Lazarus

Lazarus
“Look up here, I’m in Heaven / I’ve got scars that can’t be seen...” – David Bowie – Lazarus

Olhem a mim, estou morto há tempos sem lembrança
Mirem minhas faces pálidas, e sem mais a esperança
Chorem lágrimas de dor, orgasmos de seu despudor
E lambam ao escroto fétido de seu amado torturador.

Olhem a mim com seus olhos de cristal e merda pura
Retirem seus uniformes do armário, sirvam a ditadura
Armem barracas junto ao meu portão, roubem o resto
E digam aos companheiros que sou eu que não presto.

Olhem em meu rosto, e isto posto, mordam a jugular
Pois ainda há algo em mim que poderá lhes subjugar
Amarrem suas bandeiras imundas em meu pau roxo
E jurem que jamais seguirão outro poeta leso e coxo.

Olhem para dentro da minha sepultura no espelho
E percebam que nem tudo o que reluz é vermelho
Por fim olhem dentro das suas mentes embotadas
Há mais morte que nas suas histórias desbotadas.

Olhem para dentro de suas próprias sepulturas
E orem a si mesmos como se fossem esculturas
Mirem suas dores escondidas dentro do cimento
E admirem suas mortes, por mero esquecimento.

Olhem a mim do jeito que olham loucos e surdos
E enxerguem-me além de seus próprios absurdos
Percebam o que existe acima do seu próprio umbigo
E pensem que em seu coração é que reside o perigo.

Olhem para mim, bem dentro dos meus olhos mortos
E sintam a culpa, bem dentro de seus cérebros tortos
Já não existe perdão, tudo agora são meras desculpas
E se não devidas, não são minhas as divididas culpas.

Olhem a mim, que nada mais tenho a perder agora
O que sempre perdi foram segundos, nunca a hora
Perdi meu celular e a partida de um ônibus atrasado
E ninguém ligou e nem soube que eu estava arrasado.

Olhem ao redor, sintam suas perdas, façam as contas
Daquilo tudo que foi tirado à força, e das suas afrontas
Lembrem-se das cores que pintaram minha ausência
E de cor a cor da estrela que lhes causou a demência.

Olhem para cima, e caiam de joelhos diante de deuses
Que lhes ofuscaram a mente e coração durante meses
Abram uma garrafa, bebam até caírem no chão imundo
Pois serei tão eterno quanto é possível ser neste mundo.

Olhem abaixo e molhem as calças com medo da ciência
Pois aos vermes não são dados culpa e nem consciência
Sintam a podridão corroer-lhes as entranhas prostituídas
E morram sem saber o que são autoridades constituídas.

Olhem a si, estão todos mortos sem meu conhecimento
E mirem a morte como eu mirei sem o reconhecimento
E sintam a dor que eu senti, até não mais poder sentir
Dor que por poesia ou covardia, nunca poderia mentir.

16/07/2017

Memórias Arrependidas de Um Poeta Sem Pudor
(Antologia Poética, de 1978 a 2025)
Barata Cichetto
Gênero: Poesia
Ano: 2025
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 876
Impressão: Papel Pólen 80g
Capa: Dura
Tamanho: 16 × 23 × 5,2 cm
Peso: 1,50

Brindes Incluídos:
2 Marca-páginas da BarataVerso;
1 Marca-página BarataVerso em Couro;
2 Adesivos do BarataVerso;
1 Sobrecapa

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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