Quem pagará pelos mortos, pelas honrarias cívicas, pelos uivos e lamentos da noite, pelo desespero, pela falta e solidão.
Quem pagará pelo que não temos mais, pela fala, pela pele fria, pelo gozo perdido, pelo silêncio, pelo afeto e mão. Quem será o carrasco final para as nossas dores e omoplatas inchados, pelo alívio, pela corda cortada, pelo precipício e desfiladeiro, pelo vácuo neste instante exato de nada.
Quem arcará com a investigação da arcada dentária, do siso inexistente, da boca inerte, do que sucumbe ao asfalto, para que se descubra o nome do corpo, para que lhe batizem antes do fim, do limbo, do esquecimento, do álbum rasgado, do epitáfio inaudito.
Quem dará a propina ao próximo ladrão, quem esconderá as malas, quem falará em honestidade em rede aberta de televisão, quem pisará nas lamas do palácio, quem duvidará dos mortos e dos vivos injustiçados e presos, e amordaçados e levados pela enxurrada e correnteza, nas águas de um raivoso rio vermelho.
Quem serão os homens que rezarão a reza da salvação, que terão salvo conduto, que dirão palavras santas, que chamarão de amigos, que irão ao inferno, que dividirão o chão, o pão, os pesadelos, a casa simples, a comida corriqueira, o desespero do espelho.
Quem de nós será reminiscência, fato, acaso, de alguém.
Quem de nós viverá até o amanhã de amanhã, sem que lhes faltem hoje.

belíssima inspiração