David Bowie: As Mil Faces do Palhaço de Deus

Eu já não lembro quando ouvi David Bowie pela primeira vez. Desconfio que foi de modo indireto, em um cover de Starman, transformada em Astronauta de Mármore, da banda gaúcha Nenhum de Nós. A versão em português nada tinha a ver com a letra original, ainda assim, foi um grande sucesso em 1989, sendo, inclusive, tema de novela da Globo.

Movido pela curiosidade, em razão de alguma matéria publicada na imprensa, adquiri o LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, de 1972. Estávamos no início da década de 1990. Biografias de bandas e músicos não era comuns; havia uma grande deficiência de informação relacionada ao rock, blues, jazz, r&b, soul, etc. Dependíamos quase que exclusivamente do que era publicado em revistas especializadas. Revistas importadas eram caras e difíceis de conseguir. Obviamente, nem tudo que era publicado na imprensa tupiniquim era confiável. Além do mais, a internet ainda não era uma realidade. Éramos uma espécie de reféns dos gostos pessoais dos jornalistas.

Bowie veio ao Brasil em setembro de 1990, trazendo a turnê Sound + Vision, com shows em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nessa época o país já aparecia no mapa dos grandes eventos internacionais, graças ao primeiro Rock In Rio em 1985. No bojo da Sound + Vision mergulhei na “bowiefilia” de modo irreversível. Ainda por volta de 1990 adquiri o livro O Palhaço de Deus, lançado pela editora portuguesa Assírio & Alvim, na qual pude conhecer as letras de muitos clássicos de David Bowie traduzidos para o português. De Portugal, é claro.

O tempo passou e, em março de 2014, a edição no. 2 da revista Gatos & Alfaces publicou a matéria “David Bowie: As Mil Faces do Palhaço de Deus”, na qual apresento minhas impressões sobre essa figura ímpar da cultura ocidental. Na ocasião, Bowie havia lançado o álbum The Next Day (2013), então o mais recente trabalho do inglês.

Essa edição da Gatos & Alfaces bem que pode ser entendida como uma revista-tributo, haja visto que, além da capa estampar a imagem de um dos meus heróis da música, também nos brinda com um cordel de autoria de um amigo que ficou no passado, e a ótima matéria O Chefão Beat Encontra o Senhor do Glitter, um diálogo entre David Bowie e o poeta beat William Burroughs.

Em 10.01.2016, o mundo foi sacudido pela notícia da morte de David Bowie aos 69 anos, vitimado por um câncer de fígado, doença que ele ocultou de todos. Do diagnóstico da doença até um pouco antes de sua morte, David trabalhou duro na produção de seu derradeiro trabalho, denominado Blackstar, uma obra-prima reforçada com alguns clipes realmente impressionantes. Não é demais deduzir que ele sabia que seu fim estava próximo.

David Bowie decidiu voltar para as estrelas.

(15/11/2020)

Quando, em 11 de março de 2013, David Bowie trouxe à luz The Next Day, seu primeiro álbum em dez anos, o mundo não estava preparado para tanta surpresa, como também nunca esteve para as investidas anteriores desse multi-homem caído na Terra, nascido Robert David Jones para fins de registro civil, em 1946, quando os escombros da 2ª. Guerra Mundial eram item indissociável da paisagem européia, e tudo que as pessoas queriam era esquecer tudo e olhar para a frente. Como é de se notar, Robert queria – e conseguiu – olhar muito mais à frente, e o faz ainda hoje, neste século 21 de avanços questionáveis e de promessas de retrocessos.

