Conversas Af.IA.das — Qual é o Lado Bom? — 2 — O Sono

Prólogo:

Cada escolha que fazemos é previamente martelada em nossas cabeças, entre as tempestades de promessas publicitárias, cada qual tentando gritar mais alto que a anterior, anunciando sempre “o melhor” para nossa vida. O martelo cai, dia após dia, moldando desejos que nem sempre são nossos.

(Continua…)

(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)

A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!

O sono, sempre à espreita, abre as portas para uma paisagem insubordinada, onde nenhum cálculo eletrônico ou mecanismo sofisticado jamais penetrará. Ele arrasta os corpos para territórios incomensuráveis, onde as formas se distorcem como sombras esticadas por um farol distante, traçando contornos fluidos e desiguais que escapam a qualquer categorização lógica. Ali, as noites desenham-se com uma precisão caótica, fragmentada e imprecisa, onde cada curva é um enigma e cada trajeto uma confusão de sentimentos entrelaçados, incapazes de serem contidos em qualquer rede de dados. É um mapa secreto, e eu, seu viajante involuntário, sigo suas trilhas com olhos fechados, mas a mente, ah, essa nunca descansa.

Os dias, por outro lado, me parecem autômatos. Cegos, giram no mesmo eixo de consumo, onde vozes digitais anunciam, ditam e preveem o futuro que supostamente deveríamos desejar. Ciclos incessantes que se repetem. Uma martelada atrás da outra, moldando nossos pensamentos, forçando-nos a engolir sonhos fabricados em fábricas de ilusões. “O melhor para você”, ecoam nos anúncios, enquanto o martelo cai em sincronia com as horas do dia, afundando mais fundo em nossas consciências. Cada escolha não é mais minha, sinto, mas algo que me foi impingido por um desejo artificial, fabricado em algum lugar entre a tela e o vazio.

À noite, no entanto, o jogo vira. Quando o silêncio entra pelas frestas da janela, começo a me fantasiar com palavras que não tiveram espaço para florescer à luz do dia. Elas se acumulam como ecos de pensamentos reprimidos, aqueles que tentei enterrar entre as horas apertadas e o ritmo frenético. Vestido com essas palavras não ditas, vagueio pelo quarto, sem a necessidade de um arquivo digital para lembrar-me delas. Não há um “.doc” que contenha essa rebelião interna; as palavras fixam-se como feridas abertas, marcas daquilo que o cotidiano não permitiu expressar. São gritos, sussurros, desafinos de uma vida que dança entre as margens do controle e do caos.

E então, no escuro profundo do quarto, as verdadeiras injustiças – aquelas que não ousamos enfrentar sob a luz fria do dia – erguem-se como fantasmas. Não são as injustiças óbvias que vemos na TV, mas as que envenenam lentamente por dentro. Sou vítima e carrasco, e ao mesmo tempo não consigo decifrar qual dos papéis estou interpretando. O sono, agora, revela essas cicatrizes invisíveis, dores que o tempo não cicatrizou. No turbilhão dos sonhos, essas dores buscam cura, mas o remédio nunca vem. O ciclo recomeça. No espaço onírico, entrelaçado de símbolos e lembranças confusas, busco uma forma de libertação. Mas a liberdade nunca se completa, porque, mesmo nos sonhos, as correntes que nos prendem são feitas de algo mais profundo do que a realidade pode explicar.

E assim, cada noite se torna uma batalha entre a redenção e a condenação.

Cada noite, uma nova batalha travada em um campo onde o inimigo é invisível, e as armas, etéreas. O sono, antes um refúgio, agora se revela como uma arena de embates sutis, onde as injustiças acumuladas durante o dia retornam, mas transformadas. Elas não aparecem com o rosto cru da realidade, mas disfarçadas de símbolos e metáforas, distorcidas pelo filtro dos sonhos. Caminho por essas paisagens surreais, onde tudo é familiar e estranho ao mesmo tempo, onde portas que nunca existiram levam a quartos que jamais habitei, mas que, de algum modo, reconheço. As paredes dessas construções oníricas estão marcadas com as cicatrizes das escolhas que fiz sem pensar, dos desejos impostos, das promessas que aceitei sem questionar.

O martelo da propaganda, que durante o dia ecoava como uma constante, aqui se transforma em um sino distante, reverberando entre montanhas irreais. Mas, mesmo longe, ele ainda exerce seu peso, moldando sonhos como moldou pensamentos. Tentativas de fuga se tornam vãs; as paisagens oníricas, que antes pareciam infinitas, começam a se estreitar, empurrando-me de volta para o mesmo ciclo. Caminho por vielas e corredores que se fecham sobre mim, cercado pelas palavras que não disse, pelos gritos que ficaram presos na garganta, pelas revoltas que não tive coragem de encarar.

No escuro do quarto, percebo que não há escapatória. Sou tanto vítima quanto arquiteto dessas injustiças. Somos todos. O sono, esse guia desobediente, revela as correntes invisíveis que nos amarram, e cada passo em direção à liberdade só serve para evidenciar que estamos presos em nossa própria rede de ilusões. Não é a sociedade, não é o mundo exterior, mas algo dentro de nós que continua a martelar, moldar, forjar nossos sonhos e pesadelos. E assim, mesmo quando acredito estar navegando por um mar de liberdade, percebo que as correntes estão sempre ali, pesando, guiando.

Nas profundezas do sonho, procuro respostas para essa prisão invisível. Há um lampejo de esperança, algo que parece próximo, uma solução oculta nas dobras da mente. Mas, como sempre, ela escapa. O sono, tão insubordinado, desenha mais uma vez suas rotas incompletas, deixando-me com a sensação de que a cura, a libertação, está ali, a um passo de distância, mas nunca ao alcance. No instante em que parece que vou compreender, que tudo faz sentido, a paisagem se dissolve e acordo, preso mais uma vez na mesma realidade que fui obrigado a aceitar.

Acordo. O quarto parece o mesmo, mas algo dentro de mim está deslocado. O martelo ainda ressoa em algum canto da mente, fraco, distante, mas presente. O dia se insinua pelas frestas da janela, pronto para recomeçar seu ciclo habitual de promessas e comandos, mas há uma estranha sensação de que, entre os sonhos e a vigília, algo escapou. Uma palavra não dita, um gesto contido, uma peça que falta para completar o quebra-cabeça.

Levanto, olho para o espelho e me pergunto: quem está guiando os sonhos agora? Será que, de algum modo, fui eu quem traçou aquelas paisagens impossíveis, ou sou apenas mais um viajante errante, carregado pelas correntes invisíveis de uma realidade que não controlo? O martelo da propaganda, os sonhos que se entrelaçam com a realidade – onde termina uma coisa e começa a outra?

O dia avança, trazendo com ele as mesmas escolhas já traçadas, as mesmas vozes que martelam incessantemente. Mas algo está diferente, uma dúvida sutil se insinua em cada pensamento, em cada decisão. As cicatrizes da noite ainda latejam, mas há uma leve esperança no ar, uma sensação incômoda de que as respostas estão ali, ocultas em algum canto dos sonhos, esperando para serem descobertas.

Ou talvez não. Talvez a liberdade, o controle, sejam ilusões tão distantes quanto os territórios inexplorados que o sono nos apresenta. Talvez nunca saibamos o que realmente guia nossos passos, nossos pensamentos. Ou quem sabe, no fim, essa dúvida, essa incerteza, seja a única certeza que temos.

Assim, entre a vigília e o sono, entre as promessas do dia e os ecos da noite, seguimos. Incompletos, incertos.

E, o ciclo recomeça. O martelo cai.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×