Sinopse:
Por que desenho as coisas que desenho? Parece óbvio? Não, não é. Não é por grana, embora eu desenhe quase sempre porque preciso de dinheiro, mas esse não é o fator determinante. Pelo prazer? Sim, tem isso, eu gosto de desenhar, mas no fim das contas esse ofício me angustia mais do que me satisfaz. Então qual a razão? A resposta mais cabível seria porque todos nascemos com um propósito na vida, talvez, e a minha seja criar formas no branco do papel com traços e cores. No entanto, porque sinto prazer em desenhar monstros? Sim, eu amo desenhar gigantes e monstros e quase sempre tudo isso vem agregado de erotismo e uma certa dose de escatologia. Instintos reprimidos? Os velórios aos quais eu fui obrigado a ir na tenra idade com minha avó materna me fizeram encarar a finitude de tudo na forma de traços que emulam a morte? Com certeza os especialistas têm uma resposta científica para essas questões, mas francamente não estou interessado nelas, as especulações me soam mais românticas.
Uma coisa é certa, eu odeio perder tempo, e jogar as horas fora pra mim é ter que assistir a um programa lixo na tv, ou ouvir conversa fiada numa fila de supermercado sobre como tal time ganhou ou perdeu no campeonato ou como o tomate subiu de preço. Esse foi o motivo que me levou, certo dia, a entrar em uma papelaria e comprar um caderninho de desenho, desses bem vagabundos, e desenhar alguma coisa qualquer enquanto eu estivesse em um consultório médico esperando ser atendido, dentro de um ônibus ou metrô ou numa fila de banco qualquer. Os rabiscos feitos nos coletivos duraram pouco porque não dava para fazer algo minimamente bom com o carro trepidando. Nas filas também desisti logo, sempre tinha um macho ou fêmea para dizer: “nossa, como você desenha bem! meu primo também desenha.” Ou, “porque você desenha essas coisas? faz um passarinho.” Pensar, sonhar, não é perder tempo, mas ver, ouvir o que não interessa, sim.
Minha proposta ao desenhar nesses caderninhos era não planejar o que seria executado, o que brotasse da mente deveria ir direto para a mão sem passar pelo filtro do coração. Outra coisa importante, nunca usar lápis e borracha, teria que ser direto na caneta, no máximo um traço bem leve só para não errar grotescamente nas formas, mas nunca imaginar: “vou fazer isso ou aquilo”, não! era começar em um ponto qualquer da página e ver o que ia brotando e ir agregando o que fosse possível.
Na verdade estou sendo muito complacente chamando o que se verá aqui de desenho, não passam de rabiscos que minha alma engendrou e minha mão, sem o raciocínio lógico do meu cérebro, deu forma de modo um tanto desastrado. O que sei é que fui criando puramente para passar o tempo, já que por causa de sons externos oriundos de programas de tv e comentários que não me interessavam eu não podia me recolher ao meu mundo e ficar lá, sonhando, refletindo ou maturando algum roteiro para uma HQ.
Isso durou enquanto eu tinha recursos para pagar plano de saúde, nesse tempo foram cinco caderninhos que preenchi com canetas esferográficas azuis, vermelhas e pretas. Algumas riscavam bem, outras nem tanto, soltavam mais tinta, umas com traços mais grossos, outras bem finas, espero que possam ser percebidas na impressão. Quando os planos ficaram mais caros e meus recursos monetários diminuíram, findou minhas veleidades nos caderninhos.
Do muito que fiz desde que peguei num lápis aos, sei lá, cinco ou seis anos, posso dizer sem medo que esses são os meus melhores desenhos, pois são honestos, fiz sem os recursos que nos levam a aperfeiçoá-los, nascidos sem o jugo dos critérios, dos dogmas; se são fantasmas, esqueletos, sendo expulsos da alma ou apenas devaneios de um maluco, não sei, só sei que saíram assim. Claro que tem Zé Gatão, Conan, heróis e todas essas coisas, mas repito, não planejei conscientemente, feita a forma, apenas os vesti como tal e tal personagem. Erotismo e horror? Sempre. Acho que faz parte da vida, o horror diário a que somos submetidos se corporificam nessas formas absurdas e burlescas.
Influências? Possivelmente. Alguns que viram esses rascunhos disseram lembrar o Crumb, outros Heinrich Klay, mas não foi intencional da minha parte.
Sendo bem honesto com meu público, três artes que fazem parte do sketchbook azul, não foram criadas nos caderninhos, trata-se do Zé Gatão com as mãos no rosto, o Johnny Ramone e a caricatura do Tarantino. Esses eu fiz com planejamento e esboço, apenas adicionei a esse tomo para atender a uma solicitação de fãs.
Sei que os sketchbooks de artistas renomados são disputados nos eventos de cultura pop gringos. Isso me faz pensar o quanto de picaretagem não deve existir nesse meio, tipo, o cara rabisca uma merda qualquer num caderno de desenho propositadamente para vender caro numa feira de arte e o coitado que compra pensa que seu artista do coração usava o objeto como base para suas criações. Normalmente os sketchbooks são caros, bom papel, capa de couro e tals, os meus, acho, nem resistirão tanto ao tempo pois o material é bem pobre.
De início não pensei em publicar, era algo muito pessoal, tanto que ficou guardado por anos, mas depois eu decidi que isso poderia chamar a atenção de alguém e virou um sonho a ser realizado. E graças ao poeta e editor, Barata Cichetto, mais uma vez, essa quimera se tornou palpável.
Eu penso que este é um livro para quem gosta de arte, arte não convencional, mas nada a ver com Egon Schiele ou Lucian Freud, meu trabalho é muito mais picaresco.
Indígenas, cangaceiros, velhos, bárbaros, Zé Gatão, heróis, doenças e monstros, muitos monstros pra vocês se fartarem.
Consumam sem moderação.
— Eduardo Schloesser
Avaliação
Leia a Resenha de Genecy Souza


Crazy Skretchbook de Eduardo Schloesser
Autor: Eduardo Schloesser
Gênero: Sketchs, Arte, Desenhos
Ano: 2025
Páginas: 248
Tamanho: 16 X 23 X 2 cm
Impressão: Papel Couchê Com Ilustrações em Azul, Vermelho e Preto
Capa: Dura
Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.


































