Leio o obsoleto obituário de segunda feira
Como das salivas quotidianas da cidade avarenta
Derrubo os olhos em um espelho cego
Empresto meu rosto ao primeiro estranho passante
Perco-me entre os gritos de uma noite escura.
Se cabe a nota e o nome em um rodapé perdido,
Entre o verso, a rima e o desassossego.
Absorvo a parte da ladainha que me cabe
Ao resto, cedo ao tempo dos pobres pecadores
Pois minha carne, servida de alimento aos lobos
Dissolve-se no apuro estético, entre os dentes.
Já absolvido diante das paredes cruas,
Abençoa-me a vida, como num quadro de Dali,
Em seus devaneios de tintas cítricas, de o grande masturbador.
Quando tudo é perturbador diante do silêncio
Quando a voz se ausenta da garganta
E o medo faz secura nas cordas vocais.
As ondas se arremetem com bravura, contra as rochas ígneas,
E os rios seguem seus perenes traçados sinuosos.
Sigo o rito fúnebre dos aborígenes australianos,
A eles, meu empalhamento.
Um sem-fim de estratagemas infelizes
Sobre a solitária lápide fria cinzenta,
Os vocábulos e desígnios autônomos de um fim.
Quanto de adeus me dei ontem.
Se amanhece na manhã de amanhã.
Julho 2021