Robert David Jones escolheu, nos anos 1960, como nome de guerra David Bowie, convertido num abracadabra, uma senha, uma palavra de ordem, que o habilitava a abrir portas e, o que melhor, facultou a seus milhões de – ah, digamos – seguidores o mesmo poder. Estabelecia-se assim uma forma de poder que não prometia nada além da percepção do mundo como ele era/foi/é/será, conforme os códigos embutidos nas letras de suas canções. A música de David Bowie é, em muitos aspectos, sensorial (como as de tantos outros artistas), mas que também funciona muito bem no campo real – Quicksand ouvida na solidão de um quarto escuro, ou, Let’s Dance a todo volume num espaço aberto em um dia de sol — E essa junção tem um efeito tal, independente do personagem que Bowie incorpore, que assegura a atemporalidade irreversível de uma obra que se recusa a envelhecer, ainda que o tempo ou a tendência artística nela inserida esteja hoje restrita aos livros de História, ou nas atitudes passadistas daqueles fãs radicais e dados a um messianismo digno de pena.

Nestes quase 50 anos de vida artística, Bowie pariu Ziggy Stardust que, apoiado pelas Aranhas de Marte, pesou e mediu as possibilidades da androginia e da sexualidade, através de shows nada menos que hipnóticos – aqueles momentos em que um artista tem o público a seus pés, prontos a cumprir as ordens do mestre; fazer todas as suas vontades -. O álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (1972) é o retrato fiel do ponto a que se chega a arte além do mero entretenimento. Em um dos shows da turnê que se seguiu ao lançamento do disco, milagrosamente eternizado em filme, Ziggy, ao interpretar My Death, um clássico do belga Jacques Brel, no último verso “O que quer que esteja atrás daquela porta, não há muito a fazer/Anjo ou demônio, eu não me importo/Porque na frente daquela porta está você”, o cantor percebe a desnecessidade de proferir a palavra “você”, substituída por “eu”, por homens e mulheres na plateia, como um pedido para serem os escolhidos. Não muito tempo depois, David Bowie mataria Ziggy Stardust. Sua missão estava cumprida.

Ziggy Stardust foi uma fase. Bowie pariu novos personagens. Novas formas de formas de cativar o público. Novas formas de apresentar sua arte. Novos questionamentos estéticos, artísticos, culturais, enfim. David Bowie e sua inquietude indomável não se baseava apenas em seu talento nato. Outra característica que faz de Bowie uma figura singular é sua incrível capacidade de adaptação às mais diversas tendências musicais. E nelas as coisas aconteciam de tal modo, que acabavam por servir de referência a muitos outros artistas, que até hoje lhe rendem reverências, como um artista que, ao sair de uma cena, as coisas já não são como antes. Por outro lado, Bowie sofreu as consequências – e pagou o preço – pelos excessos a que se permitiu. Faz parte. Todavia, como os fatos mostram, nunca foi derrotado por suas, digamos, más escolhas e incorreções de rota. Daí vem, presumo, sua enorme capacidade de surpreender até mesmo seus críticos mais ferrenhos.

O cinema, o teatro e as artes plásticas também são outros campos de atividade em que David Bowie também se faz notar. No filme Furyo, em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence – 1983), de Nagisa Oshima – célebre diretor de O Império dos Sentidos – ele interpreta um soldado inglês prisioneiro do exército japonês. Embora não seja o personagem principal, Bowie mostra-se (ao menos naquele momento) totalmente desvinculado de sua figura de pop star; vê-se ali apenas um ótimo ator. E essa postura, salvo em situações extemporâneas, se manteve em outras atuações no cinema.

Prosseguir na análise mais que suspeita deste reles escriba, a respeito desse herói do nosso tempo, exige um grau de envolvimento que ultrapassa os limites destas páginas. Mas, a verdade é que David Bowie é absolutamente único em sua arte. É óbvio que há outros heróis, mas cada um deve ficar restrito às suas habilidades. Por outro lado, a trajetória de Bowie leva a muitos caminhos, muitos nomes. Realmente, não há espaço aqui para tanta gente. De todo modo, o fator surpresa continua sendo uma estratégia, premeditada ou não, para que o que autor de Starman, Heroes, Life On Mars, Heathen, Ashes to Ashes e Diamond Dogs, nos pregue uma peça, como naquele 11 de março de 2013.

Texto publicado na 2ª edição da revista “Gatos & Alfaces“, Março 2014

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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