/05/2024
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
