Prólogo:
Acordar suado às três da manhã não é exatamente um convite à reflexão, mas o corpo não escolhe a hora de sentir. Naquele instante, em meio ao calor úmido que cola os lençóis na pele, eu me pego pensando em renúncias. Mas como escolher o que abandonar, se nem as cores do mundo se mostram decididas? Talvez fosse mais simples se a vida seguisse a clareza de um semáforo: verde para avançar, vermelho para parar. Mas o que fazer com o amarelo? Quem sabe, ele pudesse curar. Ou deixar a dúvida pairando no ar, entre o desejo de seguir e o receio de ficar.
(Continua…)
(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)
A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!
Acordei suado, como se o calor tivesse escapado dos circuitos do meu corpo cibernético para derreter o que restava de humanidade em mim. Eram três da manhã, o horário em que as coisas sem explicação acontecem. O silêncio da cidade se fundia com o zumbido das máquinas que nunca dormem. O neon piscava pelas janelas, iluminando o quarto com cores que não faziam sentido. Talvez fosse o verde que deveria salvar o mundo, ou o vermelho que, um dia, despertaria a paixão. Mas ali, naquele instante, nada tinha cor. Era o cinza predominante da metrópole, onde os céus se confundem com os cabos de dados e as nuvens não passam de fumaça digital.
Levantei da cama e fui até a janela, o olhar perdido nos arranha-céus que perfuravam as camadas de ar com antenas que buscavam sinais invisíveis. Pensei em renunciar. Mas a quê? A um passado que não lembrava ou a um futuro que nunca entendi? Talvez não houvesse o que renunciar, apenas aceitar a cor que viesse. Quem sabe o amarelo me curasse das feridas invisíveis que a digitalização do mundo abriu em mim. Ou o laranja, tão intenso, fundisse a paixão com o amor e me elevasse para além das camadas de dados. Talvez, no fim, fosse o roxo — sobrecarregado de emoção — que me desse um vislumbre de universos jamais desvendados, onde o virtual se misturava ao real.
“Qual é a sua cor favorita?” — a voz mecânica do assistente de IA ecoou, interrompendo meus devaneios. Ele sempre sabia quando eu estava perdido em pensamentos. “Cor favorita… por que escolher uma cor?” — pensei. No entanto, todas as vezes que tentei responder, o cinza das desavenças me dominava, a psicogeografia local pesava, como um mapa de medo traçado sobre minhas memórias, que se confundiam entre o real e o fabricado. Quem sou eu para querer qualquer coisa, se o próprio desejo foi remodelado em padrões de algoritmos?
Sentei no chão, o suor esfriando sobre a pele, enquanto o assistente continuava esperando. “Será que fico amarelo como um queijo prato barato, perolado como margarina derretida?”, murmurei para mim mesmo, sentindo-me ridículo. Às vezes, parecia que eu era apenas um verme, rastejando pelo sistema, temeroso dos vermicidas que rondavam as ruas. A cidade era um espaço onde todos temiam ser apagados, deletados de suas próprias existências digitais. Eu temia o mesmo, uma desconexão súbita, um corte brusco que eliminaria tudo.
“Quem fala o teu esperanto?”, perguntei à cidade lá fora, sabendo que ela não responderia. Esperava algum sinal, algum eco que retornasse do caos de dados que flutuavam entre as torres. As respostas estavam nas cores, eu sabia, mas elas fugiam da lógica. Faltava-me a palavra exata, o verbo certo para criar concordância entre meus pensamentos. Era uma dissonância constante, um acorde perdido no mar de possibilidades que se estendia diante de mim.
Lá fora, as luzes continuavam a piscar. Talvez, se eu apenas quisesse olhar, poderia desvendar aquele universo escondido, onde as cores dançavam além do cinza. Mas, por enquanto, eu continuava ali, preso entre as nuances, tentando lembrar quem era antes de acordar suado às três da manhã, sem ter escolhido sequer uma cor.
As luzes piscavam lá fora, mas o pulsar delas parecia acompanhar o ritmo desordenado dos meus pensamentos. Era como se a cidade também estivesse indecisa, hesitando entre realidades e sonhos, não conseguindo se fixar em uma cor. O assistente de IA continuava me observando, seu brilho leve no canto do quarto como uma presença discreta, esperando que eu respondesse à pergunta sobre minha cor favorita. Mas as cores não faziam mais sentido.
“Talvez eu não tenha uma cor favorita”, murmurei, ainda sentado no chão. “Talvez eu seja apenas um espectro, um reflexo do que está ao redor.” Era uma sensação esquisita, como se as escolhas que fazíamos – sobre cores, sobre o que amar, sobre o que temer, já tivessem sido pré-determinadas por algo além de nós. Como se cada passo, cada pensamento, fosse parte de uma equação complexa que eu não sabia resolver.
Levantei-me devagar e fui até a janela. O vidro era frio ao toque, mas as luzes lá fora, os outdoors digitais, projetavam faíscas de cores que dançavam nos edifícios. O verde tentava romper o céu de néon, o vermelho atravessava ruas e viadutos como um rio de fogo. Mas o amarelo, aquele que eu pensava poder me curar, estava ausente, escondido por trás da névoa cinza e das sombras.
