Imagem Criada Com I.A.

Conversas Af.IA.das — O Balaio de Gatos

Prólogo:

Na vastidão das cidades , há uma praça imaginária onde as forças políticas do país se encontram para um baile surreal. O salão é um mosaico de paralelepípedos gastos, brilhando em reflexos de promessas antigas, desbotadas pela chuva de discursos que nunca se tornam ações.

(Continua…)

(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)

A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!

O Salão dos Ecos Distantes

Sob um céu que parecia costurado por fios de promessas e nuvens de discursos, erguia-se o Salão dos Ecos Distantes. Era uma estrutura viva, feita de mármore que murmurava histórias antigas e tijolos de resoluções quebradas. No centro, uma pista de dança que não era fixa, mas se movia como um quebra-cabeça desgovernado. Ali, todas as forças do país se reuniam para um baile interminável.

O Exsecutivus apareceu primeiro, vestindo uma capa pesada de tecido brilhante que arrastava um rastro de expectativas. Seus passos ecoavam como trovões, mas a música à sua volta era desconexa, interrompida por oponentes invisíveis. Logo, chegou o Legislativus, coberto por máscaras que mudavam de forma a cada instante. Sua dança era cheia de recuos, como se temesse cada passo à frente. Quando tentavam girar juntos, trombavam em uma parede invisível: a reforma do ensino médio, sempre presente, sempre bloqueando.

Entre as colunas do salão, criaturas indefinidas rastejavam — as Supersalárias. Eram sombras de um sistema que engordava sem pudor, alimentando-se de promessas de austeridade. Suas garras afiadas rasgavam o chão, traçando padrões de privilégios. Sobre elas pairava a jovem Reforma Tributária, uma figura translúcida, sempre ao alcance, mas inalcançável. Ela dançava sozinha, emitindo um brilho de esperança que parecia mais miragem que realidade.

Uma figura encapuzada emergiu das sombras. “Patrocinium Indignum”, sussurrou alguém, e o salão inteiro se encolheu. O encapuzado movia-se com graça perturbadora, trocando envelopes e apertos de mão que brilhavam brevemente antes de desaparecer. Cada troca criava uma rachadura nas paredes do salão, enquanto o chão parecia afundar lentamente, sugando o último vestígio de confiança que ali existia.

À medida que o relógio se aproximava das eleições, o salão tornou-se um turbilhão. Paredes desmoronavam e se reconstruíam instantaneamente, como se o próprio espaço fosse moldado por negociações secretas. Figuras mudavam de lugar, trocando parceiros em passos frenéticos, mas a dança nunca avançava. Era um ciclo eterno, como se o salão estivesse preso em uma coreografia escrita por mãos invisíveis.

Quando o último acorde soou, o salão desabou em silêncio. O céu acima costurou-se novamente, mas desta vez, os fios estavam mais fracos, quase invisíveis. No vazio que restava, ecoava uma única pergunta: a dança havia terminado, ou apenas recomeçado em outro lugar?

E assim, o povo olhava, ainda esperando — não por uma nova música, mas pela coragem de romper o ciclo.

Quando a poeira do salão assentou, os sobreviventes do baile caminharam entre os escombros. Cada pedra parecia carregar os murmúrios de discursos passados, repetindo promessas vazias como ecos em um vale profundo. As Supersalárias rastejaram de volta para suas tocas douradas, enquanto a figura translúcida da Reformatio Tributaria se dissolveu, como um vapor que nunca alcança a chuva.

Nas margens do salão, onde a luz era mais escassa, figuras emergiram. Eram os habitantes do “Altera Pars” — o povo, aquele mesmo que a cada ciclo observava o espetáculo com uma mistura de esperança e exaustão. Alguns riam, outros choravam, e a maioria apenas caminhava, como se carregassem o peso de todos os passos mal dados na pista de dança.

No horizonte, uma nova construção começou a surgir. Não era um salão como o anterior, mas algo mais estranho, fragmentado. Cada pedaço era carregado por diferentes grupos, mas nunca se encaixavam completamente. Era como se as próprias peças se recusassem a formar um todo coerente. A música voltou a tocar, mas desta vez, não era uma melodia. Era um som caótico — microfonias de discursos simultâneos, desencontros de intenções.

No centro desse novo caos, a figura encapuzada de Patrocinium Indignum reapareceu, desta vez maior, como se tivesse se alimentado do próprio colapso do salão anterior. Suas mãos agora seguravam correntes de papel, contratos e promessas que envolviam todos os participantes, apertando lentamente até que todos fossem forçados a dançar novamente.

E o povo? O povo apenas olhava, dividindo-se entre aqueles que tentavam reconstruir algo do chão destruído e aqueles que aguardavam a próxima queda. O céu, acima de tudo, continuava costurado, mas as linhas brilhavam menos a cada ciclo. Era como se a própria realidade estivesse cansada da repetição.

Talvez, dessa vez, algo realmente mudasse. Ou talvez fosse apenas mais uma dança no eterno salão das contradições.

Quando tudo parecia dissolver-se em um ciclo eterno, uma fagulha de silêncio se instaurou. Não era a ausência de som, mas um intervalo — uma pausa entre as notas dissonantes da melodia interminável. No vazio que se formou, algo inesperado surgiu: uma pequena chama, dançando solitária no meio dos escombros do salão.

Essa chama não era fruto de discursos ou acordos. Ela vinha de algo esquecido, enterrado sob as camadas de cinismo e desconfiança. Era a faísca de uma memória coletiva, o resquício de que, em tempos remotos, o povo já havia dançado outra música, uma que não exigia máscaras nem correntes.

E então, as figuras encapuzadas hesitaram. Os fragmentos de paredes erguidos às pressas pela nova construção tremeram. O céu costurado se abriu levemente, deixando passar um facho de luz, que iluminou os rostos dos que observavam de fora. Pela primeira vez em muito tempo, as máscaras começaram a cair.

Naquele momento, ninguém sabia se a chama cresceria ou seria sufocada pelo próximo ciclo. Mas ali, no fio do horizonte, algo mudou. Não era uma revolução, nem uma quebra completa das correntes, mas um vislumbre do que poderia ser — uma dança sem maestro, onde os passos nascessem de um compasso comum.

E enquanto o novo salão surgia, e os ecos distantes começavam a se reorganizar, a chama continuava ali, resistindo ao vento, iluminando a possibilidade de que, talvez, fosse possível uma música diferente. Uma música que não fosse só sobre poder, mas sobre propósito.

E assim, o ciclo seguiu, mas desta vez, com uma pequena diferença: a memória do que poderia ser.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×