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A Mulher do Outro Lado da Minha Vida

Não pareço-me com ela, a mulher do outro lado da minha vida, nenhum reflexo longitudinal, nenhum espelho, a mostrar semelhanças ou particularidades étnicas reconhecíveis, somente um estranhamento, o longo e velho deslocamento da retina, que não mais encontra amparo, afeto e acolhimento. Perdida está a pele, enquanto ela não mais se reconhece aos ossos.

Olhamo-nos, eu e ela, essa, que também me leva o nome, ambas perdidas, cada qual, carregada de bagagem e células e pó e ontem e chaves e leviandades e memórias e atentados abstratos e obsoletos, cada qual quis voar sobre um trilho, pular ondas, penhascos, dias e arrependimentos, arriscar um gozo numa tarde de domingo, com um estranho na esquina, dormir nua ao relento, brincar de cio, ser levada pelas águas de um rio, ambas ficamos, ambas estamos diante deste acaso.

Desejei ter me apresentado a ela, dito mais do que cordialidades formais estabelecidas entre cartões de visita, contado histórias e memórias subvertidas, anedotas, versos de ontem, meus segredos, quem sabe dessa forma, desinteressante, pudéssemos convergir aos silêncios, reconhecêssemos o sangue, o cheiro, as cicatrizes, por quem rezamos e sussurramos.

Rogo ao dia, ao que encontro ao espelho.

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta, escritora… E, claro, Livre Pensadora!

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