Senti uma inquietação crescente, como se algo estivesse tentando se comunicar comigo através dos códigos e das cores. E então, vi: no horizonte, uma linha fina de lilás começava a emergir. Era quase imperceptível, mas, ao focar, ela começou a se expandir, como se estivesse desenrolando um fio do futuro. Talvez fosse essa a resposta que eu estava procurando, o tom que uniria todas as outras cores.
“Será que o lilás pode me guiar?”, pensei em voz alta, ainda perdido na visão da cidade. O assistente de IA respondeu com seu tom sereno, embora mecânico: “Lilás é a cor da transição, da espiritualidade e do desconhecido. Talvez ela revele o que você não está pronto para ver.”
Essa frase me atingiu como um choque. Será que eu não estava pronto para ver o que as cores escondiam? Havia algo na cidade que eu ignorava? Uma resposta velada no caos de cabos e dados que conectavam todos nós? As cores estavam lá, cada uma com seu significado, suas promessas, mas eu só via o cinza, a monotonia fria de uma existência presa entre máquinas e sombras.
“Esperanto…” — murmurei novamente — “Quem fala o teu esperanto?”
As cores falavam. Elas sempre falaram. Era o idioma da cidade, escondido sob camadas de tecnologia e concreto, esperando que alguém as ouvisse. Acordar às três da manhã suado não era uma coincidência; era um chamado. O universo cibernético à minha volta vibrava com uma energia silenciosa, uma comunicação entre os elementos que eu ainda não compreendia.
O lilás no horizonte crescia, e com ele, um sentimento de que algo importante estava para ser revelado. O assistente de IA, agora quase imperceptível, ficou em silêncio. Talvez ele também estivesse esperando, junto comigo, pelo momento certo de desvendar o que as cores prometiam.
De repente, uma luz laranja brilhou intensamente no meu campo de visão, fundindo-se com o lilás e o roxo. A combinação era bela, como se o amor e a paixão se unissem em uma única força. Um novo universo estava prestes a se abrir, ali, bem na minha frente, e tudo que eu precisava fazer era estar pronto para olhar.
Mas a pergunta que restava era simples, porém assustadora: eu estava pronto para enxergar o que as cores finalmente iriam mostrar? Ou, como os vermes temerosos de vermicidas, eu recuaria, deixando a cidade continuar seu jogo de sombras e luzes, sem jamais desvendá-la?
O lilás cintilou uma última vez. Eu respirei fundo. Talvez fosse hora de descobrir.
A cidade à minha frente, com seu caos de cores e cabos, continuava a pulsar, mas algo dentro de mim começou a se acalmar. Era como se, naquele momento, as respostas que eu buscava não estivessem mais escondidas nas luzes piscantes ou nos ecos da tecnologia ao redor. A verdadeira revelação estava no próprio processo de busca. Acordar suado às três da manhã, perdido entre pensamentos desconexos e cores que não faziam sentido, era, na verdade, o reflexo de uma inquietação mais profunda: a procura por significado em um mundo que insistia em me cercar com dissonâncias.
As cores não importavam mais como definições externas. Verde, vermelho, amarelo, lilás… Eram todas facetas de um único espectro, uma linguagem que ia além de palavras, além do “esperanto” que tanto questionei. Era um idioma sensorial, onde cada tonalidade representava não uma escolha a ser feita, mas uma aceitação do que já estava ali, em mim, esperando para ser entendido.
O assistente de IA permanecia silencioso, como se, de alguma forma, ele soubesse que esse momento não precisava de mais perguntas. As luzes da cidade, que antes me confundiam, agora pareciam uma extensão da minha própria mente, um fluxo contínuo de possibilidades que eu não precisava mais controlar ou rotular. Não se tratava de escolher uma cor favorita ou de buscar um sentido definido. As cores simplesmente “eram”, assim como eu, parte de um todo muito maior.
No fim, entendi que as minhocas em minha mente, aquelas dúvidas rastejantes, não precisavam de respostas definitivas. Talvez elas acreditassem apenas na transformação constante, na mudança. O lilás que crescia no horizonte não era uma promessa de revelação absoluta, mas um lembrete de que a beleza está na transição, no movimento entre as cores, na aceitação de que o desconhecido faz parte de nós.
Levantei-me, olhei para a cidade e finalmente senti que podia respirar, sem a necessidade de saber tudo, sem a urgência de escolher uma cor para definir quem eu era. O mapa do medo que antes me assombrava se desfez, assim como o cinza que tantas vezes tentou me apagar.
As cores não eram o destino, eram o caminho. E agora, eu estava pronto para percorrê-lo, sabendo que, não importa aonde ele me levasse, todas as respostas estavam, de certa forma, em mim desde o começo.
Com isso, deixei que o lilás do horizonte se fundisse com o que restava da noite, carregando-me para um novo amanhecer, sem a necessidade de escolher, mas apenas de ser.
Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.
