Eu confesso: João Luiz Woerdenbag Filho me enganou. O cantor, compositor, baterista e guitarrista surgido em meados dos anos 1970, naquele período em que o rock brasileiro estava ensanduichado entre o fim da Tropicália e o surgimento do chamado BRock, do qual é um dos primeiros personagens. O autor de inúmeros hits radiofônicos efeêmicos oitentistas e além, chegando até este mal parido século 21, na forma não dos tais hits, que ainda habitam as bocas e mentes, mas nos discursos virulentos disparados a esmo, porém, com endereços certos, a quem interessar possa. Ou não, como diria Caetano.
E aí? Cadê o engano? O que ele fez para eu achar que o autor de Vida Bandida me induziu a erros de avaliação de sua proposta artística e quetais? Resposta: nada. O que houve de minha parte foi uma interpretação redonda e sintética de um período da música, encapsulada na década de 80, eivada de modismos artificiais, caras e bocas multicoloridas, amorfas; de poses e perfis fabricados em departamentos de marketing das gravadoras, cujo objetivo (entre vários) era afinar a música às tendências de mercado e padrões do mercado consumidor jovem. Isto não era uma novidade. Já se fazia isso antes, e se faz até hoje. Mas é importante não colocar tudo no mesmo caldeirão. É necessário contextualizar e descontextualizar conforme cada caso. O tal BRrock merece um aparte. Ou um julgamento à parte. Deixo de lado Renato Russo, Cazuza, Nasi, Herbert Vianna, Lulu Santos, entre outros, para me concentrar na figura mais incômoda daquela geração, que também é quase a minha: Lobão.
A trajetória do irrequieto hit maker é bastante conhecida, dadas as polêmicas e arranca-rabos em que se envolve, seja com a imprensa, com os políticos, com a Justiça, e até com figuras do meio artístico, cuja lista de desafetos aumentou mais um pouco, em razão do lançamento de Manifesto do Nada na Terra do Nunca, seu mais recente livro, de certa forma, uma espécie de continuação de 50 Anos a Mil, um grande sucesso de vendas. Lobão, que já demonstrou inúmeras vezes não ter medo de caras feias, parte para novas – e, de novo, velhas – brigas, tendo como aríete o Manifesto… para arrombar os portões do castelo de maravilhas no qual se hospeda certa elite, que aposta no comodismo político como forma confortável de sobreviver sem muito esforço, produzindo arte dissociada da crítica política, mas com certa dose de crítica social, contudo, em doses suaves, para não incomodar o andar de cima, ou seja, o Poder, dono da caneta que assina o cheque, o convênio, o patrocínio, enfim, o mecenato estatal criador de uma enorme legião de dependentes, que aprendeu que calar não é mais apenas consentir, mas concordar, fazer cara de paisagem quando escândalos eclodem a todo instante, das alianças políticas espúrias, que unem fraternalmente inimigos de ontem, numa sociedade baseada no que há nos cofres públicos, enquanto a patuleia se contenta com os bolsas-qualquer coisa, nada mais do que uma reedição do voto de cabresto de outros tempos.
Ok. Lobão não é – nunca foi – um poço de virtudes. Seu novo livro não o redime de nada. Seus erros estão à vista de todos. Todavia, nenhum deles está vinculado ao estado de coisas denunciado em alto e bom uivo. As personalidades citadas no livro estão, como era de se esperar, reagindo mal ou fazendo figa para que a obra seja um fiasco, ou, que um dia, Lobão venha a corrigir uma eventual injustiça. Seja como for, as respostas de algumas das personalidades citadas já se fazem sentir, como, por exemplo, a do rapper Marcelo D2, numa reação bem humorada, ao que Lobão escreveu sobre o hip hop nacional, que virou um órgão de propaganda das ideias medíocres e revanchistas do PT: “Conheço Lobão, não sou amigo, mas conheço. Acho que opinião dele e pronto, não concordo com uma porrada de coisa que ele diz, mas concordo com outras. Isso me soou um pouco reacionário demais para um cara que nem o Lobão”.
Já Mano Brown, outro rapper famoso, líder dos Racionais MCs, reagiu de forma virulenta, chamando Lobão para resolver o assunto no tapa, em razão de seu grupo ter sido caracterizado como “(…) o braço armado do governo, são os anseios dos intelectuais petistas, propaganda de um comportamento seminal do PT. Não acredito em cara ressentido. Emicida, Criolo, todos têm essa postura, neguinho não olha, não te cumprimenta. Vai criar uma cizânia que nunca teve, ódios [raciais] estão sendo recrudescidos por razões históricas que nunca aconteceram aqui. Estão importando Black Panthers, Ku Klux Klan. Tem essa coisa de “branquinho, perdeu, vamos tomar seu lugar”. Como permitem esse discurso”.
