A.M. Sünflauer – A Mulher Líquida

SINOPSE

Confissões de Angela Maria: Entre o Corpo e a Palavra
Barata Cichetto

Por mais de uma década, Angela Maria me confiou suas histórias. Não foi de uma vez só, nem de maneira organizada, como quem senta e decide relatar sua vida. Não. Seus relatos fluíam como o riacho que ela tanto gostava de mencionar, escorriam por nossas conversas tardias, emergiam de repente em momentos íntimos, entre silêncios e olhares. Não posso dizer que, desde o início, ela queria que eu escrevesse. Talvez nem eu soubesse ao certo. Mas havia algo em suas palavras que pedia permanência, como se elas não pudessem se dissipar no ar após cada confissão. Era como se, a cada encontro, ela me desse pedaços de um quebra-cabeça cujas peças eu fosse juntando lentamente, até que a imagem completa começasse a se formar.

Angela Maria era diferente de qualquer mulher que já conheci. Sua história, sua essência, sua forma de ver o mundo, tudo era profundamente singular. Talvez por isso, com o tempo, eu tenha me sentido compelido a registrar suas palavras – e quem sabe, também, suas emoções mais profundas. O que você encontrará nestas páginas é a vida de Angela Maria, contada por ela mesma, mas filtrada pelo meu olhar e pela minha memória. E se, em alguns momentos, as linhas parecerem mais íntimas do que se espera de uma mera relação de confiança, é porque Angela Maria nunca foi apenas minha confidente.

Há algo de indomável em sua narrativa, uma força que desafia definições, que ri das categorias que tentamos impor. Não posso garantir que tudo o que aqui está é verdade – aliás, aprendi com Angela que a verdade é um conceito escorregadio, que se molda conforme nossas necessidades e desejos. Mas o que sei é que essas são suas palavras, contadas entre cigarros, goles de vinho e momentos que só nós compartilhamos.

Como homenagem a essa trajetória que ela me permitiu conhecer e à complexidade de sua existência, todos os capítulos deste livro são precedidos por poesias escritas por mim, especialmente para acompanhar e dar forma à profundidade de sua narrativa. Essas poesias, criadas ao longo de nossas conversas e reflexões, são uma tentativa de captar as nuances e os ecos de suas confissões, de sua visão de mundo e, por vezes, do que transcendeu as palavras ditas.

Agora, ao ler sua história, espero que você também sinta um pouco da fascinante e caótica presença de Angela Maria, essa mulher que nunca se deixou ser completamente compreendida, mas que, por algum motivo, confiou a mim o privilégio de tentar contar sua versão do que é viver.

TRECHO

Querido leitor ou leitora, de mente esperta e aberta:

Não espere neste pergaminho, tenha ele a forma que tiver, do papel a holografia, ou qualquer forma que lhe chegue aos sentidos, que eu seja complacente com sua má vontade e hipocrisia. Cabe-me alertá-lo que não há mentiras nem invencionices baratas neste meu relato. E tenha conhecimento que faço como o Marquês morto, mas não de dentro de um manicômio fechado, às beiras com inquisidores e padres, mas sob a vigilância severa de críticos muito mais implacáveis até, que se não me retiraram as ferramentas de escrever, tentaram tomar a força meu desejo de sangrar estas páginas. Mesmo assim foram feitos estes escritos, com as letras com que fui alfabetizado por minha mãe ainda aos cinco anos de idade, á beira da mesa onde ela passava roupas todas as tardes para completar a renda insuficiente que meu pai provinha, não por ser pouco seu ganho, mas que era ele destinado a outras mesas e camas.

Ah, é a sacanagem, querido leitor ou leitora, o que agora buscas, de forma não didática, mas intuitiva, dinâmica e lógica, dentro de seu próprio cerne humana. Pois que sabes bem, ela é a alma da espécie humana, um dos únicos seres viventes neste planeta a possuí-la como dom natural. E o que tentarei nas próximas páginas, será apenas demonstrar-lhe o quão monstruoso é seu espírito, muito distante daquilo que lhe ensinaram sobre a bondade, desde os tempos que nem recordas. Pois que mentem todos, ao afirmar que é a bondade o real espírito humano. Uma mentira bem vestida, como uma puta em busca de clientes, cujo intuito é apenas angariar devotos para suas seitas.

E falarei, sim, com todas as palavras que conheço, e até criarei algumas para demonstram minha erudição perante a perversão que sou capaz. Não tanto da perversão de que são capazes minhas carnes, mas toda a perversão real que habita minha mente sórdida e mórbida. Escalarei, sim, os cumes mais altos do desespero humano, esborracharei no chão minhas mais torpes vicissitudes, minhas mais profanas mazelas, mas também não pouparei palavras sobre as megeras santas que trouxeram a mim a ideia de que se houve um dia na humanidade algo de bondade, foi há muito tempo. Se houve, o que de fato não creio absolutamente.

Ouçam todos quantos puderem as histórias libertinas que lhes conto, e que me foram ditas por uma mulher. E se foi ela, realmente discípula infiel do Marquês há incertezas, mas é certo que foi ela a maior dentre as amantes da Terra, e aquela que me carregou a lugares onde apenas minha imaginação tinha levado. E a ela dei o nome de Angela, sem acento. Angela Maria, em homenagem a cantora . E se não acreditam que ela tenha de fato existido, ou que suas historias são invenções de um escritor desocupado, em busca de sucesso e dinheiro, creiam-me que não discordo de sua descrença, afinal nem eu mesmo acreditaria, se não fosse eu ter escutado dela ao longo de anos, entre uma e outra sessão de sexo. E isso não me foi dito entre lágrimas nem arrependimento. E do mesmo jeito que alguém conta que foi ao parque passear com as crianças ela conta sobre como fodeu com um moribundo dentro de um hospital, com um borracheiro sobre pneus usados e em um parque cheio de crianças sorridentes e curiosas. A ela não existe nem mal nem bem, nem justiça nem injustiça. Não há arrependimento, nem piedade, ou qualquer dos sentimentos que compõe a lista moral estabelecida. Ela é sua própria religião, sua própria crença, sua própria ideologia… Ela é fluxo, é líquido, um rio, um mar. E se digo que poderia ser uma discípula infiel do Marquês, é porque nem ao próprio se deve tal reverência.

A essa protagonista, despida pelas mãos nem tão hábeis de um escritor frustrado, que nunca conseguiu nada além de cometer poemas pérfidos, sem, no entanto nunca poder declamá-los em casas de chá ou botecos fedorentos, diante dos olhos de belas damas que depois do recital lhe chupam o caralho, chamarei por: Angela Maria, nascida no mesmo dia do Marquês de Sade Esse o nome, não por ser o da minha primeira prostituta, nem da primeira professora, nem da minha catequista, sequer da minha primeira buceta fodida, da boca que primeiro chupou meu pau. Angela Maria é todas essas mulheres juntas. E representa neste relato profundo, ou ao menos pretensioso, todas as putas do mundo, todas as fêmeas da humanidade, todas as mães e filhas e lésbicas e freiras e putas e poetas e megeras e santas. Todas são Angela Maria. E todas, numa orgia, como convêm, poética, serão fodidas ao mesmo tempo, todas caberão exatamente neste momento, quando minha existência se torna um fardo, quando minhas forças já não resistem às investidas de um mundo fornicador e cruel, na mesma cama.

Uma ressalva: quero deixar ao leitor menos afeito às questões da literatura, especialmente àquele que, nos tempos em que habito, onde a tecnologia tomou o lugar na poesia e das lides mais intensas e emocionais, que não é possível a um escritor criar algo que já não tenha sido vivido por alguém, normalmente da forma com que ele gostaria de ter feito. O escritor, é um ser vilanesco, um oportunista, um vigarista, incapaz de viver as orgias e maldades que escreve. Tudo se passa na sua mente perversa e a existência alheia, tal qual uma fofoqueira na janela espreita um casal trepando debaixo do seu muro e depois se masturba. Esse é o meu papel nessa história.

Então, deixarei que Angela, lhes conte com suas próprias palavras e formas, aquilo que eu mesmo poderia lhes contar nas minhas. Ademais, jamais saberão se as histórias que lhes conto a seguir foram me contadas por ela ou se eu, fofoqueiro da literatura as inventei apenas com o intuito de enganar mais um pobre leitor que gasta seu parco dinheiro e tempo às voltas com histórias que também ele nunca viverá. Por vezes, como a própria fofoqueira a seu gato de estimação, farei comentários que podem servir ao leitor mais idiota, como expiação.

Apurem, pois, seus ouvidos, deixem que ela própria lhes conte. Mas o façam com tesão, com o pau duro na mão ou a buceta melada. Não leiam essas histórias sem ter em mente que a única liberdade possível é aquela é que existe puramente em seu corpo, em sua mente.

Cheguem, portanto, à minha orgia!

AVALIAÇÃO
Genecy Souza

Sou um dos muitos homens que puseram as mãos em Angela Maria. No meu caso, só as mãos mesmo. O autor não me deu a chance de usar outra coisa (risos). De qualquer modo fiquei muito lisonjeado por ser citado pela (anti?)heroína.

Angela é o que se chama de mulher-problema. E é dessa forma que, de cama em cama, de homem em homem, de enrascadas em enrascadas, contrassensos em contrassensos, a mulher liquefaz toda um ordem moral e todo um ordenamento social que ela ousa desafiar com a única arma de que dispõe: o sexo.

E Marquês de Sade.

E rock and roll.

E Belchior… tratado aqui como uma espécie de guru — ou um norte incerto –, cuja poesia-voz-música-e-bigode o excluem longa lista de homens-objeto de Angela, pelo simples fato da existência da enorme distância física entre eles. O poeta e sua dileta ouvinte nunca se tocaram. Não trocaram fluídos.

A Mulher Liquida é aqui mostrada nua e exposta. E tal exposição também desvenda a nudez moral de pessoas amorais fora dos holofotes sociais e comportamentais, a começar por sua família.

Angela Maria enfrentou o mundo com seu sexo e flertou várias vezes com a morte, e até tentou ser feliz em seu mundinho dissoluto. Na verdade, até foi. Mas era só um sonho.

A Mulher Líquida
A. M. Sünflauer
Prefácio e Poesias: Barata Cichetto
Gênero: Romance
Ano: 2024
Edição: 
Editora: BarataVerso
Páginas: 540
Tamanho: 16 × 23 × 3 cm
Peso: 1 kg
Revisor: Olavo Villa Couto

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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16/01/2025 17:47

[…] São Lúcifer inspirou reflexões e homenagens em outros campos. Barata Cichetto, em seu livro A Mulher Líquida, de 2016, criei um personagem chamado Lúcifer Calaritano Calandrino, um escritor cuja vida e obra […]

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