Os dois exemplos acima deixam claro que parte considerável da classe artística, formadora de opinião por excelência, está deixando muito a dever, seja por alinhamento ideológico, apatia, dependência financeira via Lei Rouanet; o medo de dar a cara a tapa, encarar o desafio de se contrapor àquela figura ora cômica, ora sinistra, quando não contraditória, tida e havida como um libertador, um novo Pai dos Pobres — Luís Inácio Lula da Silva –, atualmente ex-Presidente da República, mas com grande influência sobre uma criatura sua, a Presidenta Dilma Roussef, apelidada de Gerentona, a qual não dá um passo sem antes consultar seu chefe. Por ora, como lugar-tenente, é ela quem mantém a cadeira de Lula aquecida, para quando ele quiser voltar ao poder. Como era de se esperar, Lobão não deixa Primeira Mulher da nação em melhor situação. Ele a detona: “Ela já foi terrorista. Ela sequestrou avião, ela pode ter matado. Como ela pode criar uma Comissão da Verdade e como presidente não se colocar? Deveria ser a primeira a ser averiguada”. Obviamente, Lobão está se referindo à tal comissão como um engodo criado para punir os agentes do regime militar acusados de torturas, mortes e outros excessos cometidos contra militantes de esquerda que, como se sabe, nada tinham de democratas, além do discurso “libertador”, haja visto que o objetivo deles era instalar uma outra forma de ditadura, ainda mais brutal e sanguinária. Ele e muita gente entende que, se a tal Comissão da Meia Verdade (ou da Meia Mentira) quisesse passar a limpo aquele período nebuloso da nossa História, deveria colocar ambos os lados diante da parede, cada parte com sua parcela de culpa devidamente exposta e julgada pela sociedade, sem maniqueísmo e sem vitimismo. Contudo, os ímpetos revanchistas do atual governo esbarram na Lei da Anistia, de 1979 que, para o bem ou para o mal, “perdoa” os crimes cometidos por ambos os lados. O “carinho” que Lobão dispensa à Presidenta rende um capítulo 3 com o jocoso título “Vamos assassinar a Presidenta da República?” O compositor de Me Chama deixa claro que o título é só uma brincadeira, mas todo o resto, não.
O elenco de personalidades e entidades listadas no Manifesto… Deixa claro que não haverá sossego, nem para eles, nem para o autor. Processos, patrulhamentos nas redes sociais, ataques e contra-ataques, disse-me-disses, insultos e tudo o mais virão no bojo do livro lançado agora, e que promete ser um campeão de vendas. Lobão sabe do rolo em que se meteu. Por outro lado, os alvos de suas mordidas ensaiarão, entre sorrisos amarelos, justificativas estapafúrdias, já que foram postos a nu diante do grande público. Talvez, o livro abra espaço para outros autores com propostas parecidas, com muita coisa para dizer, mas que não ousaram desafiar essa ditadura travestida que aí está, pelas razões mostradas no início desta matéria. Talvez a Lei Rouanet seja revista. Talvez artistas endinheirados banquem seus próprios espetáculos. Talvez artistas que não tenham rabo preso com o Governo percam o medo e o comodismo, e ponham boca no trombone, como nas décadas anteriores, em que os cassetetes faziam a diferença. Talvez a nova censura que está sendo costurada nos subterrâneos do Poder nunca vingue. Talvez a classe artística não se enquadre no que Marcelo D2 declarou na pequena entrevista que concedeu à revista Veja, ainda no contexto do novo livro de Lobão:
Repórter: Você acha que faltam músicos que lutem e protestem mais?
Marcelo D2: O Planet Hemp tinha um pouco disso, mas isso não é papel da arte, ela tem outro papel. Artista tem que fazer arte, se tiver alguém que queira fazer isso, tudo bem, levantar a placa, bater lata e tal. Já teve mais na época da ditadura, que foi pesado.”
Vamos então comprar o livro e pagar para ver.
Manifesto do Nada na Terra do Nunca
Lobão
Idioma: Português
País: Brasil
Editora: Nova Fronteira
Lançamento: 2013
Páginas: 248
Comprar: Amazon
Texto publicado na 4ª edição da revista digital “Pi2 (Politicamente Incorreto Ao Quadrado)“, Junho 2013.
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.
